Escolas paulistas repõem aula sem merenda

Escolas paulistas repõem aula sem merenda

Emílio Santana

Após 89 dias da mais longa greve dos professores de São Paulo, a reposição de aulas na rede estadual está sendo feita sem que os alunos recebam as refeições habituais.

Isso porque parte da reposição ocorre no atual período de recesso, quando também estão de férias funcionários das cozinhas terceirizadas que fornecem às escolas refeições como arroz, feijão e carne.

A Secretaria da Educação afirma que todas as escolas têm estoque de “merenda seca” –alimentos que não precisam ser cozidos, como bolachas, leite, sucos, frutas e barras de cereal.

Segundo relatos de professores, porém, mesmo esses itens estão em falta em escolas da capital.

A merenda escolar é um “direito dos alunos da educação básica pública e dever do Estado”, diz a Constituição.

Além da alimentação, o transporte gratuito dos estudantes também está prejudicado nessa fase de reposição de aulas, afirmam professores ouvidos pela reportagem.

A greve na rede da gestão Geraldo Alckmin (PSDB) acabou no mês passado. Como a adesão variou de acordo com a unidade, as escolas puderam montar o calendário de reposição da forma que consideraram mais conveniente.

Após o fim da paralisação, algumas decidiram não interromper as atividades em julho, enquanto outras começam a repor as aulas no próximo dia 20.

O retorno para o segundo semestre do ano letivo deve ocorrer no próximo dia 3 –a partir de então, a reposição pode ocorrer, por exemplo, no contraturno escolar.

Apesar de contarem, segundo a Secretaria da Educação, com a opção de “merenda seca”, professores e alunos ouvidos pela reportagem dizem que a solução ainda não foi implementada, e que isso prejudica o aprendizado.

“Eles passam a manhã inteira sem nada no estômago. Muitos ficam com dor de cabeça e isso também dificulta a concentração”, diz uma professora da escola Carlos Aires, no Grajaú, no extremo da zona sul de São Paulo.

Segundo ela, que pediu para não ser identificada, alguns alunos acabam não comparecendo às aulas. “É um problema, principalmente para os menores. Muitos vêm para a escola sem comer nada.”

Lucas Hideki, 16, e Henrique Brandão, 17, alunos do terceiro ano do ensino médio, estão repondo as aulas perdidas. “Se quiserem comer alguma coisa, os alunos têm que comprar na cantina”, diz Lucas.

Para a mãe de Henrique, a dona de casa Luzia Brandão, 41, a merenda seca não é a mesma coisa que a alimentação normal, “mas já ajuda”. “Eles entram muito cedo, precisa ter um lanche”, afirma.

Nas escolas Benedito Ferreira de Albuquerque, Roberto Mange e Calhim Manoel Abud, as três na zona sul, o jejum se repete. Professores dizem que a saída é improvisar.

“Na segunda [6], os alunos ganharam um bolinho que não foi suficiente para todos”, afirma um docente da Benedito Ferreira. “Na quinta [9], cada um recebeu três bolachas água e sal sem nada para beber.” Segundo ele, os alunos estão sendo aconselhados a levar lanche de casa.

“Hoje [terça-feira], dividi entre eles algumas bolachas, mas não tinha para todo mundo”, afirma uma professora da Calhim Manoel Abud.

O governo não informou quantas escolas tem merenda de cozinhas terceirizadas.

Fonte: Folha de São Paulo