Esforço em escala

Maria Alice Rosa

Elvira Ferreira, do BC: mais renda leva a um maior consumo de crédito e pode resultar em maior endividamento

O governo federal e a iniciativa privada vêm desenvolvendo um projeto ambicioso com objetivo de promover a educação financeira no Brasil. Nos últimos três anos, cerca de 3 mil escolas públicas receberam material didático e capacitação para abordar o tema, de maneira transversal, em seus roteiros disciplinares, e foi criada uma plataforma aberta de internet em que qualquer pessoa ou instituição pode ter acesso gratuito ao material; a Comissão de Valores Mobiliários (CVM) lançou cursos a distância para adultos pela web e um site para crianças, e a Federação Brasileira de Bancos (Febraban) atraiu mais de 11 milhões de pessoas para o seu portal, onde o brasileiro pode aprender como lidar com o próprio dinheiro.

No entanto, estas ações são apenas alguns exemplos e representam praticamente um projeto-piloto dentro da Estratégia Nacional de Educação Financeira (Enef), lançada em 2010 pelo Decreto 7397. É a partir de agora que o programa voltará seu foco para a massificação, com intuito de fazer com que os brasileiros conheçam as opções de que dispõem na área financeira, fazendo escolhas mais criteriosas e administrando melhor seus recursos – o que teria impacto também na formação de poupança no país e no fortalecimento do mercado.

“O momento é de buscar a expansão, procurar projetos que estejam alinhados à estratégia nacional para incorporá-los e disseminar ainda mais o conhecimento sobre o setor em âmbito nacional”, afirma a representante do Comitê Nacional de Educação Financeira (Conef), Patrícia Cerqueira Monteiro. Entre setembro e novembro do ano passado, foi realizado o primeiro mapeamento da educação financeira no Brasil, que detectou 803 iniciativas no segmento, oito vezes mais do que em 2010, no início do projeto. Em 2013, também foi promovida a primeira Semana Nacional de Educação Financeira, que reuniu 108 iniciativas e será anual, contribuindo para propagar a ideia no país. Além disto, está em estudo a criação do selo Enef, que deverá começar a ser concedido no ano que vem para os projetos que correspondam aos critérios do programa, como a gratuidade, interesse público, embasamento teórico correto e a proibição de venda de produtos.

A experiência recente mostra que o modelo adotado para colocar a Enef em prática foi bem-sucedido. A coordenação e o planejamento são centralizados no Conef, composto por oito órgãos públicos federais, incluindo quatro ministérios (Educação, Justiça, Fazenda e Previdência) e quatro entidades do setor privado. A execução das diretrizes fica a cargo da Associação de Educação Financeira do Brasil (AEF-Brasil), criada e mantida pelas instituições privadas que compõem o Conef. Um exemplo: no programa Educação Financeira nas Escolas, carro-chefe da Enef, o Ministério da Educação forneceu material didático para 2.969 escolas públicas de ensino médio de todo o país, enquanto a AEF designou especialistas para a capacitação dos professores.

Nesse projeto, a associação contrata empresas especializadas e fecha acordo com administrações municipais para preparar os professores, que se tornam multiplicadores do conhecimento. A AEF também é responsável pelo site da Enef, o Vida e Dinheiro, a educação financeira de adultos, a plataforma aberta com o material didático (www.edufinanceiranaescola.gov.br) e o mapeamento da Enef. “A quantidade de iniciativas, o tamanho e a diversidade das instituições revelados no mapeamento mostram que o tema começa a se alastrar e adquirir uma grandeza nacional”, afirma Silvia Morais, superintendente da AEF.

Os primeiros resultados também animam. Uma avaliação feita pelo Banco Mundial durante o projeto-piloto do programa Educação Financeira nas Escolas mostrou que a proficiência, a autonomia financeira e a intenção de poupar aumentaram entre aqueles que estudaram o assunto. Para citar um dado apenas, 59% dos alunos que participaram do projeto poupam parte de sua renda, enquanto o percentual é de 55% entre os que não participaram. “O programa brasileiro foi apontado pelo Banco Mundial, em um universo de 188 estudos sobre resultados da educação financeira, como um dos três em que há evidências científicas de impacto positivo. O banco concluiu que o programa pode influenciar conhecimentos, atitudes e comportamentos, incrementando a taxa de poupança em larga escala e, potencialmente, o crescimento econômico”, afirma José Alexandre Vasco, superintendente de proteção e orientação aos investidores da CVM, órgão que coordenou o projeto-piloto nas escolas. Além disto, a iniciativa contribuiu para que o Brasil fosse o vencedor do prêmio Country Award 2014, promovido pela Child and Youth Finance International (CYFI), das Américas e Caribe.

Tanto a CVM quanto o Banco Central e as superintendências nacionais de Previdência Complementar (Previc) e Seguros Privados (Susep), também integrantes do Conef, desenvolvem iniciativas de educação financeira há décadas, assim como as entidades do setor privado que também compõem o Comitê – Febraban, Anbima, BM&FBovespa e CNSeg. A própria ideia de criar o programa nacional é antiga. Com a Enef, o trabalho passou a ser integrado. Na CVM, os projetos envolvem publicações, ensino a distância, portal infantil, programa de formação de magistrados e redes sociais com a marca CVM Educacional, entre outros. Nos próximos meses deverá ser lançada uma nova rede social “para atuar em uma área em que ainda não estamos”, diz o superintendente.

Na Febraban, que tem vários programas educacionais, um dos objetivos para o segundo semestre é potencializar o alcance do portal Meu Bolso em Dia, que, desde a criação, em 2010, já recebeu 11 milhões de visitantes únicos. A partir de agosto, começará o processo de integração dos conteúdos do portal com o dos bancos, conta o diretor de educação financeira da federação, Fábio Moraes. “Vamos criar uma grande rede de educação financeira no setor. É necessário um esforço nacional para que este assunto esteja no dia a dia das pessoas. A palavra agora é criação de escala”, diz. Segundo Moraes, o foco do portal é a chamada nova classe média, estimada em cerca de 100 milhões de pessoas. “É um público que está se bancarizando e conhece muito pouco os produtos financeiros.”

Uma pesquisa realizada pela Febraban com cerca de 3 mil visitantes do Meu Bolso em Dia revelou que, quanto maior a frequência do entrevistado no portal, menor a inadimplência e maior a propensão a fazer poupança. Enquanto 47% das pessoas que visitavam o site pela primeira vez tinham pagamentos em atraso, entre os chamados “light users” o índice era de 35% e, no grupo de “heavy users”, de 30%. Em relação ao hábito de poupar, os índices, na mesma sequência, ficaram em 41%, 43% e 52%. Já a Anbima destaca a criação, neste ano, da Central de Informação do Investidor Brasileiro, que tem o objetivo de construir o maior banco de dados sobre o comportamento dos investidores no país, servindo como referência nacional em relação ao assunto.

Fonte: Valor Econômico