Valorização da escola depende da revisão  do modelo educacional, diz Mozart Ramos

Valorização da escola depende da revisão do modelo educacional, diz Mozart Ramos

A valorização da escola depende da revisão do modelo educacional vigente no Brasil, no sentido de que as aulas sejam mais atrativas, interativas e com trabalhos em equipe. A posição foi defendida na noite da última quinta-feira, 23 de abril, no auditório da Fundação FEAC, por Mozart Neves Ramos, diretor de Articulação e Inovação do Instituto Ayrton Senna. Ele foi o conferencista da segunda edição dos Encontros Mensais do Compromisso Campinas pela Educação (CCE) de 2015.

O tema do CCE ao longo deste ano é a Valorização da Escola. Uma das principais referências hoje no Brasil quando o assunto é políticas públicas educacionais, Mozart falou então sobre “Os desafios da escola no século XXI”. Professores de escolas públicas e privadas, estudantes de Pedagogia, profissionais de organizações não-governamentais e produtores culturais participaram do Encontro, realizado excepcionalmente no dia 23, penúltima quinta-feira do mês, em função do feriado prolongado de 1º de maio. A partir de maio, os Encontros Mensais do CCE voltarão a ser realizados na última quinta-feira de cada mês.

Educação maior que a escola

Logo no início de sua exposição, Mozart Ramos lembrou que esteve “em todos os lados” da questão educacional, referindo-se a sua trajetória profissional e acadêmica. Ele foi secretário estadual de Educação de Pernambuco por quatro anos e, por oito anos, reitor da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE), onde lecionou por mais de 35 anos. Conhece, portanto, todos os lados dos formuladores e executores de políticas públicas educacionais, o que lhe permite ter uma visão mais ampla sobre os complexos desafios para a escola e a Educação no país. Também é membro do Conselho Nacional de Educação e foi dirigente do Movimento Nacional Todos Pela Educação.

Para Mozart Ramos, é essencial considerar, para que a escola seja valorizada, que o conceito de Educação “é maior do que os limites das paredes da sala de aula”. Ele observou que, no século XX, a informação estava disponível essencialmente na escola, na figura do professor e nas bibliotecas.

Mas esta realidade mudou muito, lembrou. “Hoje o jovem tem informação disponível em todo lugar e a qualquer momento, pelas novas plataformas de comunicação”, salientou. Para ele, o professor deve considerar essa realidade, no sentido de contribuir para a reformatação do processo de ensino e aprendizagem, começando pela reformulação das aulas.

Aulas mais dinâmicas, interativas, participativas, valorizando o trabalho em equipe e tratando os temas de forma contextualizada, considerando a vida e a realidade dos alunos do século XXI. Este é o perfil da nova sala de aula, defendeu o diretor do Instituto Ayrton Senna. “Estamos na Era da Participação, as tradicionais aulas expositivas não respondem aos desafios da sociedade contemporânea”, acrescentou.

Neste cenário, o professor assume um novo papel, mas continuando fundamental, na sua opinião, “o brilho nos olhos, o interesse real pelo ensino e aprendizado, pois os alunos sentem isso e a aula tem uma outra pegada”, sublinhou.

Plano de carreira e maior participação da Universidade

Valorizar a escola também depende da valorização do professor, e isso passa pela melhoria de sua formação, disse Mozart Ramos. Nesse sentido, lamentou o “distanciamento da Universidade do chão da escola de educação de base”.

Na sua avaliação, a Universidade deveria se voltar muito mais para contribuir com a qualificação da escola pública de base. Para isso, a Universidade poderia criar instâncias onde poderiam atuar aqueles professores e pesquisadores universitários que têm interesse na melhoria da educação básica. “Eles são minoria na Universidade, mas existem”, citou.

Naturalmente, a valorização do professor também depende da melhoria das condições financeiras e, sobretudo, da existência de um plano de carreira condizente. Atualmente, os professores ganham em média cerca de metade do que recebem os demais profissionais com a mesma titulação, segundo os últimos estudos da Pesquisa Nacional de Amostra por Domicílio (PNAD) do IBGE.

Uma das formas de equacionar o dilema do salário, acredita, é o maior investimento da União – conforme previsto no Plano Nacional de Educação – e o próprio redirecionamento dos gastos que ocorrem hoje. Ele lembrou que um aluno do ensino básico custa hoje, em média, R$5,2 mil anuais (contrastando com cerca de R$20 mil do aluno universitário, o que já é outra distorção).

Mozart fez um cálculo simples a partir desse número. “Anualmente, 1,3 milhão de alunos abandonam a escola e outros 3,2 milhões repetem de ano. Se o nosso sistema de ensino fosse aprimorado para evitar o abandono e a repetência, seriam cerca de R$ 24 bilhões por ano que poderiam ser investidos em pontos como a melhoria do salário do professor”, resumiu.

Para mudar a situação nacional da escola pública, acredita Mozart, é essencial “a vontade política” para a implementação das mudanças necessárias, na linha de colocar “a escola, a sala de aula e o professor com as reais demandas do século 21”. Do contrário, avisou, não adiantará a conquista da Meta 20 do PNE, estabelecendo que, até o final da vigência do Plano, em 2024, sejam destinados 10% do Produto Interno Bruto (PIB) para a Educação. “É preciso capacidade e vontade política para implementar as mudanças, para que tenhamos um sistema de fato eficiente, evitando o que acontece hoje, em que a cada 24 segundos um aluno abandona a escola. Não podemos deixar esse legado para as futuras gerações”, concluiu Mozart Neves Ramos.

O próximo Encontro Mensal do CCE acontece no dia 28 de maio, quinta-feira, a partir das 19h, no auditório da Fundação FEAC.
Informações: (19) 3794 3512