Jovens querem mudanças na escola pública pela melhor preparação para seus projetos de vida

Jovens querem mudanças na escola pública pela melhor preparação para seus projetos de vida

Os jovens brasileiros desejam mudanças expressivas na escola pública, de modo que ela, mais atraente, democrática e estimulante, contribua de forma mais qualificada para o desenvolvimento de seus projetos de vida. Esta foi a conclusão do Encontro Mensal do Compromisso Campinas pela Educação (CCE), realizado na noite desta quinta-feira, 27 de agosto, no auditório da Fundação FEAC.

No evento, o demógrafo e economista Haroldo da Gama Torres apresentou os resultados da pesquisa “Projeto de Vida – o papel da escola na vida dos jovens”, na qual ficou patente o descontentamento da juventude brasileira com os rumos da escola pública, sobretudo no ensino fundamental e médio. Esta percepção foi confirmada em seguida, pelos jovens alunos que participam das ações da Fundação Educar DPaschoal e que participaram de um bate papo com Torres, que é pesquisador do Centro Brasileiro de Análise e Planejamento (Cebrap) e sócio da Din4mo, consultoria especializada em negócios de impacto social.

Pesquisa aponta demandas – A pesquisa “Projeto de Vida – o papel da escola na vida dos jovens” foi realizada pela Fundação Lemann, com o apoio do movimento nacional Todos Pela Educação e a coordenação de Haroldo da Gama Torres. Ele explicou ontem na FEAC se tratar de uma pesquisa qualitativa, com a realização de 126 entrevistas em profundidade, sendo oito com especialistas, 42 com jovens, 37 com empregadores, 21 com professores universitários e 18 com representantes de organizações não governamentais.

O primeiro objetivo, afirmou Torres, era entender o papel da escola para o projeto de vida dos jovens. Em segundo lugar, complementou, a pesquisa buscava contribuir, ouvindo-se vários atores, para a construção da base curricular comum nacional, que está no momento em discussão. Prevista para 2016, como estipula o Plano Nacional de Educação (PNE), a Base Nacional Comum vai indicar os parâmetros curriculares comuns para os estudantes brasileiros, respeitadas as diversidades sociais e culturais regionais.

Um dos principais resultados da pesquisa, destacou Haroldo da Gama Torres, é a constatação de que a escola pública brasileira, utilizando métodos pedagógicos e gestão inadequados, não forma o jovem para a vida.

Foram vários elementos inquietantes identificados pela pesquisa, relatou o pesquisador do Cebrap. Dificuldades de comunicação em todas as esferas por parte dos jovens no pós-ensino médio, dificuldades com a Língua Portuguesa, lacunas no aprendizado de Matemática (grande desafio em uma sociedade tecnológica), necessidade de melhoria no ensino do inglês (muito demandado pelo mundo do trabalho) e deficiências dos jovens – que conhecem muito a Internet – em manejar ferramentas de informática, como montar uma história em power point, foram alguns dos problemas detectados pela pesquisa, como resultantes das deficiências na escola pública.

Como contribuição para a Base Nacional Comum, a pesquisa apontou então a urgência de melhorias no ensino e aprendizado de Língua Portuguesa e Matemática, mas também em Ciências Humanas, História, Geografia e outras áreas.

Para Haroldo Gama Filho, a pesquisa deixou claro que “toda a sociedade brasileira precisa assumir a melhoria e valorização da escola pública como um grande desafio nacional e tarefa de todos”. Os investimentos na educação têm aumentado, mas isso não é suficiente, destacou. “Aumentar os investimentos é importante, mas é essencial que toda a sociedade assuma a responsabilidade de melhorar a escola”. Ele defendeu que a escola “seja mais democrática, possibilidade espaços de diálogo com toda a comunidade envolvida”.

Bate papo com os jovens – Os jovens que participaram do bate papo com Haroldo da Gama Torres concordaram que a escola pública precisa melhorar muito, de modo que contribua em termos adequados para os projetos de vida de crianças e adolescentes. “A escola não prepara como deveria, ela não amplia a visão do jovem e não ensina de acordo com o contexto em que ele vive”, defendeu Miriã Moraes, 14 anos, aluna do 9º ano do Ensino Fundamental na EMEF Presidente Humberto de Alencar Castelo Branco.

Por sua vez, Erik de Oliveira Sousa da Silva, 16 anos, aluno do 2º ano do Ensino Médio da EE Prof. José Vilagelin Neto, destacou que a escola, além de ensinar os conteúdos da grade curricular, deveria contribuir para o desenvolvimento de aspectos como resiliência, protagonismo e proatividade. “Os jovens precisam tanto dessas habilidades como dos conteúdos das disciplinas”, acentuou.

Aluna do 3º ano do Ensino Médio, na EE Prof. Milton de Tolosa, Rafaela Lima, de 17 anos, destacou que as escolas também deveriam preparar melhor os alunos para momentos como o ENEM e os Vestibulares. “Isto não é o mais importante nas escolas, mas também são momentos relevantes para a vida dos alunos”, alertou Rafaela, que planeja prestar Vestibular para Medicina.

Uma lacuna na escola, identificada por Nilson Gabriel Andrade Barbosa, 15 anos, aluno do 1º ano do Ensino Médio na EE Prof. José Vilagelin Neto, é com relação a questões de política e cidadania. “Os jovens não têm interesse pela política, acham que todos são corruptos, mas se conhecessem mais teriam outra visão”, ressaltou.

O mediador do bate papo foi Felipi Bernardino, 19 anos, ex-aluno da Academia Educar, da Fundação Educar DPaschoal. “Esses encontros são muito importantes, porque ampliam o horizonte dos jovens”, disse Felipi após o evento. Os jovens participantes do bate papo são todos alunos da Academia Educar.

Depoimento de educador – O Encontro Mensal do Compromisso Campinas pela Educação contou ainda com o depoimento de Jaqueline Salione Silveira, coordenadora pedagógica da EE Prof. Luiz Gonzaga Horta Lisboa. A coordenadora salientou que a escola busca promover um amplo espaço de diálogo com os estudantes e a comunidade em geral. Com essa abertura, os alunos se sentem valorizados e motivados a desenvolver e apresentar projetos sobre vários temas, enriquecendo o processo de ensino e aprendizagem na escola. “Os alunos merecem respeito, este fundamento é muito importante para nossa escola e procuramos exercitá-lo sempre”, afirmou a educadora.
Os Encontros Mensais do CCE são realizados todas as últimas quintas-feiras de cada mês, geralmente no período noturno. Todos Encontros Mensais e demais atividades do CCE em 2015 estão sendo promovidos, preferencialmente, com base no tema “Valorização da Escola”, bandeira do Compromisso Campinas pela Educação deste ano selecionada na edição 2014 da Semana da Educação de Campinas.

Confira a pesquisa na íntegra: http://compromissocampinas.org.br/wp-content/uploads/2015/08/Pesquisa-Projeto-de-Vida.pdf

Informações: (19) 3794 3512