“Se a escola é ruim em um período, em dois ela é pior”

“Se a escola é ruim em um período, em dois ela é pior”

Entrevista com GUIOMAR NAMO DE MELLO, presidente do Conselho Estadual de Educação de São Paulo

A educadora considera excessiva a jornada diária de sete horas prevista no Plano Nacional da Educação e afirma que o problema é o aproveitamento das horas na escola brasileira

Aumentar carga horária significa aumentar a aprendizagem?

O problema de aumentar é oferecer duas vezes uma escola ruim. Se a escola é ruim em um período, em dois períodos ela é pior. Se aumenta o tempo de aula para aumentar o tempo de aprendizagem, pode ser eficiente. Mas a noção que a gente tem de escola de período integral é que no contraturno a criança fica fazendo aula de dança, de capoeira etc. São duas escolas sobrepostas. Bate até um negócio quando me dizem: vou trazer um presentinho que é feito pelas crianças do tempo integral. E aí é pano de prato que não enxuga ou trabalhos manuais muito ruins.

A escola que faz isso é de tempo integral?

Não. Além do mais, a escola não precisa ser integral. A grande maioria, nos países desenvolvidos, funciona com cinco ou seis horas por dia. A criança entra pelas 9h e saí às 15h30min, 16h, com intervalo de almoço. O Brasil não é muito diferente em quantidade de horas. O problema aqui é o tempo que se perde para entrar, para sair e nos intervalos de troca dos professores. O tempo que se destina à aprendizagem acaba sendo menor do que quatro horas.

Se é assim, porque se defende tanto no Brasil que a criança deve passar o dia na escola?

Acho que isso vem de uma mentalidade assistencialista. Não é que a criança precisa desse tempo para aprender, é que a escola precisa guardar essa criança para ela não estar na rua, abandonada. Vejo com preocupação o processo que estamos passando, porque vamos gastar dinheiro e provavelmente não vai melhorar o ensino. O que nós educadores sempre dissemos é que o tempo na nossa escola não deveria ser segmentado, mas não precisaria necessariamente de escola integral.

As setes horas previstas no Plano Nacional de Educação são adequadas?

Não. É muito. No máximo, deveria ser seis. Mas cinco horas já estaria muito bom. Não tem sentido a criança ficar sete horas na escola. Mais importante é que exista um turno só de alunos na escola, um grupo só que entra e sai no mesmo horário. Aí há mais tranquilidade para entrar, para sair, para fazer os trabalhos.

Muitas escolas particulares estão aumentado a carga horária. Isso deve pesar na hora de escolher onde se matricular?

Isso está muito ligado com o preparo para o vestibular. O critério não deve necessariamente ser a quantidade de horas. O pai tem de ver como a escola tem se saído nas avaliações. Às vezes, a escola não tem uma carga horária tão grande, mas passa muito trabalho para casa. Um pai talvez prefira que o aluno fique mais na escola, para não ter de supervisioná-lo. Depende das expectativas de cada um.

Fonte: Zero Hora