Inspirar futuros educadores

Aula no 3º ano do Ensino Médio… O professor questiona: “Em qual área pretendem trabalhar?”. Direito, medicina, engenharia, economia, arquitetura… Às vezes, uma aluna fala que quer cursar pedagogia “porque gosta muito de criança”, mas, raramente, um corajoso afirma com decisão “Quero ser professor!”. E, quando isso acontece, tal fala adquire um tom quase “messiânico”, de alguém que estaria assumindo uma tarefa necessária, mas indesejável para a maioria.

No fundo, o jovem sente vergonha de expressar qualquer intenção em ser professor. Pois, além de vivenciar todos os dias a “não invejável” situação de seus mestres – permeada de desrespeito, indiferença, desvalorização, cansaço… -, não encontra apoio em nenhum amigo e, dificilmente, num professor. Inclusive, é comum que, aqueles que têm a audácia de manifestar esse desejo, ouçam como resposta “Mas, você é tão inteligente… Poderia fazer tantas outras coisas!”. Com isso, aquela nobre – mas tímida! – aspiração acaba por ser silenciada.

Diante desse cenário, na maioria dos casos, serão professores aqueles que “sobraram”, que “não deram certo” em outras áreas, que não conseguiram “seguir carreira acadêmica”. Com isso, teremos profissionais desmotivados, com uma formação defasada, justamente num ofício tão desafiador e exigente. Resultado na sala de aula: de um lado, professores desvalorizados socialmente; do outro lado, alunos sem uma referência para sua formação.

Esse é um problema que não afeta apenas os docentes: diz respeito ao nosso futuro como nação. Afinal, se essas são as perspectivas no que se refere à formação das nossas próximas gerações, o que podemos esperar do nosso tão querido país?
Mais do que adotar um discurso que apenas lamenta a situação, o importante é pensarmos iniciativas que apontem caminhos para inspirar futuros educadores comprometidos verdadeiramente com uma transformação positiva do panorama atual.

Para atrair jovens talentosos para a profissão, é preciso sim melhorar os salários, promover a valorização social dos profissionais da área, rever e aprimorar as políticas que dizem respeito à condição do professor enquanto trabalhador e estudioso da formação de indivíduos…

Mas, não podemos deixar de mencionar um fator que muitas vezes é esquecido: os jovens tem sede de grandes ideais. Aproveitemos isso! Longe de desestimulá-los, busquemos incentivá-los a vibrar com a “causa” educação, de modo que tenhamos pessoas com brilho nos olhos, que sonhem com uma sociedade melhor e que estejam dispostas a trabalhar duro por isso.

E, como fazer isso?

Ajudando-os a enxergarem além de um discurso fatalista, que proclama que os problemas da sociedade são incorrigíveis. Mostrar que na docência se encontra um recurso precioso de transformação social. Expandir a ideia de cidadania, promovendo uma postura participativa, democrática e responsável. Enfim, oferecer novos conceitos!

Serviremos de inspiração para os jovens se demonstrarmos que somos muito mais que “transmissores de conteúdo”, manifestando corajosamente, de modo atrativo e apaixonado, o orgulho de atuarmos nessa profissão. Eles procuram alguém que descortine horizontes e aponte novas direções. Não necessitam tanto de ideias, mas de ideais: querem mudar o mundo, fazer a diferença.

Além disso, atualmente, a educação traz um aspecto altamente desafiador por causa das novas tecnologias. E, mais do que nunca, trabalhar com educação é sinônimo de inovar, criar, experimentar, empreender… Enfim, palavras que os jovens adoram!

Enfim, nesse mês em que comemoramos o Dia dos Professores, aproveitemos para renovar nosso comprometimento não apenas com nossos alunos de hoje, mas também com os de amanhã: nesse sentido, é fundamental que inspiremos futuros educadores, pois serão eles os responsáveis por levar em frente o nosso país.

André Martins, graduado em Ciências Sociais pela UNICAMP, professor da rede pública de ensino e Assessor Técnico no movimento Compromisso Campinas pela Educação (CCE).

Guilherme Melo de Freitas é membro do IFE – Campinas, mestre em sociologia pela USP, atua nas redes particular e pública de ensino.