Perdas de audição leves e moderadas podem ser identificadas na idade escolar

Perdas de audição leves e moderadas podem ser identificadas na idade escolar

Telma Silvério

Trocas na fala (problemas com a linguagem), desatenção e desobediência na classe, além da dificuldade em atender quando está de costa ou a certa distância podem indicar alguma deficiência auditiva. As observações que servem de alerta – especialmente aos docentes – são da fonoaudióloga Angelina Martinez, que é a atual presidente e uma das fundadoras da Associação de Pais e Amigos dos Deficientes Auditivos de Sorocaba (Apadas). A especialista fala da importância do professor na identificação das perdas auditivas, principalmente das leves e moderadas. “Pode (professor) fazer toda a diferença na vida de uma criança porque as perdas leves e moderadas são identificadas com mais frequência na idade escolar, então seu papel é fundamental tanto na descoberta do problema quanto no trabalho com essa criança que deve ter a mesma oportunidade que as outras”, destaca.

A fonoaudióloga explica que a Apadas – completa 26 anos de existência dia 8 de agosto – trabalha desde a sua fundação com professores, no sentido de identificar casos de perdas auditivas. Também oferece treinamento e orientações sobre o sistema de comunicação sem fio ou sistema FM. Trata-se do aparelho auditivo acompanhado de microfone de transmissor FM para uso do professor. O aluno é quem opta pela ferramenta na aprendizagem, mas pode ser utilizado em casa para ouvir som, assistir tevê ou acesso a videos, conta. Antes, a educação era organizada para receber crianças sem aparelhos e reabilitação e, consequentemente, sem desenvolvimento da linguagem, observa. “Houve, então, um enfoque grande da educação na inclusão, mas pela Língua Brasileira de Sinais (Libras).” Ela cita o uso de intérpretes e o treinamento de professores da rede pública.

Nos dias atuais a realidade é outra. Os pais, com ajuda profissional, escolhem a melhor forma para desenvolver a linguagem do filho, seja oral, Libras ou aparelho. Para algumas há indicação clínica, mas a decisão é sempre da família, revela. “A educação tinha que se modificar porque estava treinada somente para Libras. Hoje existem crianças com aparelho auditivo, implante, e muitas falam desde pequena”, justifica. Mas, para desenvolver a linguagem é preciso mudar esse conceito de que a criança com aparelho ou implante pode falar normalmente. “Se a criança fala acham que não precisa de nada na escola, mas ela ouve com um aparelho. Pode a sala estar em silêncio, se uma criança atrás estiver mexendo com a caneta, por exemplo, é este o barulho que ela vai ouvir, que é captado pelo microfone.”

Alfabetização

Angelina esclarece que as perdas auditivas leves e moderadas sempre foram percebidas durante a alfabetização. Diferente da perda mais profunda, em que a percepção ocorre em casa, ao constatar dificuldades na fala. Quando não obtém respostas aos sons ambientais, exemplifica ela. Apesar de indícios e possível deficiência, o problema começa a ser percebido em casa a partir de 1 ano, no entanto, a idade do diagnóstico – antes de se tornar obrigatório o teste da orelhinha – era somente aos 2 anos, revela a médica. “Até 1 ano as brincadeiras são muito próximas. A criança mostra o que quer e as pessoas acham normal. É a fase em que ela começa a andar e a falar que chama a atenção, mas, às vezes, esperam muito tempo porque alguém da família demorou mais para falar”, observa.

Leves e moderadas

Muitas pessoas têm ideia equivocada sobre a audição. “É uma relação de tudo ou nada. Ou é surdo ou é ouvinte. E não é. Assim como a visão a audição tem graus de perdas.” A perda mais profunda se percebe cedo, enquanto as leves e moderadas passam desapercebidas, inclusive para os pais. “A mãe acha que não está prestando atenção porque a tevê está ligada, então chega perto e grita, então ele ouve. Acha que é por desobediência ou desatenção e segue outros caminhos.” Não é raro encaminhamentos de outros profissionais como neurologistas, psicólogos e, claro, professores. Atualmente as crianças vão cada vez mais cedo para escolas de educação infantil e creches, e o professor atento a ruídos e distância consegue identificar mais facilmente o que a família nem sempre percebe.

