Xadrez literário coloca em xeque a falta de interesse pela leitura

Xadrez literário coloca em xeque a falta de interesse pela leitura

Professora de Araçatuba (SP) usou a lógica do jogo de tabuleiro para engajar os alunos e mostrar que as obras literárias também podem ser desafiadoras

por Ana Lúcia Lopes Viana

Percebi que os meus alunos gostavam muito de desafios, mas não se engajavam em atividades de leitura. Pensando nisso, criei a atividade xadrez literário, que envolve obras literárias e técnicas do jogo. Para estimular a leitura, contextualizar disciplinas e trabalhar de forma lúdica, usei os livros “O diabo dos números” e “Alice no País das Maravilhas e Alice através do espelho”.

Tive como motivação desse projeto os alunos, em especial dois, que utilizavam a sala de leitura para jogar, mas não tinham interesse em obras literárias. Eles aproveitavam o espaço para ler regras de xadrez, conversar sobre jogos, mas não acreditavam que a leitura seria uma aliada na vida e nas jogadas de enxadristas.

Desafiada a fazer algo que despertasse a atenção deles, tive a ideia de elaborar um jogo de RPG (Role Playing Game) com pistas que levariam os alunos aos capítulos de livros para desvendar um enigma final e vencer uma jogada de xadrez. Meu objetivo era ampliar o número de leitores na turma e mostrar que a leitura poderia ser introduzida na vida como estratégia de solução aos problemas, além de também criar o senso crítico e desenvolver o raciocínio lógico com as palavras.

Como eu não tenho muito conhecimento em jogos de RPG e técnicas de xadrez, pedi aos alunos para me ajudarem a montar uma gincana literária. Tive que convencê-los de que era possível trabalhar leitura e interpretação de texto dentro de uma disputa de xadrez.

Diferente de uma partida tradicional, em um jogo de RPG os jogadores assumem papéis de personagens e criam narrativas de forma colaborativa. Para isso, construímos diversos enigmas que remetiam a livros, páginas e trechos da história que traziam instruções de jogadas para dar xeque mate.

Um dos alunos que me ajudou a construir essa atividade foi o Davi Queiroz, 16. Nas palavras dele, o jogo funciona da seguinte forma: “Cada pista indica a classe de um jogador: peão, cavalo, bispo ou rei/rainha. De acordo com a categoria, os participantes deveriam fazer as suas jogadas.”

Com os enigmas criados, eu tive a ideia usar QR Codes na hora de espalhar as pistas pela escola. Colocamos um roteador de internet na sala de leitura e no pátio para os alunos codificarem as dicas com a câmera do celular.

Depois dessa gincana, também fizemos uma atividade com o livro “Alice no País das Maravilhas e Alice através do espelho”. Usamos os personagens da obra, a leitura e as regras de xadrez para montar novas pistas. Para isso, trabalhamos em parceria com os ex-alunos e a turma da escola.

Após a gincana, os alunos começaram a usar o espaço da sala de leitura, não só para jogos, mas também para ler. Ali começou uma bela parceria. Essas atividades fomentaram na escola o desejo de jogar xadrez e, ao mesmo tempo, o interesse por livros literários.

Fonte: Porvir