Uma breve passagem pela história da Educação

Uma breve passagem pela história da Educação

Daniela Jacinto

Com a proposta de servir como base de consulta para o educador e contribuir não apenas com seu conhecimento mas também para que decida, entre a pluralidade de modelos pedagógicos, qual é o mais adequado à sua realidade, é que foi publicado o livro Fundamentos da Educação: recortes e discussões – Volume 2 organizado pelos professores doutores Paulo Gomes Lima e Silvio Cesar Moral Marques, ambos docentes da UFSCar. Na edição da quinta-feira passada, o Educare abordou o tema por meio de entrevista com Paulo e Silvio. Na edição de hoje, a ideia é proporcionar a você, leitor, uma breve passagem pela história da Educação, para que entenda um pouco mais sobre esse processo.

Os capítulos do livro – elaborados por diversos autores – compreendem a Educação desde a Idade Antiga até o período da Idade Média, com o surgimento das universidades. É possível notar que a Educação não acontece de forma dissociada dos arranjos dos Estados, da cultura, das políticas e das condições historicamente produzidas. Por isso a necessidade de conhecer mais intensamente os processos de produção do conhecimento no tempo histórico, esforço contemplado pela obra.

O livro começa com texto do professor Elicio Gomes Lima, apresentando uma análise da educação primitiva, nas eras da pré-história humana, desde o surgimento dos primeiros hominídeos, do Homo sapiens, até o aparecimento da escrita, em torno de 4.000 a.C., onde já aparece a preocupação por uma educação intencional, voltada à transmissão de conhecimentos e à formação das novas gerações.

Na sequência, o professor Gabriel Lomba Santiago trata sobre a educação chinesa. A moral, a família, o meio ambiente e a cosmologia interagiam para moldar o homem virtuoso, responsável e criativo a caminho da sabedoria. Rute de Carvalho Angelini, tem como tema a educação hindu. Na Índia, o misticismo revela uma significativa riqueza de conhecimentos culturais, sociais e educacionais. O sistema político e o religioso dão sustentação ao processo educativo.

Vânia Lúcia Ruas Chelotti de Moraes fala sobre a educação egípcia. Essa civilização representou, para os povos ocidentais, o berço da educação, contribuindo com componentes fundamentais para a forma com que a educação veio a se estruturar ao longo do processo histórico. O ensino no Egito está relacionado com a religião e com a cultura segundo o modelo de classe e de governo, o que pressupõe uma educação exclusivamente tradicionalista, com o objetivo de assegurar a perpetuação da estrutura social vigente.

Rubens Rodrigues Lima traz à luz a educação hebraica. Aqui, o foco era diferenciado, sobretudo pelo profundo conteúdo moral da religiosidade do povo hebreu. Tudo precisava fazer sentido na educação de uma criança, desde a escolha do nome, que deveria ser relacionado à índole do indivíduo, ou em homenagem a algum parente que teve uma marcante liderança ou história de vida. Na educação hebraica, há uma forte preocupação em não deixar o povo fadado ao esquecimento da fonte de sua identidade: Deus.

A professora Flávia Leila da Silva aborda A educação heroica – a Odisseia e a Ilíada, apresentando reflexões presentes nos poemas de Homero: Ilíada e Odisseia. Nestas obras Homero preocupou-se com a formação dos jovens guerreiros, por meio de uma educação que reunia aspectos éticos e estéticos na busca por um modelo ideal de homem. Pelo contato com estes poemas, os jovens gregos que pertenciam à aristocracia eram inspirados pela busca das virtudes que possuíam seus personagens, como a honra, coragem e a amizade. O papel destes poemas visava a formação de um modelo educacional que iria ao longo do tempo influenciar de forma considerável as concepções educacionais ocidentais.

Izabel de Carvalho Gonçalves Dias trata da educação cívica em Esparta e Atenas. As duas cidades gregas se rivalizavam e são as que mais se destacaram na Grécia Antiga. Esparta, uma sociedade de regime autoritário militarizado, com uma educação de caráter totalitário e civismo repressivo, com os interesses voltados para o Estado. Atenas, uma sociedade aberta, democrática para o padrão daquela época e que priorizava a formação integral do homem, a partir de uma tipologia educacional como meio para o indivíduo alcançar o conhecimento da verdade, da justiça, do belo e da virtude, para prática ideal da cidadania plena.

Filósofos contribuiram muito

O livro também destaca a colaboração de filósofos que tiveram forte atuação na área da educação. Em pensamento pedagógico de Sócrates, tema desenvolvido por Carolina Aparecida Rosa, a autora lembra que Sócrates tinha um método de ensino de base filosófica centrado na ironia e maiêutica, bem como o conceito de Paideia diferenciado. O posicionamento crítico e instigador sustentado por Sócrates, aplicados à realidade e prática filosófica, podem inspirar o educador contemporâneo, considerando a necessidade de autoanálise e autoconhecimento para a formulação de questionamentos frente às orientações de sistemas educacionais meramente reprodutivistas.

