Violência escolar pede coragem

Violência escolar pede coragem

O psicólogo Josafá Moreira da Cunha, doutor em Educação e pesquisador da UFPR, identifica só pelo olhar quando uma escola é propensa à violência. Pelo olhar dos alunos. “A gente entra e vê aqueles olhares perdidos. Percebe a falta de curiosidade, a ausência de contato com o outro. Um ambiente hostil é aquele em que as pessoas perderam a interação com os outros”, declarou o professor à Gazeta do Povo. Josafá figura entre os estudiosos que fizeram das relações entre educação e violência seu objeto de estudo. Para fazê-lo, atém-se a estatísticas, como as geradas pelo Programa Educacional de Resistências às Drogas e à Violência (Proerd), e um sem-número de instituições, inclusive internacionais. Mas se detém, em especial, sobre o que é o avesso da agressividade, de modo a entendê-la pelo seu contrário. Essas manifestações positivas não estão medidas – dão-se pela observação e pela convivência no ambiente escolar.

O professor pesquisa, por exemplo, como se dão as relações de amizade entre os jovens, investiga como constroem seus espaços de felicidade. Não raro, coloca os dois resultados um ao lado do outro, com vantagem, para surpresa, para aquelas que não saem nos noticiários policiais, contrariando os que preferem acreditar que a educação é refém da indisciplina. Chamado aqui e ali para mediar conflitos nas escolas, conta que se depara com mais alunos resilientes do que com alunos em posição de ataque.

Durante muito tempo, havia carência de estudos sobre o assunto, o que favorecia as teses mais obscurantistas. A violência era explicada como um problema de fora dos muros da escola. Sem reflexões que ajudassem os educadores a lidar com tráfico, com a agressão verbal e mesmo com o bullying, vigorava – e, em certa medida, ainda vigora – o paliativo: o problema, diz-se, está nos pais, na sociedade, nas companhias. “O professor se acha impotente. Tem medo da violência. Mas não a vê como consequência das relações interpessoais dentro da escola”, argumenta a pesquisadora Araci Asinelli da Luz, da UFPR, referência no assunto.

Tese de doutorado recém-defendida pelo capitão Luciano Blasius, da Polícia Militar, no Departamento de Educação da UFPR mostra que a escola reage cada vez mais às situações de violência – mas, agora, estudando-as. Entre 1994 e 2011, a Capes registrou 244 pesquisas, entre dissertações e teses, sobre o assunto. Não há um mapeamento sobre o teor desses estudos, mas se pode afirmar, com segurança, que eles avançam na percepção de um tipo peculiar de violência, a violência simbólica, qual como cunhou o sociólogo Pierre Bourdieu.

Não se quer dizer com isso que seja a escola a culpada do tráfico ou dos baixos vínculos familiares, apontados como gatilhos da violência escolar. Também não se quer negar a responsabilidade individual em cada episódio de violência cometida por alunos – em última instância, sempre há uma decisão profundamente pessoal por trás de cada ato. Mas há uma parcela da situação que passa pela sala de aula e pelo tratamento inadequado dado ao aluno, ou pela incapacidade de perceber a agressão que ele recebe dos colegas. Blasius apresenta histórias de estudantes que não se sentem pessoas no ambiente de ensino. Seja pelas instalações precárias, seja pelo baixo vínculo com a comunidade escolar. E propõe, nas entrelinhas, uma agenda de enfrentamento da violência no ambiente educacional. Uma das medidas seria preparar os professores para lidar com a indisciplina, com folga o maior nó dessa questão.

Os educadores se sentem agredidos, ressentem a falta de apoio dos pais, lamentam os alunos que têm, mas parece não restar outra saída senão ajudá-los a lidar com a questão. A percepção do bullying é uma das grandes carências em todo esse cenário. Nos dizeres da pesquisadora Araci Asinelli da Luz, da UFPR, somente uma escola que desperte para a noção de espaço de cuidado vai apurar sua percepção desse quadro.

Impressiona mais à comunidade escolar encontrar alguém com arma branca ou o desacato a um professor, mas milhares de alunos estão, de certa forma, sendo expulsos da escola todos os dias. Os observadores do Proerd sabem que os agressores, quase que a rigor, sofreram agressões em casa e as reproduzem. Sabem também que uma das matrizes da violência escolar passa pelos colegas das carteiras – e por suas ações fora dos limites da escola. A violência se esboça ali, de forma cruel. Difícil quantificá-la. Fácil percebê-la.

Fonte: Gazeta do Povo