Fórum destaca casos de sucesso no Ensino Médio

Fórum destaca casos de sucesso no Ensino Médio

O Fórum Ensino Médio Público no Brasil: propostas para se alcançar a qualidade, realizado nesta segunda-feira (19) na Unicamp), trouxe um diagnóstico com os principais problemas da educação básica e casos de sucesso de escolas que se destacaram no país nos últimos anos na busca de soluções. No Brasil, apenas 51,8% dos jovens com 19 anos concluíram o Ensino Médio e 9,1% abandonaram o curso em 2012. Os dados preocupantes foram apresentados por Alejandra Velasco, gerente técnica da ONG Todos pela Educação. Em sua palestra sobre os caminhos possíveis para uma reformulação do Ensino Médio, a economista e mestre em Políticas Públicas destacou também a oferta excessiva de vagas no período noturno, que somam 31% do total de matriculados.

Outro ponto nevrálgico é a questão da qualidade da formação, apesar dos reflexos positivos que a universalização do Ensino Fundamental surtiu na inserção de estudantes no Ensino Médio. Alejandra Velasco mostrou que somente 29% dos alunos que se formam estão acima do nível adequado em Língua Portuguesa. O número é ainda pior em Matemática: apenas 10,3% atingem ou superam o desempenho mínimo desejado. “No caso da Matemática, nós observamos uma estagnação que ruma para uma piora”, afirmou.

Segundo a gerente da Todos pela Educação, se apenas metade da população termina o Ensino Médio na idade correta, e 10% têm aprendizagem adequada em Matemática, pode-se dizer que, de 20 jovens brasileiros, apenas um sai da escola com formação suficiente nesta disciplina. Entre outros pontos destacados em sua palestra, ela indicou também as falhas na formação docente, a infraestrutura precária e a necessidade de reorganização curricular.

A organização do simpósio, promovido pelo Fórum Pensamento Estratégico (PENSES) da Unicamp, trouxe para o debate diretoras de três escolas de diferentes tamanhos, perfis e regiões que souberam transformar as adversidades em resultados positivos. A primeira delas foi a Escola Estadual João Lourenço Rodrigues, de Campinas, representada pela diretora Jane Coutinho. Instalada em um bairro de poder aquisitivo alto, o Cambuí, a unidade pode ser considerada de porte médio, com 720 alunos, sendo 350 de Ensino Médio. Por ser uma escola situada em um bairro de classe média alta, não há demanda de alunos da própria região, sendo que o perfil socioeconômico dos estudantes é diverso. De acordo com a diretora, esse é um dos fatores positivos para o ambiente escolar.

Jane Coutinho apresentou os bons resultados da E.E. João Lourenço nas avaliações no IDEB (Índice de Desenvolvimento da Educação Básica) e do IDESP (Índice de Desenvolvimento da Educação do Estado de São Paulo) e atribuiu parte do êxito à estabilidade da equipe gestora na unidade, diferentemente do que ocorre em outras escolas. Segundo ela, o grupo formado por direção e coordenação pedagógica se mantém o mesmo há oito anos, o que permite a consolidação de projetos de longo prazo. “Nossa prioridade é a valorização da presença da família. Nós sabemos que, sem a família como parceira nossa, o trabalho não anda”, disse Jane, lembrando que a falta de tempo de pais e responsáveis é um entrave grande, contornado com a total disponibilidade da equipe para os horários possíveis. Nos últimos quatro anos, a escola registrou uma média de 3,88 pontos no IDESP, acima das médias da Diretoria de Ensino local, de todo o município e do Estado. “Apesar de ainda ser insuficiente, nós ficamos muito felizes, mas nossa meta é tirar nota 5. É importante que uma escola pública tenha uma meta clara”, opinou a diretora.

Ieda Neves, diretora da Escola Estadual Toufic Joulian, de Carapicuíba (SP), enfrenta muitas dificuldades ao dirigir uma escola com cerca de 2.500 alunos, sendo 1.900 do Ensino Médio, e 120 professores, em uma cidade pobre da Grande São Paulo. Para embasar o planejamento, a escola realiza uma pesquisa anual com pais e alunos no início do ano letivo e trata de temas diversos, entre eles a expectativa dos familiares sobre o estudo dos filhos e a dedicação do aluno ao aprendizado em casa. Ieda ressaltou como dados interessantes o fato de que 88% dos pais querem que o filho estude para conseguir cursar uma faculdade, enquanto apenas 4% esperam que ele privilegie o trabalho. Apesar disso, 44% dos pais dizem que o estudo do filho em casa não tem um tempo determinado e 13% disseram não ver o aluno estudando na residência.