Na fase de alfabetização vários indícios podem ser observados. Se quando você chama e ela não atende quando está de costa, um pouco mais distante ou quando há barulho na classe; e não fala tão certinho como os colegas é importante encaminhar para avaliação audiológica, orienta. “Você fala baixo e percebe que a criança não entende, então fala mais alto e ela olha. É preciso uma avaliação auditiva.” Angelina Martinez informa que, assim como o trabalho nas maternidades, existe proposta de se fazer triagem auditiva em escolares. Por outro lado lembra das várias perdas auditivas. “Você só faz no bebê que passa na triagem. Naquele momento ela escuta, mas existem perdas que são de aparecimento tardio e progressivas”, alerta.

Fatores de risco

A fonoaudióloga destaca a importância do acompanhamento em casos de fatores de risco. Entre os fatores de risco que devem ser acompanhados por profissionais está a hereditariedade, quando há casos na família; e se a mãe teve alguma infecção durante gestação como rubéola (a maior parte da população está vacinada, mas existem casos), citomegalovírus, toxoplasmose, herpes e a sífilis. A especialista revela que a incidência de sífilis preocupa, pois tem sido “altíssima”.

Diante de fatores como os citados, após a triagem a criança é assistida e, aos 8 meses é realizada nova avaliação auditiva. Em caso de adolescente e adulto a alteração é perceptível e comunicada, mas a criança pode encarar com normalidade a situação. Angelina explica que as perdas leves podem evoluir ou estacionar.

A especialista falou dos prejuízos na audição com o som alto. “É um problema sério que virou epidemia.” Nos Estados Unidos existem aparelhos que bloqueiam a intensidade, mas no Brasil isso não ocorre, então os jovens abusam. “Um bom parâmetro para saber se está excessivo é quando você ouve o som dos fones de quem está do seu lado”, ensina. Quem não tem pode desenvolver perda auditiva, ou então agravar no caso de quem tem, alerta.

Escolas interessadas no treinamento de docentes e formação de agentes multiplicadores podem entrar em contato pelo telefone (15) 3211-1984, de segunda a sexta-feira, das 8h às 17h; ou pelo email [email protected] .

Sem prejuízos

A deficiência auditiva da garota Ludmila Tavares da Silva, de 11 anos, do Parque São Bento, foi percebida na escola, na fase de alfabetização. Ela foi encaminhada para avaliação audiológica, tendo participado do projeto de Capacitação em Deficiência Auditiva e uso do sistema FM. Há cerca de dois anos ela percebe sua evolução na escola após adotar o kit. Ela estuda na Escola Estadual Ezequiel Machado Nascimento, onde não houve resistência quanto ao uso do microfone. “Também uso (sistema FM) para ver tevê e no computador”, conta. Já a dona de casa Antonia Chirlene Souza Martins, do Jardim Santa Esmeralda, diz que a deficiência da filha, a estudante Isabelle Maria, 12, foi percebida quando ela tinha 3 anos. “Ela não falava, mas eu entendia tudo porque era mãe”, justifica.

Estratégias para uma boa comunicação

* Se a criança faz uso de aparelho auditivo, encoraje-a a usá-lo; investigue se a manutenção está sendo feita
* Sente a criança perto de você, onde ela possa facilmente vê-lo e ouví-lo
* Mantenha o menor ruído de fundo que puder na classe
* Use articulação e gesticulação natural
* Procure não se mexer o tempo todo enquanto fala, fique em um só lugar a cada vez
* Cheque a compreensão (faça perguntas à criança, para se certificar da compreensão)
* Se a criança entende errado, reformule a pergunta ou a frase em vez de simplesmente repetí-la
* A criança deve sentir-se à vontade para perguntar quando não entender tudo
* Certifique-se de que a criança está atenta antes de dar instruções
* Utilize frases e expressões curtas e simples, ao invés de longas e complicadas
* Use entonação e ritmo variados
* Não dê as costas para a classe enquanto fala
* Estimule perguntas sempre
* Utilize pistas visuais para favorecer a associação visual/auditiva
* Sempre que possível dê instruções escritas para as tarefas de classe ou para casa
* Intercale os períodos de instrução com pequenos intervalos
* Ganhe a atenção da criança antes de iniciar a aula
* Reforce sempre os progressos da criança.

Fonte: Cruzeiro do Sul