Escolas precisam preparar-se para atender estudantes que trabalham

Escolas precisam preparar-se para atender estudantes que trabalham

Sabrina Souza

Embora a participação dos jovens com idade entre 15 e 17 anos no mercado de trabalho tenha diminuído, passando de 36% para 29,5% em seis anos, de acordo com dados do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea), essa taxa ainda é alta e, por isso, a escola precisa se preparar para absorver alunos que não só estudam, mas também trabalham. Essa é a constatação da doutora em Educação e autora do projeto “Ensino Médio em Diálogo” do campus Sorocaba da Universidade Federal de São Carlos (UFSCar), Maria Carla Corrochano. Apesar de posicionar-se contra o trabalho nessa faixa etária, já que nessa fase o jovem deveria se dedicar apenas aos estudos, ela afirma que essa realidade não pode ser ignorada. “Nós temos os programas de Menor Aprendiz, mas menos de 1% dos jovens que trabalham estão abrangidos por esse modelo. Além disso, os índices mostram que quem começa a trabalhar cedo na informalidade tende a não conseguir uma evolução profissional durante a fase adulta”, analisa.

A maior preocupação, conforme explica Maria Carla, está no fato de que a participação dos jovens no mercado de trabalho ainda é marcada por desigualdades, sejam elas de classe social, de gênero ou de raça. “A inserção dos jovens no mundo do trabalho ocorre não como uma opção para que se desenvolvam profissionalmente, mas sim por uma questão de necessidade financeira”, ressalta ela, citando ainda que mercado de trabalho e mundo do trabalho são coisas diferentes. “Quando falamos da população jovem economicamente ativa, a conclusão é de que ela se concentra na informalidade, ou seja, eles possuem um trabalho, mas não um emprego”, exemplifica. O mundo do trabalho dos jovens estaria marcado, portanto, por baixas remunerações, jornadas excessivas e atividades repetitivas, que não desenvolvem intelectualmente os estudantes.

“De uma forma geral, podemos dizer que os jovens que pertencem a famílias com situação financeira melhor adiam sua entrada no mercado de trabalho, enquanto que os de classes sociais mais baixas passam a trabalhar precocemente, pois precisam se sustentar ou ajudar a família”, considera ela, que é professora do mestrado em Educação da UFSCar Sorocaba. Maria Carla explica que, nesse primeiro grupo, estão as pessoas com condições para dar continuidade nos estudos, que acabam entrando no mercado de trabalho somente quando começam a cursar o ensino superior, ou até mesmo depois que concluem a faculdade. “Com isso, eles conseguem empregos com melhores condições”, acrescenta. Por outro lado, ela atenta também que a inserção em empregos com qualidade não depende apenas da escolaridade, mas também de outros fatores, inclusive discriminatórios. “Seria mentira se ignorássemos que o aspecto do trabalho não é afetado pelo preconceito”, expõe.

Mesmo assim, a queda na participação do jovens no mercado de trabalho está acompanhada por um aumento na escolaridade dessa população. Os dados do Ipea mostram que, em quatro anos, houve um aumento de 0,4 anos de estudo para a faixa etária de 15 a 17 anos. Os números, reunidos em parceria com a Organização Internacional do Trabalho (OIT) para a criação do plano nacional de trabalho decente para a juventude, revelam ainda que a escolaridade avançou mais onde havia um maior atraso escolar. Além disso, a pesquisadora aponta que o principal ponto a ser considerado é a qualidade da educação oferecida a esses jovens. “Nós temos escolas que cobram dos estudantes um desempenho de quem se dedica somente aos estudos, mas essa não é a realidade”, diz ela, enfatizando que a solução vai além da disponibilidade de aulas noturnas. “Sabemos que o funcionamento da escola a noite é justamente voltado à esses alunos. Por outro lado, se pararmos de disponibilizar isso, o jovem não deixará de trabalhar, mas sim abandonará a escola, já que o trabalho não é uma opção para a maioria”, opina.

Como alternativa, ela propõe que as escolas deixem de ignorar a parcela de estudantes economicamente ativa e sirva como suporte para eles, de forma a orientar sua atuação no mercado de trabalho. “A escola precisa dialogar com os jovens e discutir o papel deles como trabalhadores. Em resumo, é preciso educar sem limitar”, justifica. “O aluno que trabalha está cansado e não dedica outro tempo aos estudos a não ser aquele no qual está na escola. Não deveria ser assim, mas na prática é o que acontece”. Não limitando a visão apenas para o ensino regular, Maria Carla destaca também que o modelo de educação profissionalizante praticado hoje no país não é o ideal. “A visão que se tem da relação entre jovens e mercado de trabalho ainda é muito minimalista. Oferecer um curso técnico não garante a esses jovens um emprego de qualidade”, comenta.

“Ensino Médio em Diálogo”

Conduzido no Departamento de Ciências Humanas e Educação (DCHE), do qual Maria Carla é chefe, o projeto “Ensino Médio em Diálogo” busca trazer para a região de Sorocaba a participação dos jovens no mercado de trabalho, a fim de realizar um diagnóstico local dessa relação. Para tanto, são realizadas rodas de diálogo através de uma rede de extensão de ensino com quatro escolas estaduais do município e de cidades vizinhas. “Conversando com os estudantes, nós buscamos entender o que eles pensar sobre o trabalho e quais as suas perspectivas para o futuro”, explica a professora. O trabalho segue a mesma linha da tese de doutorado da pesquisadora, que analisou o trabalho e sua ausência no contexto de jovens paulistanos.

Os dados levantados pela docente foram apresentados ainda no 32º Congresso Internacional da Associação de Estudos Latino-Americanos, realizado no último mês de maio em Chicago, nos Estados Unidos. Lá, Maria Carla participou como membro da Associação de Estudos Latino-Americanos, uma entidade profissional composta por mais de sete mil indivíduos e instituições. Além disso, a docente colabora atualmente com a elaboração do plano nacional de trabalho decente para os jovens, em parceria com a OIT.

Fonte: Cruzeiro do Sul