O contemporâneo na literatura infantil

O contemporâneo na literatura infantil

Temas considerados difíceis, como questão de refugiados ou preconceito, são abordados por autores que escrevem para crianças e jovens

Bia Reis e Cristiane Rogério

Guerras, refugiados, tragédias ambientais, trabalho infantil, preconceito, novos formatos de famílias. Para a sorte de crianças e jovens, muitos autores e editoras com foco nessa faixa etária têm olhado para esses temas. Contrapondo uma onda de superproteção, fazem questão de usar caminhos poéticos por meio das narrativas ficcionais para tocar em assuntos considerados difíceis, sem deixar que pareça um discurso didático ou moralizante.

“Entendo que literatura não é para ensinar a ser assim, a pensar assim, a fazer assim. O texto literário não pode estar associado ao propósito do didatismo. Querer ‘ensinar’ pela literatura é dar a ela uma atribuição que não lhe compete e que a reduz”, diz Márcia Leite, escritora, educadora e diretora da editora Pulo do Gato, que há seis anos pauta-se em publicar também livros com temáticas sociais, como a questão dos refugiados ou a tragédia causada pelo rompimento da barragem em Mariana (MG).

Por mais que hoje encontremos dezenas e dezenas de livros, nacionais e estrangeiros, que toquem em questões, digamos, mais contemporâneas de nossa sociedade, não é de agora que a prática faz parte da literatura para a infância. Monteiro Lobato, o precursor no Brasil de um tipo de literatura infantil mais questionadora, levava às narrativas do Sítio do Picapau Amarelo reflexões que, na maioria das vezes, não faziam parte das conversas com as crianças. Como em A Chave do Tamanho, de 1942, em que o menino Pedrinho começa a ler o jornal para a avó Dona Benta com notícias de novos bombardeiros em Londres: “Centenas de aviões voaram sobre a cidade. Um colosso de bombas. Quarteirões inteiros destruídos. Inúmeros incêndios. Mortos à beça”.

Quando se quer ensinar ou sensibilizar as crianças sobre determinado assunto, o adulto (autor ou mediador do livro) se vê em um dilema. Seria necessária a verdade crua e nua, tal qual uma notícia de jornal? Ou teria um efeito melhor e uma delicadeza mais adequada abordá-la de forma poética e criativa?

Para confeccionar o livro Drufs, Eva Furnari passou por um longo período de experimentações de diversas técnicas visuais e textuais, uma sucessão de tentativas e erros que foram configurando o que a obra se tornou. E se as crianças, em uma prática de redação na escola, pudessem descrever as características físicas e emocionais de suas próprias famílias? Por meio do humor e da irreverência que marcam os quase 40 anos de carreira, Eva apresenta personagens particulares que falam de conflitos e diferenças de todos nós.

“O tema dos diversos tipos de família apareceu naturalmente. Quando a mente está ocupada com criança e educação, (o tema) brota, não de uma maneira didática, mas sim simbólica”, afirma Eva. Segundo a autora, o enredo principal do livro foi a última ideia a surgir. Ela foi descrevendo e criando as famílias e sempre sentia que estava em lugar de julgamento. Um dia, teve um estalo e pensou na ideia de as crianças falarem sobre suas famílias. Depois, imaginou que isso pudesse ocorrer em forma de redação. Só no final surgiu a irreverente professora Rubi, que pede a tarefa no início do livro. “Foi do fim para o começo”, fala Eva.

Criação. Essa forma de criação não é por acaso: faz parte do processo de um artista, sempre antenado sobre o que uma sociedade precisa falar. Não tem intenção pedagógica, muito menos de provocar uma única interpretação. Na boa literatura infantil não poderia ser diferente. “Felizmente está longe o tempo em que predominava (na poesia e na prosa) um tom edificante e didático, com temas e enfoques que favorecessem o ensino de lições de moral, de bons modos, de civilidade, civismo etc e tal”, observa Leo Cunha, escritor mineiro e autor de dezenas de livros para crianças.

“Não conseguiria fazer um livro eminentemente informativo, ou de denúncia, ou que buscasse uma lição de moral. Para mim, um tema impactante – política, social ou eticamente – não se sustenta por si só”, diz. É assinada também por Cunha uma das obras mais impactantes do segmento no Brasil: Um Dia, Um Rio, com André Neves.

A obra aborda, com texto e imagens, a tragédia de Mariana de forma enfática e sensível, sem concessões à criança, embora dê um tom de esperança no final. “Em uma obra que se quer literária, a forma também deve ser marcante. Quando digo forma quero dizer as opções dos autores (escritor, ilustrador e editora) quanto à linguagem, à estrutura, ao ponto de vista, ao que se mostra e o que se deixa para a imaginação, intuição ou sensibilidade do leitor”, afirma Cunha.

Roger Mello, um dos mais importantes autores de literatura infantojuvenil – único brasileiro a vencer como ilustrador o Prêmio Hans Christian Andersen (espécie de Nobel do livro infantil) –, publicou vários livros com temáticas fortes sobre o lugar da infância em nossa sociedade, utilizando sua habilidade bem particular de contar histórias potencializando textos e imagens. Carvoeirinhos, de 2009, é um deles.

As páginas pretas que ocupam quase todo o livro alternam-se com tons de cinza, referentes à fumaça e fuligem, e outros em rosa e laranja, simulando um fogaréu no meio do livro. O cenário é uma carvoaria onde crianças trabalham. O narrador é um marimbondo que ronda o lugar e se compara à vida humana. Mello trata da falta de opção da criança, sugere corrupção na fiscalização do trabalho infantil.

O autor trabalha com a poesia e as representações para fugir do discurso direto, o que faz com que a leitura seja mais interessante e provoque uma reflexão além da dicotomia bem e mal. “Minha maneira de não tornar esses textos e imagens panfletárias é ir além do bem e do mal. É pensar que muitas vezes existe uma criança que não é passiva, para não transformá-la em estatística. No caso do trabalho infantil é muito difícil não cair no panfletário, mas ser panfletário é a morte da ficção.

Fonte: Estadão.Edu