Família e escola: uma integração necessária

Família e escola: uma integração necessária

» PATRÍCIA MOTA GUEDES
Gerente de Educação da Fundação Itaú Social e mestra em políticas públicas pela Universidade de Princeton

» PRISCILA CRUZ
Fundadora e presidente executiva do movimento Todos pela Educação e mestra em administração pública pela Harvard Kennedy School.

Você se lembra da participação de seus pais ou familiares no seu dia a dia escolar? Isso foi importante para você? Para nós, essa participação faz parte de nossas melhores lembranças e certamente nos ajudou a seguir até hoje com tanto interesse na área. Parece óbvio dizer que é importante família e escola estarem integradas, porém essa relação não é trivial. A busca por ampliar e melhorar a qualidade desse relacionamento é um desafio para todas as partes envolvidas: famílias, unidades de ensino, poder público.

É comum, por exemplo, que, ao ser questionada sobre as responsabilidades em relação ao comportamento e desempenho dos alunos, a família culpe a escola, e a escola, por sua vez, culpe a falta de participação da família. Mas a questão é que todos precisam compartilhar responsabilidades, incluindo aqui o poder público, para que essa parceria colabore efetivamente com o desenvolvimento dos alunos.

Diversas pesquisas têm mostrado que uma boa relação impacta positivamente o desempenho das crianças e dos jovens ao longo de toda a sua trajetória escolar. Uma delas, a pesquisa Equidade e Qualidade na Educação (2012), da Organização para a Cooperação e o Desenvolvimento Econômico (OCDE), aponta que a atitude dos familiares pode resultar em redução do abandono escolar. E os benefícios ultrapassam a vida acadêmica, atingindo, por exemplo, suas aspirações e sua autoconfiança, a forma de se relacionar com os outros e sua participação na vida pública.

Mas as famílias brasileiras, apesar de se preocuparem com os filhos, não conseguiram ainda incorporar à sua rotina atitudes de valorização da Educação, como mostrou uma pesquisa feita por iniciativa de um grupo de organizações, entre elas o movimento Todos pela Educação e a Fundação Itaú Social, em 2014. É essencial que as famílias entendam que sua participação pode se dar por meio de ações corriqueiras, independentemente da sua condição socioeconômica ou escolaridade. Acompanhar o dever de casa e conversar com o aluno sobre seus interesses, seus sonhos e sobre o que aprendeu na escola são exemplos de iniciativas que demonstram como a família valoriza a educação.

A escola, por sua vez, tem o importante papel de reduzir a distância e estimular o engajamento das famílias, acolhendo-as e apoiando-as com sugestões sobre como exercer esse papel. Uma boa prática nesse sentido vem das escolas públicas de Boston (EUA), que conversam com as famílias sobre o que os alunos estão aprendendo e sugerem atividades para que elas possam estimular experiências relacionadas com esses assuntos no dia a dia.

Os profissionais da gestão educacional também concordam sobre os efeitos positivos desse relacionamento. A pesquisa nacional sobre o Perfil dos Dirigentes Municipais da Educação no Brasil, de 2010, indicou que a ausência das famílias no processo escolar é o segundo maior problema enfrentado na gestão. Mas, em geral, os gestores e as equipes docentes não sabem como enfrentar esse desafio, que demanda ações específicas que extrapolam o que a maioria das escolas consegue fazer no dia a dia.

As redes de ensino e as escolas precisam refletir sobre as rotinas e sobre a forma como têm acolhido as famílias, e, assim passar a se organizar para dialogar com elas — preparando, por exemplo, um espaço físico para recebê-las e desenvolvendo formatos e horários de reuniões que estimulem a interação.

Há diversos exemplos de escolas que já celebram essa conquista, mas o desafio é ampliar essas experiências, para que cheguem a mais municípios e estados. À medida que esse tema começa a ser visto como política pública necessária, as equipes escolares têm mais apoio para promover essa aproximação com as famílias, e essas passam a ser vistas e a se ver como parte fundamental do processo educativo.

No Brasil, a metodologia do programa Coordenadores de Pais, da Fundação Itaú Social, e a agenda das 5 Atitudes, do movimento Todos pela Educação, são exemplos que visam fortalecer e inspirar essa relação. Em parceria com secretarias de Educação de alguns estados e municípios, tem sido possível observar os desdobramentos desse tipo de apoio para a equipe escolar, cuja capacidade de atenção e relação com as famílias e a comunidade é reforçada, e para as famílias, que passam a ter exemplos práticos de como atuar.

A aproximação entre a família e a escola é uma frente estratégica que, quando articulada com outras políticas educacionais, pode colaborar muito com os complexos desafios de melhora da qualidade da educação pública. Requer o envolvimento e a formação contínua das equipes escolares, das secretarias e também das famílias. Dessa forma, o esforço resulta em ações estruturadas, que fornecem subsídios aos profissionais da área e levam todos a atuar juntos em favor de uma educação básica pública de qualidade.

Fonte:Correio Brasiliense