EE Jamil Gadia tem o desafio de formar alunos autônomos, solidários e competentes

EE Jamil Gadia tem o desafio de formar alunos autônomos, solidários e competentes

Ingrid Vogl

Na Escola Estadual Deputado Jamil Gadia, no Parque da Figueira em Campinas/SP, toda a equipe tem um objetivo em comum que é quase um mantra: formar alunos protagonistas para que tenham autonomia de buscar e realizar seus desejos e projetos de vida.

Cartazes logo na entrada da escola e afixados em todas as salas de aula, em que se destacam as palavras Autônomo, Solidário, Competente, Protagonismo Juvenil e Projeto de Vida, mostram que o Programa de Ensino Integral, implantado na escola oficialmente desde o início deste ano letivo, é levado a sério e já tem o envolvimento e comprometimento de toda a comunidade escolar.

Para se chegar à efetivação do Programa de Ensino Integral, também conhecido como Novo Modelo de Escola de Ensino Integral, ligado à Secretaria de Estado da Educação de São Paulo, a equipe pedagógica da escola pesquisou, planejou e envolveu profissionais, funcionários, alunos e famílias na decisão de transformar a escola, que atende alunos do ensino fundamental dos anos finais (6º ao 9º ano) e ensino médio, em uma instituição com aulas que ocorrem das 7h30 às 16h30.

Todo esse processo foi iniciado no final de 2014, quando a escola deixou de atender dez salas de aula, o que representou uma perda de cerca de 330 alunos que todos os dias eram transportados da região do Campo Belo para o Parque da Figueira, devido à falta de escola de ensino fundamental naquela região.

“Com a construção e entrega de uma nova unidade no Jardim Marisa, que fica no Campo Belo, os alunos daquela região foram matriculados na nova escola, e com a redução do número de estudantes aqui na Jamil Gadia, o Programa de Ensino Integral voltou à pauta da equipe educacional, como já havia ocorrido anos antes”, contou a diretora da escola, Monica Vidal.

A partir daí, houve também a redução de 42 professores efetivos para 24 no quadro de docentes da escola, que decidiram então iniciar o processo de implantar o ensino integral. Em abril de 2015, houve o processo de adesão da escola ao Programa. Para isso, foi preciso enviar documentos e informações sobre a estrutura do prédio, que é o principal critério avaliado pela equipe da Secretaria de Educação do Estado de São Paulo.

Entre outras etapas rigorosamente cumpridas, aprovação da proposta pelo Conselho da Escola foi também vencida graças ao envolvimento de toda a comunidade escolar: alunos, pais, professores, gestores e funcionários visitaram e conheceram escolas de ensino integral da rede estadual de ensino já instaladas em Jaguariúna (Escola Estadual Professor Celso Henrique Tozzi) e Campinas (Escola Estadual Vitor Meireles).

“Reunimos vários representantes da nossa comunidade escolar em uma van e fomos conhecer duas unidades que já possuem o ensino integral há anos. Ficamos encantados com a receptividade da equipe gestora, professores e alunos, que nos apresentaram a escola, e com toda a estrutura do ensino integral”, contou Monica Vidal.

Nas duas unidades, os visitantes ouviram uma observação compartilhada pelas participantes: o Programa é ótimo, mas é muito trabalhoso. Com todos tendo clareza das vantagens e dificuldades, o desafio da escola integral foi aprovado democraticamente por todos os membros em votação do Conselho da Escola.

Vantagens x dificuldades

Com aulas de ensino integral acontecendo desde janeiro, a Jamil Gadia já recebeu apostilas para os alunos, material didático, cadernos orientadores, armários para cada um dos alunos, mobiliário para a sala de leitura, e o kit de robótica que deve ser trabalhado a partir do segundo semestre.

Mas a escola aguarda ainda materiais para os dois laboratórios (física/matemática, e biologia/ física) e investimentos para que a infraestrutura da escola esteja apropriada para o desenvolvimento do ensino integral. “Lidamos da melhor maneira que conseguimos com a situação que temos hoje e temos consciência de que todo esse processo de transformação da escola não é rápido”, explicou a vice-diretora, Patrícia Zanotti Castello

Por outro lado, há também a seleção e formação dos professores para que atuem no Programa de Ensino Integral com comprometimento e dedicação. “Para participar, os professores passam por uma fase de credenciamento, com avaliações e entrevistas individuais. O professor tem que querer estar aqui”, disse Monica Vidal.

