Refletindo sobre a educação brasileira

Refletindo sobre a educação brasileira

Maria Elizabeth Sacchetto

Quase 40 anos de magistério me permitem uma reflexão sobre a educação no Brasil. Não ministrei aulas na escola pública nem em universidade federal. Minha experiência na docência limitou-se à educação privada, em escola de educação básica e em faculdade particular. Foram 30 anos dedicados aos ensinos fundamental e médio e 27 anos ao ensino superior, lecionando língua portuguesa e literatura brasileira. Durante esse tempo, vivenciei muitas mudanças, determinadas pelos planos de governo, para garantir a qualidade do ensino, tornando a educação um direito para todos. Várias vezes, moldei o fazer pedagógico às orientações e exigências pautadas pelos novos paradigmas educacionais, acompanhando e analisando os resultados dessas transformações.

Na década de 1990, com a promulgação da Lei nº 9.394, em substituição à Lei nº 5.692, que vigorou por 25 anos, a educação tomou novo rumo. Os Parâmetros Curriculares Nacionais (PCNs) e as diretrizes curriculares exigiram, dos profissionais da educação, estudo e trabalho para implantação de novas metodologias e estratégias de ensino.

Implantou-se, nessa mesma década, o sistema nacional de avaliação educacional, que, a princípio, se limitava à sala de aula, ao dia a dia do professor, à verificação da aprendizagem, buscou outro caminho, a avaliação do desempenho escolar em larga escala, realizada por agente externo, com o propósito de produzir informações sobre a realidade educacional do país, a fim de que as políticas educacionais pudessem ser revistas, para garantia da qualidade e da equidade em educação. Destacam-se a autoavaliação, que tem o Exame Nacional do Ensino Médio (Enem) como exemplo; a certificação, representada pelo Exame Nacional para Certificação de Competências de Jovens e Adultos (Encceja); as avaliações diagnósticas, como a Provinha e a Prova Brasil; entre outras.

Vislumbravam-se, desde os anos 1990, como veio a acontecer, normas diferenciadas para o ingresso no ensino superior, que teve suas portas alargadas, na mesma década, pela criação de faculdades, centros universitários e até universidades privadas. Gradativamente, outras medidas foram incorporadas ao sistema educacional, visando à facilitação do acesso ao ensino superior. Os vestibulares seriados, adotados por algumas universidades; o sistema de cotas; o Sistema de Seleção Unificada (Sisu); o Programa de Financiamento Estudantil (Fies); o Programa Universidade Para Todos (ProUni); o Enem, já mencionado, constituíram-se como oportunidades dadas a todos. Cabe, também, um olhar para a modalidade EaD (educação a distância) e para os cursos de graduação tecnológica, que trouxeram mais opções.

Vê-se, hoje, que a educação superior abriu-se para todos os segmentos da sociedade, mas sinto a falta de um ensino profissionalizante, de nível médio, para todos, experiência vivida, no passado, pelas escolas de iniciativa privada. A criação do Programa Nacional de Acesso ao Ensino Técnico e Emprego (Pronatec), em 2011, contemplou, apenas, as escolas públicas estaduais, os Institutos Federais de Educação, Ciência e Tecnologia e os Serviços Nacionais de Aprendizagem — como o Senai e o Senac. A Portaria nº 701, de 13 de agosto, alterou a anterior, dispondo sobre a habilitação das instituições privadas de ensino superior e de educação profissional técnica, de nível médio, ao programa, mas ainda não se estabeleceu, no currículo, obrigatoriamente, a educação profissionalizante.

Quanto à educação superior, a cada ano, tem-se constatado que os ingressantes trazem uma bagagem menor, demonstrando que os pré-requisitos não foram alcançados. Parte do público que ascende ao ensino superior não detém os domínios básicos necessários a esse acesso. Surgem, dessa realidade, indagações que não se calam: em que e por que erramos? O que precisa ser revisto, principalmente nos pilares de sustentação do processo educacional?

O tempo urge e não podemos ficar parados à espera de um milagre. Milagres só acontecem porque agimos com fé. Precisamos da crença de que somos capazes de mudar, não para termos dados estatísticos satisfatórios, mas para que atinjamos o esperado: pessoas aptas ao exercício da cidadania e para a atuação profissional.

Fonte: Correio Web