Os docentes de Carapicuíba também produzem um diagnóstico de aprendizagem e de atitudes que culmina em um contrato didático – um documento firmado por todos os alunos com seus professores estabelecendo normas de convivência e obrigações. “Nos primeiros 30 dias do ano letivo, todos os professores fazem um diagnóstico turma a turma, disciplina por disciplina; esse documento é registrado, a coordenação acompanha e nós o debatemos, para somente depois começarmos a propor o currículo com o qual iremos trabalhar”, explica Ieda. Todas as normas, como cumprimento de horários e disciplina no ambiente escolar, são apresentadas e debatidas com os estudantes, com o intuito de se buscar um consenso. Desta maneira, pode-se flexibilizar algumas regras.

Na E.E. Toufic Joulian há uma pequena rotatividade de docentes, que valorizam e reconhecem a função social da escola, segundo a diretora. Do total de professores, 80% têm algum tipo de pós-graduação, apesar da jornada de trabalho sobrecarregada e dos baixos salários, que os obrigam a ter dois ou três empregos. No Exame Nacional do Ensino Médio (ENEM) de 2012, apenas três colégios conseguiram a meta de nota em Carapicuíba, sendo dois privados e a Escola Toufic Joulian, que obteve média geral de 486,107, com 324 alunos prestando a prova.

Uma realidade distante da vivenciada no Estado de São Paulo foi apresentada pela diretora Narjara Benício, da Escola Augustinho Brandão, do município de Cocal dos Alves, no interior do Piauí. Há 11 anos, o colégio combate as adversidades com muito empenho de professores e alunos e conseguiu se destacar no cenário nacional pelos ótimos resultados obtidos. Na cidade de 5.000 habitantes, composta majoritariamente por trabalhadores rurais, funcionários públicos e aposentados, não há empresas ou instituições que suscitem uma demanda maior do mercado de trabalho. Mas isso não tem desestimulado seus alunos. A Augustinho Brandão registra um índice de aprovação de 70% nas universidades do Piauí, além de contabilizar diversas medalhas nacionais em Olimpíadas de Matemática, Física, Astronomia e Língua Portuguesa, entre outras.

Para a diretora Narjara, o sucesso é resultado também do comprometimento da comunidade, que cobra resultados. Segundo ela, há escolas no Estado que recebem as mesmas estruturas, mas não conseguem êxito pela falta de dedicação e engajamento dos profissionais. “Um estudo feito pela Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) mostrou a Augustinho Brandão, dentro da sua realidade socioeconômica, como a melhor escola do país em nível médio”, comemora a diretora piauiense, considerando as dificuldades e ponderações necessárias para a constituição de rankings de ensino.

O evento contou também com apresentações da procuradora Patrícia Werner, que abordou a perspectiva do Poder Judiciário na solução de demandas da sociedade pela educação, e do professor Marco Antonio Soares, secretário da Confederação Nacional dos Trabalhadores em Educação (CNTE), que falou sobre as dificuldades do docente no exercício da sua profissão e os problemas de carreira e salário. Na última mesa, a pedagoga Guiomar de Mello, do Conselho Estadual de Educação, discorreu sobre a questão da qualidade no Ensino Médio frente a fatores como equidade e igualdade.

Também estiveram presentes no Fórum Ensino Médio Público no Brasil o pró-reitor de Graduação da Unicamp, professor Luís Alberto Magna, o coordenador do PENSES, professor Julio Hadler Neto, a coordenadora-adjunta do PENSES, professora Adriana Nunes Ferreira, a professora Elizabeth Balbachevsky, do Grupo de Estudos em Educação do PENSES, e Ione Assunção, coordenadora da Secretaria de Estado da Educação de São Paulo. O PENSES é um espaço acadêmico vinculado ao Gabinete do Reitor responsável por promover discussões que contribuam para a formulação de políticas públicas voltadas ao desenvolvimento da sociedade em todos os seus aspectos.

Fonte: Unicamp