Entre 33 países, Brasil é o que tem, disparado, a maior proporção de professores reclamando de indisciplina dos alunos

Entre 33 países, Brasil é o que tem, disparado, a maior proporção de professores reclamando de indisciplina dos alunos

Antônio Gois

Entre 33 países, Brasil é o que tem, disparado, a maior proporção de professores reclamando de indisciplina dos alunos. Alunos e professores nem sempre concordam sobre os motivos que explicam maus resultados de uma turma ou escola. Há, no entanto, um ponto consensual no Brasil: perdemos muito tempo em sala de aula por causa da indisciplina. Esse problema e a falta de acompanhamento psicológico para os estudantes são justamente as duas questões mais urgentes a serem enfrentadas no país na opinião dos docentes, segundo pesquisa da Fundação Lemann exibida ontem no programa “Fantástico”.

Um boletim divulgado pela OCDE (Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico) em janeiro já trazia um dado alarmante sobre o tema: dentre 33 países comparados na Pesquisa Internacional sobre Ensino e Aprendizagem de 2013, o Brasil foi, disparado, onde os professores mais relataram ter 10% ou mais de estudantes indisciplinados. Dois terços de nossos docentes disseram vivenciar esse problema em sala de aula.

Em seguida nessa espécie de ranking da indisciplina aparecem outros dois países latino-americanos —Chile e México—, com metade dos docentes reportando esse quadro. A média dos países da pesquisa é de 31%, mas, em nações como Dinamarca, Croácia, Noruega e Japão, o percentual não passa de 20%.

O levantamento mostra ainda que um terço dos professores (34%) estão em escolas cujos diretores verificam intimidação ou ofensa verbal entre os alunos semanalmente, novamente o maior percentual entre os países. Não por acaso, são os docentes brasileiros que dizem mais tempo perder em sala de aula tentando controlar a indisciplina.

O incômodo é reportado também pelos alunos. Em outra pesquisa da OCDE, o Pisa (exame internacional aplicado a jovens de 15 anos), dentre 65 nações comparadas, apenas na Argentina e na Tunísia os estudantes reclamam mais de indisciplina entre os colegas do que no Brasil.

Um estudo de Gabriela Moriconi e Julie Bélanger, que será publicado em breve pela OCDE e pela Fundação Carlos Chagas, identifica possíveis soluções. Ele mostra que a participação de professores em programas de desenvolvimento profissional e o trabalho em escolas onde há uma cultura de troca de experiências e ajuda mútua entre docentes estão associados a uma menor ocorrência de atos de indisciplina.

Outra constatação importante, corroborada também pela OCDE em seu boletim, é a de que é preciso envolver alunos, pais, funcionários e professores nas decisões escolares, “para criar uma cultura de responsabilidade compartilhada que tem impactos positivos no envolvimento do estudante com a escola e em seu comportamento”.

Resolver o problema não é simples, mas é certo que essa responsabilidade não pode recair apenas sobre os ombros dos professores. Gabriela Moriconi, uma das autoras do estudo, visitou escolas em Ontário (no Canadá) e na Inglaterra, em busca de lições para a América Latina. Ela conta que a característica desses sistemas de ensino que mais lhe chamou a atenção foi a estrutura de apoio não acadêmico com a qual os colégios podiam contar. “São pessoas que se preocupam com a presença dos alunos, ficam à disposição para que eles os procurem quando têm problemas, que trabalham com os casos mais sérios de comportamento e orientam projetos de vida e de carreira, lidando com o aspecto socioemocional. Especialmente em escolas com alunos de nível socioeconômico mais baixo, esses apoios me parecem fundamentais”, afirma a pesquisadora.

Fonte: O Globo