Escola pública muda o perfil dos futuros médicos

Escola pública muda o perfil dos futuros médicos

Inaê Miranda
Dominique Torquato

A notícia de que 88,2% dos aprovados em primeira chamada no curso de medicina da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) fizeram o Ensino Médio em escola pública repercutiu em todo o País na última semana.

Historicamente, o curso é o mais concorrido da instituição e, até então, tinha as vagas predominantemente ocupadas por estudantes de escolas privadas.

A mudança é resultado principalmente das alterações feitas no Programa de Ação Afirmativa e Inclusão Social (PAAIS) — sistema de bonificação da universidade que aumenta a oportunidade de inclusão dos estudantes da rede pública. O ingresso desses alunos na Unicamp suscitou, entre outros debates uma possível mudança no perfil dos futuros médicos.
Humanização

Uma das expectativas é de que os novos alunos de medicina da Unicamp tenham um olhar mais voltado para a comunidade, para a saúde coletiva e que pratiquem uma medicina cada vez mais humanizada.

Angela Soligo, professora da Faculdade de Educação da Unicamp, afirma que os alunos da rede pública trazem consigo uma bagagem “diferente” em relação ao tipo de vida que vivem, mais próxima da realidade da maioria dos brasileiros.

“Muitos já usaram e conhecem o SUS, andam de ônibus, têm que trabalhar para estudar. Pensando na saúde como política pública, certamente terão um diferencial bastante positivo”, afirma.
Para a educadora, muitos desses alunos entrarão com o compromisso não só de melhorar de vida e melhorar a vida da família, mas também da comunidade onde vivem. Por conhecerem a realidade da saúde pública, na visão da educadora, há maior probabilidade desses futuros médicos terem empatia com a saúde coletiva e com os usuários do sistema público de saúde.

“Muitos entrarão com esse compromisso com as políticas públicas por fazerem parte dessa realidade de forma mais próxima e direta. Claro que o aluno que vem da classe alta também pode ter empatia e compromisso com a saúde pública. A gente não pode generalizar”, afirma.
Paulo Eduardo Velho, coordenador da Faculdade de Ciências Médicas (FCM) da Unicamp diz que ainda não há estudos que apontem essa mudança.

“O que posso garantir é que há um esforço grande da faculdade para que todos os nossos alunos, independente de sua origem, tenham um olhar diferenciado e mais humanizado sobre os pacientes que atendem na sua formação e mesmo depois de finalizado o curso”, afirma.
Coordenador da Comissão Permanente para os Vestibulares (Comvest), Edmundo Capelas de Oliveira, afirmou que muitos estudantes entrarão com outra visão, mas é cedo para concluir se isso implicará na mudança de perfil dos profissionais. “O curso é de seis anos. Antes da formatura não tenho como falar.”

Exemplos

Ex-aluna do Colégio Técnico da Unicamp, Andrea Saori Hosoda Henriques, de 18 anos, fez o curso técnico de alimentos e diz que o estágio em microbiologia na Unicamp ajudou a consolidar seu objetivo de cursar medicina. “Tentava ver aquilo aplicado ao desenvolvimento de pesquisa na área da saúde.”

Filha de médica, Andrea diz que a saúde tem muitos problemas no Brasil, mas espera com a formação em uma boa faculdade aprender a lidar com todos os obstáculos. Sua expectativa em relação à carreira?

“Espero poder contribuir. Ajudar salvar vidas, melhorar a questão da saúde no Brasil. Tanto no âmbito de um paciente, como de uma comunidade ou hospital”, diz a estudante, moradora do bairro Betel, em Paulínia.
Ketlyn Guimarães dos Santos, de 19 anos, ex-aluna da Escola Estadual Professora Maria de Lourdes Campos Freire Marques, também vai fazer parte da turma de medicina deste ano.

Moradora da região do Ouro Verde, em Campinas, ela ingressou na Unicamp por meio do Programa de Formação Interdisciplinar Superior (Profis) há dois anos e, somente depois de obter um bom aproveitamento, com excelentes notas, pôde optar por cursar medicina. Além do esforço pessoal, Ketlyn também contou com o apoio do cursinho alternativo Herbert de Souza para conseguir ingressar na Unicamp.

“Estudei no Herbert de manhã, à tarde estudava em casa por conta e à noite fazia o 3º ano do Ensino Médio.” Além disso, Ketlyn não perdia os plantões de dúvidas do cursinho aos finais de semana.
A jovem tem três irmãos. É filha de uma consultora de vendas e de um eletricista aposentado. Será a primeira médica da família, que vibrou com a sua aprovação. Usuária da rede pública de saúde, a estudante pretende levar o seu conhecimento para comunidade e ajudar muitas pessoas.

“Espero poder trabalhar na rede pública e ajudar muita gente. Também espero contribuir para uma boa relação entre médico e paciente, porque já senti que muitos médicos não têm contato com os pacientes. Têm uma relação muito mecânica. Não são todos”, afirma.

Bônus foi dobrado

Na edição 2016 do vestibular, a Unicamp dobrou a bonificação do PAAIS para estudantes da rede pública. Todos os candidatos que fizeram o ensino médio integralmente em escolas públicas receberam 60 pontos na primeira fase e outros 90 pontos na segunda fase.

Os candidatos de escola pública autodeclarados pretos, pardos ou indígenas receberam além desses, outros 20 e 30 pontos respectivamente na primeira e na segunda fase. Até o vestibular Unicamp 2015 a pontuação era aplicada somente após a segunda fase.
Para Renato Pedrosa, professor do Departamento de Política Científica e Tecnológica da Unicamp e ex-coordenador da Comvest A mudança foi radical porque antes os alunos recebiam no máximo 40 pontos e hoje recebem até 120 pontos. “O aluno que tinha 600 pontos passa para 720 pontos”.

Para Pedrosa, em algumas áreas, os alunos podem enfrentar dificuldades acadêmicas. “Na engenharia civil, por exemplo, eles podem vir com nota baixa em física e matemática. Podem estar despreparados” . Pedrosa fala em desequilíbrio nas aprovações em cursos como medicina, arquitetura. “Imagino que vamos ter alguns problemas e pode haver uma reconsideração” .
O atual coordenador da Comvest diz que não concorda. “Eu acho que o estudante de área de exatas, independentemente se é de escola pública ou não deve sentir dificuldade se não teve uma base forte em matemática. Acredito que serão estudantes exatamente iguais”.

Fonte: e imagem: Correio Popular