Ensinar além da tolerância

Ensinar além da tolerância

Izabela Moi

Reitor da Universidade de Free State, Jonathan Jansen comanda há cinco anos o processo de inclusão de negros nos quadros de professores e alunos da instituição. O professor prega uma “pedagogia pós-conflito” que revisite o apartheid de maneira crítica, mas vá além do moralismo fácil que demarca bons e maus.

O professor Jonathan Jansen lembra-se exatamente do momento em que decidiu aceitar o convite para trabalhar na Universidade de Free State, em Bloemfontein, a capital judiciária da África do Sul.

Em 2008, milhares de pessoas pelo mundo assistiram ao vídeo que mostrava quatro jovens estudantes brancos fazendo “brincadeiras” com cinco trabalhadores negros e mais velhos da universidade. A imagem da diversão racista era a prova de que o país não tinha ainda conseguido se reconciliar, pouco mais de 15 anos depois de ter conseguido eleger democraticamente Nelson Mandela presidente. Um ano depois, Jansen quis estar no centro do problema da integração racial na educação.

Por uma decisão tripartite da universidade, dos estudantes e dos próprios trabalhadores a questão teria ainda de ser resolvida fora das cortes, em um jantar realizado a portas fechadas. Cerca de três anos de negociações após o episódio, o já então reitor Jansen, o primeiro negro a ocupar o posto na universidade, estava ali para conduzir o encontro a fim de que a conversa, se bem-sucedida, terminasse em um pedido público de desculpas no dia seguinte. Era a noite de 24 de fevereiro de 2011.

Hoje também vice-cônsul da universidade que por muitos anos produziu os argumentos científicos que sustentaram o regime do apartheid, Jansen venceu pelo menos a barreira da integração visível. Após cinco anos no comando do processo de incluir a população negra tanto no quadro de professores da universidade como no corpo discente, os números já mostram alguma mudança. Os dados mais recentes, de 2013, apontam que cerca de 60% dos alunos formados na Free State são negros e 10% dos professores contratados e 21% dos “horistas” (“lecturers”) também. Um avanço para a universidade mais simbólica do país, que passou os anos do apartheid sendo exclusivamente branca.

Mas o mais importante, além da difícil transição dos números, é o que realmente acontece nos dormitórios, nas salas de aula, nas reuniões entre professores, nas atividades extracurriculares.

Jansen afirma que essa é uma das razões que o fazem circular muito no campus e estar sempre perto e ao alcance do diálogo dos estudantes, principalmente. Também por esse motivo ele dá aulas sobre integração para o primeiro ano.

O reitor acredita que não basta misturar estudantes e professores brancos e negros dentro da instituição. Para ele, as gerações que viveram sob o regime do apartheid precisam aprender sobre o outro, aprender a não temer, a confiar e que o outro é muito próximo.

É esse tipo de aprendizado que ele chamará de “pedagogia pós-conflito”, e sobre a qual escreve o inesperadamente inquietante “Knowledge in the Blood: Confronting Race and the Apartheid Past” (Conhecimento pelo sangue: confrontando raça e o passado de apartheid). O livro foi publicado em 2009 pela editora de Stanford, universidade onde Jansen fez seu PhD em 1991 e com a qual mantém laços de pesquisa desde então.

Também presidente do South African Institute of Race Relations (instituto sul-africano de relações raciais), o professor Jansen gosta de relembrar o final do episódio do vídeo como um sinal de esperança para seu país em (re)construção.

Naquela noite de 2011, depois da conversa entre os diretamente envolvidos, foi servido o jantar com a presença das famílias de todas as partes. Entre música, lágrimas e intimidade. “A reconciliação foi feita. A ferida permanece, mas agora ela vai cicatrizar mais rápido. ‘Nós entendemos que a questão não era apenas sobre nós, mas sobre o país inteiro’, disse um dos trabalhadores ao sair da sala em que conversaram privadamente com os estudantes”, conta Jansen.

Folha – A questão que mais repete durante seu trabalho é “como podemos ensinar nossas crianças, brancas e negras, sobre nosso passado violento, se removermos as evidências de sua existência?”. Pode nos dizer como?

Jonathan Jansen – É impossível. Temos de atravessar o passado para poder dar sentido ao presente e assim construir um futuro diferente. Entendo a vontade de negar ou esquecer o passado, porque ele realimenta a vergonha ou a culpa entre uns, e o desconforto e a dor em outros. Por isso a palavra-chave é ensinar. Precisamos de um tipo de educação que combine empatia crítica com abertura e honestidade. Em meu caso, por exemplo, devo aprender a me aproximar dos brancos sem prejulgamentos ou sentimentos de refração, mas com a generosidade que me torna disposto ao verdadeiro diálogo. Sentir empatia não significa concordar. Significa compreender e reconhecer que sobre determinadas circunstâncias, todos os seres humanos são capazes de atos terríveis. Não proponho um relativismo moral, mas também não aceito o moralismo fácil que atrai aplausos. Proponho que tomemos conhecimento de nossa mútua vulnerabilidade e que esse seja o primeiro passo para o exercício do diálogo crítico e real.

Integração, reparação, reconciliação”¦ Como ensinar tudo isso?

