Estudantes mantêm ocupação da escola Carlos Gomes

Estudantes mantêm ocupação da escola Carlos Gomes

Publicado 19/12/2015 – 00h01 – Atualizado 19/12/2015 – 00h07

Por Alenita Ramirez e Jaqueline Harumi

Elcio Alves/AAN

Alunos da escola Carlos Gomes decidiram em reunião que manterão a escola ocupada até segunda-feira, quando haverá nova reunião

Completado um mês de ocupação nas escolas estaduais Carlos Gomes e Francisco Glicério, no Centro de Campinas, o juiz da 2ª Vara da Fazenda Pública, Wagner Roby Gidaro, concedeu no fim da tarde de quinta-feira (17) uma liminar à Fazenda Pública do Estado, em que determina a reintegração de posse das unidades.
A oficial de justiça Fharern Laubstein foi até as escolas com os mandados ontem, sendo que apenas os alunos da Francisco Glicério desocuparam o prédio no início da noite, após fazerem limpeza.

Os ocupantes da Carlos Gomes preferiram continuar na unidade e, depois de três horas de negociação, conseguiram que a reintegração fosse adiada pelo menos até segunda-feira, quando o dirigente da Diretoria de Ensino Campinas Leste, Nivaldo Vicente, e um conselheiro tutelar prometem comparecer na escola para uma última tentativa de negociação antes de a reintegração pela Polícia Militar.

Caso não haja um acordo, a ação policial poderá acontecer a qualquer momento a partir das 14h. “A minha missão é tentar fazer o acordo o máximo possível, mas se não tiver vou protocolar (o mandado) na PM”, explicou Fharern.

A ocupação escolar começou em protesto à proposta de reorganização da rede estadual de ensino, no entanto, mesmo após a suspensão da mudança, os ocupantes das duas escolas permaneceram nos prédios, sendo que na Carlos Gomes estavam em pauta várias reivindicações, dentre elas a criação do grêmio estudantil e a troca de direção para evitar retaliação e perseguição.

Dos pedidos, a Secretaria da Educação não havia acatado subtituir a diretora, alegando que para afastar um profissional concursado é preciso averiguar as leis do funcionalismo público e do magistério. Um grupo de professores se manifestou contra a medida.

Na decisão provisória pela reintegração de posse, Gidaro considerou que a medida era urgente, pois para ele há prejuízo ao programa pedagógico das duas instituições.

O magistrado afirmou que os “invasores não demonstram qualquer intenção de abandonar o ato de vandalismo e ocupação” e que a Administração Pública precisa retomar suas atividades e prédios escolares. “Os prédios das escolas estaduais devem ser ocupados pelos servidores da Secretaria da Educação e com a finalidade pedagógica”, diz trecho da liminar.

A escola Carlos Gomes tem quase 1,3 mil alunos matriculados nos ensinos Fundamental e Médio e na Educação de Jovens e Adultos, sendo que cerca de 60 estudantes teriam se revezado na ocupação.

Dia foi de tensão e apoio para jovens em unidade

A reintegração de posse foi aguardada com preocupação pelos ocupantes da Carlos Gomes, que tomaram conhecimento da decisão na noite de quinta-feira. “Dá medo. Pode ocorrer a qualquer momento. Sabemos que a polícia não pode entrar aqui com uma tropa de choque, pois somos adolescentes. Mas, mesmo assim dá muito medo. Nossa decisão é resistir. Estamos lutando por nossos direitos e gostaríamos que eles fossem respeitados”, disse a estudante Isabela Martins.

Cerca de 50 pessoas entre alunos, professores e simpatizantes da causa estavam no local. Muitos deles foram avisados da reintegração por WhatsApp, Facebook e SMS e começaram a chegar cedo, de diversas escolas e regiões para apoiar os alunos.

“Cheguei aqui às 8h e vou ficar o dia todo se possível para apoiá-los”, disse o professor da rede privada, Fábio Fernandes. Apesar da apreensão, os manifestantes não mudaram a rotina. Pela manhã não foram realizadas atividades recreativas e a tarde foi marcada pela negociação com a oficial de justiça. “Não estamos aqui para quebrar e nem tocar fogo, queremos apenas ser ouvidos e ter reivindicações consideradas”, disse o diretor da Apeoesp Pedro Oliveira.

Advogada do grupo critica a decisão do magistrado

O grupo de estudantes que ocupa a Carlos Gomes e representantes do movimento Minha Campinas e do Coletivo Quinze de Outubro contestaram a liminar. Apesar de estarem apreensivos, os manifestantes se mostraram indignados com a decisão do juiz e prometiam resistir a reintegração.

Para a advogada Cristiane Anizete, integrante do coletivo, o magistrado não mostrou preocupação em relação às denúncias contra a direção da escola e desconsiderou a reivindicação para troca da diretoria. “Eu fiquei bem assustada com o teor do parecer, pois parece que o mérito da ocupação não é legítimo e não discute a pauta.

O procurador do Estado comparou a ocupação com vandalismo. É um absurdo isso, pois o movimento é legítimo. Temos uma pauta concreta e o estado deveria olhá-la com preocupação”, disse. “Estamos recolhendo documentos e vamos cassar essa liminar. Temos relatos de assédio por parte de alunos e professores contra a diretora. Ela é extremamente autoritária e desrespeitou o estatuto do magistério e do servidor público”, completou.

Escrito por:
Alenita Ramirez e Jaqueline Harumi

Fonte: correio.rac.com.br