Professores a distância

Professores a distância

Antônio Gois

O Censo da Educação Superior, que o MEC divulgou na semana passada, mostra o crescimento das matrículas em cursos universitários a distância. Num país com dimensões continentais como o Brasil, é natural que essa modalidade ocupe um espaço relevante. Há, porém, um dado que precisa ser acompanhado de perto, pelo potencial de impactar fortemente a qualidade do ensino na educação básica: os cursos que mais têm atraído alunos para esse formato são os de formação de professores, especialmente em instituições privadas.

Em 2005, de cada 100 alunos que ingressavam em alguma licenciatura, 20 escolhiam estudar num curso a distância. Dez anos depois, essa proporção aumentou para 48, ou seja, praticamente metade dos calouros em cursos de formação de professor estudarão a distância. É o maior percentual entre as grandes áreas analisadas no censo elaborado pelo Inep, órgão do MEC responsável pelas estatísticas e avaliações educacionais.

Pensando num modelo de curso com forte ênfase na teoria, a formação de professores à distância geraria menos preocupação, se fosse reservado também um tempo para as atividades presenciais e estágios já obrigatórios. A questão é que há uma forte pressão, e não apenas no Brasil, para que os cursos de formação de docentes dêem mais ênfase à preparação do professor para o desafio que ele enfrentará, na prática, em sala de aula. O exemplo mais citado para justificar esse movimento é o da medicina, onde é inconcebível que um futuro médico seja diplomado sem ter dedicado boa parte de sua formação a atividades em que tenha colocado em prática, e com a supervisão de um profissional experiente, o que estudou na teoria.

É importante considerar também que, infelizmente, os jovens que são atraídos para os cursos de formação de professores são aqueles que têm, em comparação com carreiras mais disputadas, menores médias no Enem, de acordo dados divulgados pelo Inep também na apresentação do Censo da Educação Superior. Garantir que esse jovem tenha sólida formação (na universidade e em serviço), capaz de prepará-lo para os enormes desafios que enfrentará quando ingressar numa sala de aula, é das tarefas mais prioritárias da educação brasileira.

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Outro dado que também merece atenção nas estatísticas da educação superior é a quantidade de jovens que abandonam o curso superior no meio do caminho. Pela primeira vez, o Inep conseguiu fazer essa conta acompanhando a trajetória de uma mesma geração de alunos, no caso, a dos que ingressaram no ensino superior em 2010. Cinco anos depois, só 30% haviam concluído o curso e 49% abandonaram. A taxa de abandono, que sugere um sério problema de eficiência do sistema, é alta tanto na rede federal (43%) quanto na particular (53%), e o problema é ainda mais grave em alguns cursos, caso de engenharia (56% de abandono) ou em licenciaturas para professores em áreas de exatas, chegando a 57% nos cursos de formação de professores de física.

Fonte: O Globo