Kleyton Carlos Ferreira escreveu sobre o pensamento pedagógico de Platão destacando que, para Platão, seria tarefa da sociedade aprender a valorizar preceitos educativos da ética, moral e justiça social para que fossem constituídos como sujeitos do bem (cidadãos morais). Para isso, o campo da filosofia política não deveria estar distanciado da pedagogia e da arte, dentre outras áreas do conhecimento. A educação em Platão deveria ser acompanhada de um projeto político, o que evitaria a uniformização dos cidadãos, auxiliando-os a se perceberem como tais, de acordo as habilidades de cada um, tendo como fim a produção de bens para todos, assim tudo o que seria produzido deveria ser compartilhado de maneira justa.

A professora Telma Elizabete de Moraes aborda pensamento pedagógico de Isócrates, que na história da educação destaca-se como fundador de uma das escolas em Atenas, em torno do ano 390 a.C. Suas ideias afastavam-se das dos seus opositores, os mestres Sofistas, dentre os quais Platão, por isso afirma não crer na retórica tradicional e na possibilidade da educação que prometia aos jovens atenienses a felicidade (eudaimonia) e o ensino da virtude (areté), ignorando-se os limites da paidéia. Para Isócrates, o poder da educação e da cultura seriam os únicos instrumentos que levariam o povo grego a conquistar uma estrutura política que beneficiasse a pólis inteira. A paidéia política de sua escola levava em consideração a natureza do indivíduo (physis), a experiência (empeiria) e a educação (paideusis) e sua doutrina buscava formar homens prudentes na arte de governar. Isócrates foi reconhecido como grande influenciador da história de Atenas e um dos mais destacados representantes da retórica grega.

Aprender a viver de forma digna

A obra ainda lembra do pensamento pedagógico helenístico, capítulo escrito pela professora Cristiane de Sá Dan. A educação nesse período deve ser considerada como o centro de todo o quadro da civilização. Os educadores novos, além de estimularem o homem a pesquisar em torno da verdade, procuravam destacar a necessidade de aprender a viver de forma digna, tornando a transmissão da prática de valores um assunto primordial das escolas na época.

Na sequência, Meira Chaves Pereira escreveu sobre a educação romana, que é dividida em três períodos. Na época heroico-patrícia, a educação era de responsabilidade da família, sendo o pai a máxima autoridade. Cabia à esposa transmitir aos filhos os primeiros rudimentos da escrita, e ao marido todo o resto. Depois, a educação romana sofreu influência grega e então foram criadas as escolas. Já na época do império, surgem as escolas municipais, para preparar os funcionários que necessitavam de formação superior para suprir as necessidades do império.

A professora Noêmia de Carvalho Garrido discute o pensamento pedagógico de Santo Agostinho, onde o processo educativo tem como pano de fundo o papel da igreja, o cristianismo e a busca de resposta para as manifestações do mundo no dogmatismo relacionado à origem divina.

A professora Silmara Aparecida Lopes trata do pensamento pedagógico na Ordem dos Beneditinos (São Bento de Núrsia), que tem como fio condutor a educação cristã na primeira fase da Idade Média. As escolas monásticas constituíram-se como uma das principais instituições educativas dessa fase, tornando-se espaço especial de preservação da vida, da cultura e da escrita no Ocidente medievo.
Já o pensamento pedagógico na Ordem dos Dominicanos, escrito pela professora Mariclei Przylepa, mostra que para os pregadores, ensinar era ato de misericórdia. Por meio do ensino, eles queriam conquistar seu grande objetivo: a cura da alma. Desenvolveram para isso todo um sistema educativo.

Ester Chichaveke trata do pensamento pedagógico na Ordem dos Franciscanos, que teve destaque durante a Idade Média Ocidental. Eles fundaram centros de instrução, favorecendo especialmente as classes populares, convictos de que era necessário utilizar-se da cultura letrada para atingir a ciência teológica conducente a Deus. Em terras brasileiras e em era colonial, foram os pioneiros na missão e na instrução, de forma que ensinaram as primeiras letras aos nativos, aos descendentes de colonos e aos negros.

O próximo capítulo fala sobre a formação do pensamento pedagógico cristão no período da Alta Idade Média, que influenciou na educação Ocidental. Aqui, a professora Sonia Maria Borges de Oliveira explica que a educação nesse período tinha a visão teocêntrica como fundamento para a ação pedagógica e buscava conduzir o povo ao alcance da plenitude da vida moral e espiritual.

Alessandra Cristina Furtado e Adriana Aparecida Pinto desenvolveram temática sobre a educação na Baixa Idade Média lembrando que as escolas episcopais e as universidades foram consolidadas nessa época e sua forma de organização estrutural e didática foi amplamente utilizada, contribuindo para a organização de um modelo de educação que serviria de base para, nos séculos seguintes, dar origem à criação das escolas laicas e regulares, como as conhecidas já no século 20.

No último capítulo, o professor Edson Segamarchi dos Santos desdobrou a temática sobre o surgimento da universidade e a escolástica como meio pedagógico, tecendo considerações acerca do método escolástico, criado no interior da Igreja Católica durante a Idade Média, e que remete à ideia de escola que vai se desenvolver em períodos posteriores. Faz-se necessário ressaltar que a Escolástica expressou, em boa medida, o pensamento e o modo de ser do homem medieval. O autor também fala da relação existente entre a Escolástica e o surgimento das primeiras universidades na Europa. E faz pontuações sobre as transformações econômicas, políticas e sociais ocorridas no fim do medievo e que impactaram decisivamente os inúmeros campos de atividade humana, incluindo a educação.

Fonte: Cruzeiro do Sul