Leandro Karnal analisa reforma do ensino médio; leia entrevista

Leandro Karnal analisa reforma do ensino médio; leia entrevista

WILLIAM MAGALHÃES

Especialista em história dos Estado Unidos, Leandro Karnal é professor na Universidade Estadual de Campinas (Unicamp)

Como foi feita, a proposta de reforma do ensino médio do governo Temer “foi um equívoco”. É o que analisa o professor e historiador Leandro Karnal.

“Da maneira como foi feita, ela recebe reações adversas e aumenta um clima político já polarizado”, afirma ele em entrevista por e-mail à Livraria da Folha. “Algo que implica uma revolução na vida de milhões de alunos, deve ser discutido com a sociedade”, pondera.

Especialista em história dos Estados Unidos, Leandro Karnal é hoje um dos mais expressivos intelectuais do Brasil.

Na entrevista, além da reforma do ensino médio, Karnal falou sobre questões atuais, como a proliferação de discursos de ódio e o papel das igrejas neopentecostais na formação do país nos últimos anos.

Autor de livros como “Felicidade ou Morte” e “Verdades e Mentiras”, Karnal escreveu também “História dos Estados Unidos”, “Conversas Com Um Jovem Professor” e “História na Sala de Aula”, entre outros.

Leia a entrevista a seguir.

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O discurso e as manifestações anticorrupção serviram para aumentar a crise política que levou ao impeachment de Dilma Rousseff. Por que não ouvimos mais panelas batendo?

Pode ser nosso tradicional cansaço com mobilizações e pode indicar que estávamos todos mais ligados à corrupção de um grupo do que à corrupção em geral. Somos seletivos na nossa crítica.

Dar espaço a discursos de ódio faz parte do exercício da liberdade de expressão e da democracia?

A liberdade de expressão é uma zona de fronteira complexa. Discurso de ódio é problemático, porque ele expressa minha opinião, mas, ao mesmo tempo, abre caminho para violência. Discordância sem eliminar o outro e discordância reconhecendo que o outro é um interlocutor válido é complexo. Os limites da liberdade de expressão são dados pela lei. Em nenhuma democracia podemos apoiar o crime. Por exemplo, não podemos apoiar racismo e pedofilia: são crimes. O que está precisando crescer é nossa educação para o debate.

Qual é o papel das igrejas neopentecostais na formação do país nos últimos anos?

Representam, talvez, um quarto da população brasileira. Fazem parte da sociedade, do mercado de opinião, da produção nacional e do processo educacional. É justo que estejam representados politicamente. Trazem uma agenda específica ao debate, mas nada que seja oposto ao tradicional conservadorismo nacional ou que já não esteja na pauta de deputados ligados à Igreja Católica. O combate ao aborto ou à união homoafetiva não é uma bandeira criada pelos neopentecostais ou pentecostais: é uma velha agenda conservadora brasileira. Parte da crítica às igrejas evangélicas é puro preconceito e parte atribui aos pastores e bispos um papel que não é novidade nenhuma.

Como você avalia a reforma do ensino médio proposta pelo governo Temer?

Partes das propostas foram geradas na gestão Dilma. Há ideias boas, como expandir o horário dos alunos e tentar articular o conteúdo do ensino médio com a realidade e interesse dos alunos. Porém, algo que implica uma revolução na vida de milhões de alunos, deve ser discutido com a sociedade. Pais, alunos, professores, especialistas e todos deveriam ler com calma e debater. Nunca poderia ser uma PEC. Uma democracia funciona pela capacidade de ouvir pontos divergentes, aprimorar a proposta e enviá-la para os deputados e senadores. Da maneira como foi feita, ela recebe reações adversas e aumenta um clima político já polarizado. Foi um equívoco.

O que é sucesso pra você?

Ser quem você é e fazer bem o que você acredita.

Fonte: Folha de São Paulo