Para Tião Rocha, cultura é matéria-prima da educação

Para Tião Rocha, cultura é matéria-prima da educação

A cidade de Curvelo, no sertão de Minas Gerais, ficou conhecida internacionalmente ao ser proclamada pelo escritor Guimarães Rosa (1908-1967) como “capital de minha literatura”. Pois na mesma Curvelo exaltada pelo autor de “Grande Sertão: Veredas” o educador Tião Rocha iniciou na década de 1980 um projeto fundamentado na cultura popular, que se tornou referência em inovação pedagógica.

Tião Rocha gosta de lembrar que a caminhada começou debaixo de um pé de manga. Com o sucesso da pedagogia da roda, como ele batizou os encontros em que as crianças conversam sobre tudo, e também decidem tudo, o educador foi consolidando a sua convicção de que a educação do futuro será praticada em vários espaços de aprendizagem, sempre tendo como base a cultura, o espelho da alma de um povo, de uma comunidade.

Antropólogo de formação, ex-professor universitário, Tião Rocha é presidente do Centro Popular de Cultura e Desenvolvimento (CPCP) e do Banco de Êxitos S/A. Nesta entrevista ao Compromisso Campinas pela Educação (CCE), o educador mineiro comenta momentos e aspectos de sua experiência e identifica alguns desafios que considera essenciais para a renovação da educação, e sobretudo do sistema escolar, no Brasil.

CCE – Você sempre destaca a importância da cultura popular para o processo educacional. Por que esta convicção?

Tião Rocha – Sempre parto do princípio de que a cultura é a matéria-prima da educação e do desenvolvimento. A educação pensada como processo de geração de aprendizagens e troca de saberes, fazeres e quereres. A cultura espelha o que as pessoas sabem, fazem e querem. É nessa troca que acontece o processo educativo, da mesma forma que é a base para um projeto de transformação e desenvolvimento.

CCE – A escola pública brasileira está aberta para esse conceito, de considerar a cultura como matéria prima para o processo educacional?

Tião Rocha – Infelizmente a escola pega pedaços da cultura que muitas vezes dizem muito pouco para as pessoas que estão na escola.  Os meninos levam os seus saberes para a escola, mas a escola muitas vezes não sabe de onde ele vem, a sua formação, a sua base cultural. A escola usa como critério de avaliação o valor que ela elegeu para si como culturalmente mais importante, independentemente de onde a criança vem. Aí é imposto um currículo, uma grade, um conteúdo, uma linguagem que não consideram o que a criança traz. Então fica um buraco e os buracos muitas vezes não são ocupados. Ou seja, a escola segue uma lógica que está na contramão da valorização cultural. Esta situação gera uma defasagem, um choque, e os meninos acabam detestando a escola porque ela não considera o lugar de onde ele vem. A criança adora a rua, as brincadeiras, as coisas que ela cria, o que o seu grupo faz. Ela tem um pertencimento. A cultura construída na infância faz sentido para ela. Como a escola não considera essa história, ela entende que o menino não gosta de estudar. Falta sensibilidade.

CCE – Você considera que é possível transformar este cenário?

Tião Rocha – É possível mudar, se a escola sair da própria caixa, da forma. Ela reproduz um conteúdo cultural que na maioria das vezes não faz sentido para as crianças. Se ela se abrir, deixar de ser uma instituição de “ensinagem”, para se transformar em uma instituição de aprendizagem, ela pode mudar. Se aprender com a realidade, considerar a realidade como cimento da transformação. É possível e já existem exemplos bem sucedidos nesse sentido. É fundamental descentralizar as decisões e considerar a educação como um exercício diário de busca de novos caminhos. A escola ainda tem medo da inovação, e aí fica fechada em si mesma.

CCE – Você considera que o novo Plano Nacional de Educação, que entrou em vigor recentemente, pode contribuir para a renovação da escola?

Tião Rocha – Quando estes planos são formulados, geralmente se pensa na escolarização. Mas a educação é um fim, a escola é apenas um meio. Um meio a serviço dos fins e não o contrário. É importante não confundir as coisas. Então às vezes acontece um equívoco no nascedouro de um plano, pois não se pensa no que a escola deve estar comprometida, qual a sua função social, para que ela serve. Ela deve ajudar a formar melhores cidadãos, dignos, felizes e honestos, ou somente para formar mão de obra para um mercado que às vezes não é ético? Então é essencial pensar o papel da escola.

CCE – Qual a sua visão sobre educação integral?

Tião Rocha – Está havendo uma confusão entre educação integral com escola em tempo integral. É outro equívoco. Toda educação deve ser integral e integradora. E temos a vida inteira para aprender. Devemos entender que a educação apenas acontece no plural, ela não existe no singular, o pressuposto é a pluralidade de aprendizagem. Isso é educação integral. Então é um equívoco considerar que o menino deve ficar oito horas ocupado na escola porque na rua ele estaria ocioso, fazendo coisas que não são boas. Ou seja, seria uma forma de tirar os meninos da rua. Mas eles devem ocupar a rua também. A rua da construção da comunidade, da cidadania. Com esta visão equivocada a escola pode virar uma prisão. Se o menino tiver disciplinas do currículo pela manhã e aulas de tambor ou capoeira à tarde, da mesma forma que ele aprende aquelas disciplinas, ele vai acabar achando o tambor e a capoeira chatos. Para que estamos formando os meninos? Esta deve ser a pergunta.

CCE – Você acha que o futebol, um dos patrimônios culturais brasileiros, pode ser uma ponte importante no processo educacional?

Tião Rocha –  Pode e deve. Existe uma enorme potencialidade no futebol, assim como no Carnaval. No caso do processo da Copa do Mundo no Brasil, muita gente disse que “não vai ter Copa”. Mas o povo assumiu a Copa porque gosta de futebol e ponto. Há 30 anos fizemos uma experiência com futebol em Curvelo, como um canal para o fortalecimento da cidadania ativa. Mas o menino queria ir lá para jogar futebol, para brincar. Uma experiência foi amarrar um menino no outro para formar um time. Então tínhamos 40 no campo e não somente 22. Um podia jogar com a perna direita e outro com a esquerda. Então era uma questão de equilíbrio, de trabalho realmente em equipe. Era muito divertido. Os primeiros jogos terminavam em zero a zero. Com o tempo aprenderam a jogar assim. Foi uma oportunidade para discutir muita coisa. Se mergulharmos a fundo na cultura brasileira, há inúmeras oportunidades para o processo educacional. Também existe o potencial do Carnaval. Uma vez eu disse, em um seminário com muitos doutores, que existia uma escola onde não há bullying, repetência, onde todos aprendem com alegria, e que esta seria a escola que queremos. Quando falei que era a escola de samba houve muito protesto. Enfim, existe uma efervescência na cultura brasileira, e é preciso e possível utilizar isso para uma educação integral, integradora e transformadora.