Falta de acompanhamento psicológico é maior problema na escola, dizem professores

Falta de acompanhamento psicológico é maior problema na escola, dizem professores

Você sabia que a indisciplina dos alunos é um dos principais problemas que os professores enfrentam na sala de aula? Mais até que o baixo salário? Quem diz isso são os próprios professores numa pesquisa inédita com profissionais da rede pública de todo o país.

O Fantástico vai acompanhar o dia da professora de ciências Simone Medeiros, no Rio de Janeiro. Às 6h30 da manhã, ela sai de casa, na Penha, Zona Norte da cidade, para a primeira aula, numa escola de ensino fundamental, no bairro vizinho de Ramos.

No intervalo, às 9h30, planejamento para as aulas seguintes. O almoço, ao meio-dia, é rápido, na cantina, com os colegas. Às 13, começa o segundo turno.

Às 17h50, o dia de Simone ainda não acabou. Ela vai agora para uma outra escola, onde vai dar aula no turno da noite. “Estou bastante cansada”, confessa Simone.

A rotina de Simone ajuda a entender os resultados de uma pesquisa inédita sobre o trabalho dos professores da rede pública. O levantamento da Fundação Lemann ouviu mil profissionais do ensino fundamental em todo o país. E revelou o que os nossos mestres consideram como os maiores problemas para melhorar a educação.
Para Simone, a carga horária exaustiva é só uma das dificuldades.

“Você tem que largar um pouco o conteúdo para você trabalhar outras questões. Questões afetivas, questões de família, questão da violência. Você está às vezes trabalhando num ambiente que você está ouvindo tiro”, conta Simone.

A falta de acompanhamento psicológico para os estudantes é apontada como o problema que precisa ser resolvido de forma mais urgente. Esta noite, a aula da Simone acabou mais cedo porque havia um tiroteio perto da escola.

“É frustrante, né? A gente diminui muito o que a gente ia trabalhar com eles”, diz Simone.

Um dos maiores desafios dos professores é compreender e lidar com a realidade que os alunos enfrentam aqui do lado de fora da escola. Os conflitos e os dramas das comunidades em que eles vivem cruzam os portões e chegam dentro das salas de aula das escolas brasileiras.

“Lógico que saber o conhecimento, saber o conteúdo para passar ele de forma correta, é fundamental. Mas não é só isso. É muito mais. Na hora que a gente chega na sala de aula a gente percebe. A gente não tá preparado para esse muito mais”, explica a professora de matemática Rosania Silva.

Rosania tem 12 anos de profissão. Dá aulas de matemática para cinco turmas, numa escola no bairro Jardim Itapura, Zona Sul de São Paulo.
Ela convive diariamente com o segundo maior problema apontado pelos professores na pesquisa.

“Uma das maiores dificuldades que a gente encontra hoje na sala de aula é a indisciplina. De diferentes maneiras que ela pode se manifestar. Para o meio que o aluno vive, não considerando só o ambiente da escola, fora dela, aquilo é comum. A gente leva tempo, acaba atrapalhando a aula”, conclui Rosania.

“Quando a gente faz a formação de professores no Brasil, a gente não forma ele para sala de aula. A gente não prepara esse professor para lidar com a indisciplina. Então ele tem que descobrir tudo isso na hora em que está lá, dentro da sala de aula, com 30, 35, 40 alunos, sem preparo”, avalia Denis Mizne, diretor-executivo da Fundação Lemann.

Thioni Carreti tem 26 anos. É professora de ciências há três, numa escola em Cidade Leonor, também na Zona Sul de São Paulo. E já descobriu que na sala de aula precisa ser mais do que professora.

“Quando eu entrei na escola, eu não esperava que eu teria tantos problemas com relação à convivência dos alunos em sala”, conta Thioni. “Às vezes, tenho que atuar como uma mediadora de conflitos.
É difícil porque nem sempre você está preparado psicologicamente para lidar com isso”.

A diretora da escola onde Thioni trabalha recebe o mesmo retorno de toda a equipe.

“A nossa preocupação é: se eu melhoro as minhas condições dentro da escola e abraço e acolho essas crianças aqui para que eles se sintam pertencentes dessa sociedade da qual eles estão vivendo, essa criança vai melhorar seu aprendizado”, explica a diretora Sarah Correa da Silva.

Mas essa tarefa não é fácil. Isso porque o atraso dos alunos para aprender o conteúdo, para os professores, é o terceiro problema que precisa ser enfrentado. Na sequência, vem a aprovação de estudantes que ainda não estão preparados para o próximo ciclo. E, em quinto lugar, os baixos salários.

“O debate para professor está tão distorcido, a gente só fala do salário, das más condições de trabalho, mas o que motiva esse professor a ser professor? Ele quer garantir que seus alunos aprendam”, avalia Mizne.

A pesquisa mostra que 72% dos professores afirmaram que a contribuição para o aprendizado dos alunos é o que mais traz satisfação. E 65% se disseram satisfeitos com a responsabilidade social do trabalho que fazem.

Nesta segunda, a Thioni, a Rosânia, a Simone e milhares de professores começam mais uma semana para cumprir a missão de educar.

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Fonte: G1