A primeira coisa é que não podemos ensinar apenas palavras. Em sociedades profundamente divididas, os líderes têm de dar o exemplo de comportamentos que incluam a tolerância. E ensinar não é postar-se em frente a uma sala de aula cheia de estudantes. Nós precisamos de uma nova sala de aula em que possamos trazer para o ambiente o resultado de toda a preparação necessária aos educadores. E a sequência é importante. Não podemos ensinar reparação se não tivermos atingido reconciliação antes. E a reconciliação não pode ser feita sem a presença de grupos rivais no mesmo espaço físico (e emocional e espiritual, se possível) –ou seja, integração. A “pedagogia pós-conflito”, como proponho, é ir além do modelo de fácil demarcação que separa os bons dos maus.

E como se faz para integrar as escolas com sucesso?

É preciso, antes de mais nada, expor publicamente os argumentos para a integração em vez de apenas realizá-la, sem tornar ninguém parte da mudança de direção. Depois, é preciso deixar claras quais são as regras do mundo ideal e convocar os líderes da comunidade escolar a manterem seu compromisso com elas. Em seguida, trabalhar com aqueles que já estão prontos para seguir o movimento. É necessário criar incentivos para a integração, e desestimular a separação. E, por fim, mas antes de mais nada, é preciso que o modelo integrado funcione a partir das lideranças, para que sirva de exemplo a ser seguido.

Que mudanças você implementou no currículo da Universidade de Free State?

Criei o que chamamos de currículo mínimo obrigatório, uma inovação num país que não tem a tradição do ensino de “liberal arts”. De maneira geral, nosso ensino na universidade privilegia a especialização, que, a meu ver, acontece muito cedo na vida estudantil. Esse currículo mínimo tem o objetivo de ampliar o espectro das investigações do mundo real e do pensamento dos alunos, e é presente durante todo o primeiro ano letivo. Esse currículo inclui atividades acadêmicas, leituras e reflexões em sala de aula sobre, por exemplo, o que significa ser justo, como lidar com nosso passado violento, por que a crise econômica global é considerada global, quão pequeno é pequeno no mundo da nanotecnologia. E essas questões são revisadas e atualizadas todos os anos.

E o que está acontecendo na universidade que lidera e não acontece no resto do país?

Nós investimos pesadamente no desenvolvimento dos estudantes. Primeiro, na integração entre brancos e negros, para aprendermos a viver juntos além da tolerância, para aceitar verdadeiramente o outro. E temos conseguido isso na maioria das vezes. E nossa prática inclui políticas claras e transparentes, líderes que mostram o exemplo a seguir, um planejamento meticuloso, várias oportunidades de aprendizado criadas especialmente para os estudantes, o design da própria residência estudantil [no campus] e muita dedicação.

Depois da pedagogia pós-conflito, então, qual é a próxima etapa?

Meu novo livro é sobre como os estudantes, brancos e negros, de uma das universidades mais conservadoras do país em termos de integração racial acabaram se envolvendo em incidentes de violência racial. E eu tento explicar teoricamente como esse processo de “ver o outro em si mesmo” pode acontecer para estes estudantes e que tipo de estrutura institucional permite essa transformação. É um livro cheio de esperança, e que dá voz a esses alunos, brancos e negros, que mudaram. O livro pode servir para qualquer outro lugar que viva a experiência do conflito, seja ele de origem racial, étnica ou religiosa.

Falando assim, parece tudo muito claro. Mas sabemos que tem muitos críticos. Quem são seus opositores?

Eles são uma minoria estranha. Porque não sou filiado ou mesmo a favor de nenhum dos partidos políticos em meu país, acabo tendo mais espaço para dizer o que penso e me colocar contrário a essa administração atrasada do sistema de educação. Ao mesmo tempo, sinto também que essa oposição não discorda das minhas principais batalhas contra a corrupção que dizima o sistema de produção e distribuição de material didático, o poder extremo dos sindicatos e a falta de preparo (e de engajamento) dos professores. Sou comumente esquecido quando se organizam comissões, prêmios ou atividades de escopo mais amplo na área de educação. Espero ser julgado, no entanto, pelo menos na educação, como mais uma voz que faz parte do processo de fortalecimento da nossa democracia.

Quando escreve sobre política educacional, fala sempre do desastre que é o desperdício de talentos na África do Sul. Como enfrentar isso?

Nosso país tem uma taxa muito baixa para aprovação nas escolas: basta 30% de aprendizado em algumas disciplinas, 40% em outras. Quando o próprio sistema espera pouco das performances individuais, as pessoas vão se desenvolver em resposta a essa visão também. Somos um país de “baixas aspirações” que tem um nível alto de recursos. Sinto que ignoramos a capacidade de milhares de jovens simplesmente porque decidimos, como política educacional, tratá-los como estúpidos.

E como estão os números atuais, ao menos em termos quantitativos, de estudantes que se formam?

Apenas 50% das crianças matriculadas no primeiro ano do ensino fundamental terminam esse período escolar. Os estudantes que saem do sistema acabam caindo nas malhas do desemprego e mais tarde, muitas vezes, no sistema penitenciário. Nossos níveis de criminalidade estão diretamente ligados aos baixos números de educação.

Vamos falar de outro lado polêmico de suas ideias, a participação que você acredita que os pais devem ter na vida escolar de seus filhos. Quer falar um pouco sobre isso?

Acredito no direito de crianças e jovens escolherem o que acham importante, e nós, adultos, temos de confiar neles. Muitas vezes, pais e professores sufocam interesses dos alunos em nome do cuidado. Nós aprendemos por meio de nossos erros. Por que impedir a nova geração de aprender com os dela? Esse é meu conceito mais básico de educação.

Quais são seus ideais de educação?

Muito simples: quero educação de qualidade para todas as crianças. O resto virá a partir disso.

Fonte: Folha de São Paulo