IDH do Brasil cresce, mas a um ritmo mais lento, aponta Pnud

IDH do Brasil cresce, mas a um ritmo mais lento, aponta Pnud

Raphael Di Cunto

O Índice de Desenvolvimento Humano (IDH) do Brasil no ano passado chegou a 0,744, aumento de 0,23% ante 2012, o que fez o país subir uma posição no ranking, para 79º lugar, empatado com Geórgia e Granada. Em expansão contínua desde 1980, o IDH tem crescido menos nos últimos anos, fenômeno que se acentuou com a crise econômica internacional de 2008 – e que é verificado na maioria dos outros 186 países pesquisados e em especial na América Latina e Caribe -, de acordo com o relatório Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (Pnud), divulgado ontem.

O IDH mede o desenvolvimento humano dos países e é calculado com base em dados de saúde, educação e renda. O índice varia de zero a um. Quanto mais próximo de um, mais desenvolvida é a nação.

O indicador brasileiro melhorou por dois motivos, de 2012 para o ano passado: a expectativa de vida dos brasileiros passou de 73,7 anos para 73,9 anos e o rendimento nacional bruto (RNB) per capita foi de US$ 14.081 para US$ 14.275. A expectativa de anos de estudo (de 15,2 anos) e a média de anos de estudo (7,2) permaneceram iguais pela falta de dados mais recentes.

O congelamento dos dados sobre educação fez o governo brasileiro convocar coletiva ontem para rebater o Pnud e dizer que os números mais atuais elevariam o IDH em 2,69%, para 0,764. Com a mudança, diz o governo, o Brasil saltaria da 79º posição no ranking para a 67º – cálculo que não considerou, contudo, avanço de outros países que também tivessem dados mais atuais disponíveis e que não foram usados.

“Reconhecemos a complexidade de fazer um relatório com 187 países e com parâmetros que permitam comparação. Mas o Brasil tem dados disponíveis atualizados que não foram usados, enquanto vários países têm dados mais atuais no relatório do que os nossos”, afirmou a ministra do Desenvolvimento Social e Combate à Fome, Tereza Campello.

O governo reclamou da exclusão das matrículas de crianças de cinco anos que estão na pré-escola e de adultos com mais de 40 anos que frequentam o ensino fundamental e médio, parâmetro adotado pela Unesco, e do dado ser de 2012. Se for acrescentada essa parcela da população e usado o dado de 2013, diz o governo, a expectativa de escolaridade passaria de 15,2 para 16,3 anos.

Também houve críticas ao número atribuído à média de anos de estudo da população com 25 anos ou mais, que no relatório do Pnud é de 7,2 anos de estudo, referente ao ano de 2009. O dado mais atual do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), de 2012, apontaria uma média de 7,6 anos. O Pnud argumenta que fez a coleta de dados até novembro de 2013 e que o dado ainda não estava disponível.

O ministro da Saúde, Arthur Chioro, questionou ainda que a expectativa de vida brasileira no relatório é de 73,9 anos. Chioro disse que o dado do Banco Mundial, coletado no IBGE, é de 2009, e que o número mais atual, de 2013, é de 74,8 anos. As informações do Pnud, contudo, foram retiradas do Departamento de Assuntos Econômicos e Sociais das Nações Unidas, segundo as notas técnicas do IDH.

Apesar das críticas à metodologia, que ocorrem todos os anos, o governo comemorou os resultados. O país foi citado 20 vezes no relatório como exemplo de políticas para o desenvolvimento humano, com destaque para o Bolsa Família, o aumento de renda das famílias mais pobres, o alto índice de emprego, adoção de políticas anticíclicas em resposta à crise de 2008 e redução das disparidades raciais.

O Brasil também foi um dos 18 países, entre os 102 que estão na categoria de muito alto e alto desenvolvimento humano, que melhoraram no ranking em relação a 2012. Na lista geral, 38 nações subiram de posição e 35 caíram. Desde 1980, o IDH brasileiro melhorou 36,4%, o que representa aumento anual médio de 0,95% – um dos melhores desempenhos da América Latina e Caribe.

Segundo o coordenador da Organização das Nações Unidas (ONU) no Brasil, Jorge Chediek, o desenvolvimento social brasileiro desde 1980 é resultado de ações políticas como a restauração da democracia, uma Constituição que estabeleceu novo pacto social, a estabilidade macroeconômica atingida nos anos 1990, a criação do Sistema Único de Saúde (SUS), a expansão e universalização da educação e a luta contra a extrema pobreza.

“O Brasil foi um dos países que mais melhoraram, mas não está melhor, porque, embora tenha feito muita coisa nos últimos 20 anos, ainda tem um passivo muito grande. Basta ver que em 1980 metade dos brasileiros maiores de 25 anos tinha média de 2,6 anos de estudo. Eram praticamente analfabetos”, diz Chediek.

A melhora do IDH, porém, tem desacelerado ao longo das décadas, acompanhando o desempenho do continente. Entre 1980 e 1990, o índice cresceu em média 1,16% ao ano. Na década seguinte, o IDH do país aumentou 1,10% anualmente. De 2000 a 2008, o índice subiu 0,87% ao ano, e desacelerou para 0,34% desde então. Se considerado o IDH defendido pelo governo ontem, o Brasil seria uma das exceções e teria crescimento de 0,88% ao ano no período pós-crise.

De acordo com o Pnud, todos os continentes e categorias de desenvolvimento tiveram um avanço menor no período 2008-2013 em comparação com 2000 a 2008, mas a crise econômica não foi a única responsável pela desaceleração. As nações com mais alto índice de desenvolvimento já vinham apresentando crescimento menor mesmo antes do estouro da bolha financeira nos Estados Unidos, e os países africanos, que puxaram a alta no começo dos anos 2000, esbarraram nas dificuldades de se avançar a patamares mais elevados.

Para Cheidik, o desafio brasileiro é diminuir a diferença entre pobres e ricos. “O Brasil precisa reduzir muito a desigualdade e aprimorar a resiliência para evitar que os milhões que saíram da pobreza voltem no futuro”, disse.

O IDH Ajustado à Desigualdade (IDHAD) mostra que o Brasil perde 27% de sua pontuação no IDH quando considerada a diferença de poder aquisitivo e o acesso à educação e saúde entre a população de menor renda e a de maior poder aquisitivo. O índice brasileiro cairia para 0,542, o que derrubaria o país 16 posições do ranking. A lista, contudo, não é divulgada, porque não há dados sobre todos os países.

A queda no IDH brasileiro quando avaliada a desigualdade de renda e oportunidades é maior que a média global, de 22,9%, e é a segunda maior entre as nações com grau de desenvolvimento muito alto e alto – só fica abaixo da do Irã, que perde 33,6% de sua pontuação no IDHAD.

Fonte: Valor Econômico