Pagamentos à cooperativa de merenda cresceram 4.000% em SP

Pagamentos à cooperativa de merenda cresceram 4.000% em SP

Silvia Amorim e Tiago Dantas

SÃO PAULO — Os pagamentos feitos pelo governo de São Paulo à cooperativa que está sendo investigada por suspeita de pagar propina a políticos e secretários estaduais cresceram em 2015 mais de 4.000%. O aumento corrobora depoimentos de integrantes da máfia da merenda de que a Cooperativa Orgânica Agrícola Familiar (Coaf) usou um lobista para melhorar seus negócios com a gestão Geraldo Alckmin (PSDB).

No ano passado, a entidade recebeu R$ 11,2 milhões da Secretaria de Educação pela venda de suco de laranja para a merenda escolar. O valor é 4.682% superior à quantia paga em 2014, de R$ 238,3 mil

Dirigentes e funcionários da cooperativa apontaram em depoimentos aos investigadores Marcel Ferreira Julio como responsável pela intermediação com o governo. Ele foi flagrado em interceptações telefônicas negociando contratos com funcionários do estado. Julio está foragido desde o início de janeiro, quando foi deflagrada a operação contra a máfia da merenda, e tentou uma delação premiada para se apresentar à polícia, que não foi aceita pelos investigadores.

O ex-presidente da Coaf Cassio Chebabi, um dos seis representantes da entidade presos durante a operação policial, afirmou que entre 2014 e 2015 a cooperativa começou a ter dificuldades para receber pagamentos da Secretaria de Educação e que o lobista lhe foi apresentado por um dos funcionários da cooperativa, Cesar Betholino.

AO LADO DO GABINETE DE ALCKMIN

Com a ajuda do lobista, a Coaf conseguiu não apenas receber o valor inicialmente contratado, de cerca de R$ 8,5 milhões, como alterar o contrato com o governo para ampliar seus ganhos, chegando ao total de R$ 11,2 milhões.

Interceptações mostram o lobista em dezembro passado negociando com o então chefe de gabinete da Casa Civil Luiz Roberto dos Santos, o Moita, que despachava ao lado do gabinete de Alckmin (PSDB). Em 4 de dezembro, Moita orienta Julio a pedir a cooperativa uma alteração contratual que aumentaria os valores pagos pela secretaria de Educação. Moita menciona o então chefe de gabinete da Educação Fernando Padula, como um aliado nesse processo.

“Acabei de falar com o Padula. E ele entende que, assim como eu, que não é aditivo, tá? É reequilíbrio econômico. (…) Você tá pedindo a atualização monetária de dólar, aquelas coisas, entendeu?”, diz Moita em grampo feito pela Polícia Civil. Ele chegou a ser presenteado com um freezer pela entidade.

No sistema de execução orçamentária do governo de São Paulo aparecem dois pagamentos feitos à Coaf. O primeiro no valor de R$ 8,5 milhões e o segundo, de R$ 2,6 milhões.

No relatório de investigação, reequilíbrio econômico foi descrito como uma forma para “aumentar a quantia de dinheiro (repassada à Coaf) que é posteriormente convertido em propina distribuída a vários participantes deste conluio ilegal”.

A cooperativa admitiu que os pagamentos indevidos eram feitos em dinheiro, cheques e depósitos bancários. Com a promessa de propinas de 10% a 25% dos valores dos contratos, a entidade conseguiu vencer concorrências.

O GLOBO tentou falar com o advogado do lobista, Luiz Fernando Pacheco, mas não teve retorno.

Fonte: G1