Quem deve fazer a revolução no ensino?

Quem deve fazer a revolução no ensino?

Para a educadora Maria de Lourdes Spazziani, uma das organizadoras da obra Por uma revolução no campo da formação de professores, da Editora Unesp, essa tarefa cabe sempre aos profissionais da área de Educação, que não devem ficar esperando que outros façam sua parte. A obra, além de levantar questões sobre aspectos conceituais da Educação, trata de temas práticos como ensino a distância e estágio. A questão da formação dos professores é contemplada com destaque no livro, justamente porque são eles os responsáveis por ensinar crianças, jovens e adultos nos diversos momentos da vida acadêmica. O livro tem a participação de Bernardete Angelina Gatti, Celestino Alves da Silva Junior, Maria Dalva Pagotto e Maria da Graça Nicoletti Mizukami. A obra nasceu dos debates e proposições do II Congresso Nacional de Formação de Professores e do XII Congresso Estadual Paulista sobre Formação de Educadores, realizados em 2014. Maria de Lourdes Spazziani é professora da Unesp, possui graduação em Ciências Biológicas e Pedagogia, mestrado em Educação pela Universidade Federal do Rio de Janeiro, doutorado em Educação pela Unicamp e pós-doutoramento em Educação Ambiental pela USP. Segundo ela, de acordo com a definição de Paulo Freire, o bom professor é aquele que acredita que a educação sozinha não transforma a sociedade, mas sem ela tampouco a sociedade muda. E concorda com os especialistas que apontam a necessidade de valorizar a carreira de professor. “Isso passa pela melhoria significativa do plano de carreira. Paralelamente e, na sequência, captar e manter os professores mais talentosos no quadro”, diz.

Confira a entrevista na íntegra:

Quais são os principais desafios do ensino no século 21?
Ensinar somente se qualifica como um processo quando associamos ao aprender, formando um ciclo de aprendizado. Os desafios para que esse processo se efetive é termos, em primeiro lugar, clareza de quais aprendizados são fundamentais para promover a humanização qualificada de nossas crianças e jovens. O segundo desafio é requalificar os conteúdos e os conceitos essenciais historicamente acumulados que devem ser apropriados pelos estudantes. O terceiro, e não menos importante, é requalificar as estratégias de ensino já existentes e de domínio dos profissionais da educação e associá-las, relacioná-las às novas linguagens e recursos tecnológicos.

Os professores estão preparados para esses desafios?
Infelizmente não. Primeiro pela desvalorização da carreira, dificultando o empenho dos profissionais em processos de requalificação. As condições de trabalho bastante precárias, quer seja do ponto de vista de estrutura física, quer seja do ponto de vista de termos algumas propostas educativas motivadoras, favorecem o despreparo pedagógico dos docentes.

Quais os principais problemas nos cursos de formação?
O investimento das políticas públicas para a qualificação/valorização dos cursos de formação de professores, no nível superior, pode-se dizer que é muito recente. O que ainda perdura em grande parte dos projetos pedagógicos dos cursos é a ênfase na formação de conhecimentos específicos desarticulados da formação didático-pedagógica e pouco ou nenhuma experiência com a prática no contexto profissional. Os estágios curriculares obrigatórios ainda são realizados de forma insuficiente para que os futuros profissionais vivenciem e se apropriem de conhecimentos e reflexões sobre as necessidades para o exercício da docência.

Ensinar não tem sido valorizado. Como mudar essa visão e conseguir professores realmente comprometidos?
Entendo que não é o ensinar que está desvalorizado, mas a carreira de professor. Acho que é fundamental valorizar a profissão de professor, que passa pela melhoria significativa do plano de carreira. Paralelamente e, na sequência, captar e manter os professores mais talentosos no quadro.

Os professores estão sabendo lidar com as novas tecnologias?
No momento não. Mas considero este fato consequência da falta de estímulo atual da carreira.

Como lidar com esses alunos nativos digitais em um ensino do século passado?
Hoje temos os nativos digitais, ontem tínhamos os hiperativos, e um pouco mais atrás eram os rebeldes dos anos dourados. Ou seja, as novas gerações, geralmente, apresentam comportamentos que provocam transformações muitas vezes inovadoras. As instituições educativas, nas sociedades escolarizadas, têm como sua principal missão justamente saber e se superar a cada momento histórico para prover as novas gerações da cultural geral, dos conhecimentos científicos e da apropriação de valores e competências da atualidade. Portanto, é da natureza da escola o movimento, a transformação, a inovação para cumprir de forma qualificada e sua missão que é a formação intelectual, social e política dos jovens para prover plenamente o seu processo de humanização, como propunha Vigotski [Lev Semenovich Vigotski, psicólogo bielo-russo, foi pioneiro na noção de que o desenvolvimento intelectual das crianças ocorre em função das interações sociais e condições de vida].

Educação a distância cresce no País. É a solução?
Nunca. Se assim o fosse, os “Institutos Universais” já na década de 1960 teriam equacionado os problemas de analfabetismo do país. Entretanto, pode contribuir, especialmente em determinados setores e regiões, para a democratização do acesso a processos formativos específicos.

Como o estágio supervisionado pode melhorar a formação?
Primeiro, o estágio curricular obrigatório dos estudantes dos cursos de licenciatura tem que ser efetivamente acompanhado por professores qualificados das IES, inclusive no campo de estágio. Segundo, e não menos importante, as escolas de educação básica precisam se preparar para receber, acompanhar e valorizar os estágios ali realizados.

E o currículo nacional, resolve?
A BNCC que está sendo proposta pelo MEC é um desejo e uma reivindicação antiga de estudiosos e demais profissionais da área da educação. Elaborada de forma adequada, bem fundamentada e consensuada no âmbito da comunidade acadêmica e profissional, ela pode contribuir para garantir que todas as crianças e jovens de qualquer estado ou município brasileiro se apropriem de conhecimentos e adquiram competências fundamentais equivalentes. E, por outro lado, pode favorecer a inclusão de aprendizados considerados complementares em acordo com o contexto local ou regional. Entretanto, o documento que está em consulta pública se encontra ainda muito aquém das expectativas e das necessidades de currículo nacional básico que o nosso país precisa e merece.

O que mudou no papel do professor no mundo de hoje?
O professor precisa, além de dominar o conhecimento especifico de sua área de formação, conhecer as metodologias da disciplina, dominar o conhecimento do campo pedagógico, das políticas educativas, dos sistemas gerais de avaliações. E também participar dos movimentos e entidades de classe e, acima de tudo, estar sempre disponível para aprender, especialmente quando na interação com os seus estudantes.

As faculdades de formação têm procurado melhorar?
Sim, especialmente, ao atender de forma criativa e articulada as legislações recentes, assim como, as políticas federais, como o PIBID, o Parfor, o Prodocência, o PLI, entre outras que têm favorecido e valorizado a formação pedagógica do professor.

Como superar as práticas tradicionais e buscar novas ferramentas e conhecimentos?
Valorizar, valorizar e valorizar a educação básica pública.

Fonte: Frankfurter Buchmesse