O processo de seleção dos professores que tiveram interesse em atuar em escolas de ensino integral para este ano letivo, começou em setembro de 2015. Após todo o processo, foi feita uma classificação geral e a partir daí cada profissional selecionado escolheu a unidade em que gostaria de atuar. Isso aconteceu com toda a equipe escolar.

Dessa maneira, os educadores são designados para a escola de ensino integral de sua escolha, e seus cargos permanecem em unidades que não possuem o Programa. “Isso garante que os profissionais se comprometam com seu trabalho, já que caso os resultados não sejam satisfatórios, o profissional pode voltar para sua escola de origem”, afirmou a diretora.

“Aqui é trabalhado um objetivo comum: o sucesso de um é o sucesso de todos, e se alguém do grupo estiver destoando, ele pode ser desligado, são cobrados resultados individuais semestralmente, com uma avaliação, 360°, todos passam por avaliação, e onde alunos tem direito a voz”, afirmou Monica Vidal. Com isso, hoje a escola tem um quadro de professores completamente diferente de dois anos atrás. São 21 professores, dos quais apenas cinco eram professores da escola.

Plano de avaliação

Além das avaliações institucionais já estabelecidas na rede estadual de ensino, como o Sistema de Avaliação de Rendimento Escolar do Estado de São Paulo (Saresp), outra diferenciação da escola de ensino integral é quanto ao plano de ação com metas definidas, que é estipulado pela Secretaria de Educação, mas que pode ser incrementado pela equipe escolar.

Nas escolas onde o Programa é implantado, há algumas condições que precisam ser perseguidas pela equipe de educadores. Há a cobrança para que a escola não perca alunos, para que cada estudante esteja em sua série esperada (evitar a distorção idade/série), ano máximo que o aluno saia (idade certa em seu ano), ter o mínimo de faltas e, preferencialmente, ter como resultado no Saresp as metas ultrapassadas.

Readequações

Como todo o trabalho na escola de ensino integral é recente, a equipe pedagógica está em constante revisão e alinhamento das ações em prática. Assim, o que não dá certo é revisto para que não se perca o foco nos resultados. Para o cumprimento e planejamento das atividades, cada membro da escola possui sua própria agenda, inclusive os alunos, onde estão as ações que cada um deve cumprir para que todo o projeto avance como o esperado.

A aluna do 7º ano do ensino fundamental, Paloma Silva da Cunha, 12 anos, sentiu o peso da responsabilidade de se programar para acompanhar o ensino integral. “Com a mudança, senti que o nível da educação na escola aumentou e a gente tem que acompanhar e conciliar os horários de aulas, lições, provas e estudo em casa, para que tudo seja feito na hora certa”, enumerou.

Para Paloma, o ensino integral também trouxe mais proximidade e abertura na relação entre aluno e professor. “Os professores nos ajudam muito. Temos a liberdade de tirar dúvidas não só em sala de aula, mas durante os intervalos, porque eles estão sempre dispostos a nos ajudar. Também gosto do jeito que as carteiras são dispostas em sala de aula, porque ficamos mais próximos e mais tempo com nossos amigos. Por tudo isso, a escola é mais divertida, e as professoras acabam conseguindo fazer com que as aulas sejam mais produtivas. Com isso, a escola está melhorando e os alunos acompanham o ritmo de ensino aprendendo mais em menos tempo”, avaliou.

A fala da aluna está alinhada à opinião dos docentes da EE Jamil Gadia. De acordo com a professora de português, Márcia Sedano Fernandes, o ensino integral permite que as disciplinas sejam melhor trabalhadas e o rendimento em sala de aula é maior.

“No início não sabíamos como trabalhar, mas fomos orientados de como o processo acontecia e vejo que hoje ser professor de tempo integral é participar melhor dos conteúdos propostos pela Secretaria da Educação. Sinto que nossos alunos aprendem mais, de maneira mais abrangente e rica. E com isso, o professor também aprende muito, porque tem que estudar para montar sua proposta de ensino”, explicou a professora.

Ações diferenciadas

A escola de ensino integral também propõe ações que são complementares ao conteúdo proposto pela base curricular e, assim, oferecem um conhecimento mais amplo e diverso do que tradicionalmente é ensinado em sala de aula.

A programação de aulas para todos os anos é sempre mista, com disciplinas obrigatórias e teóricas alternadas com as demais atividades práticas propostas pela unidade. Dessa forma, o trabalho dos professores com os alunos tem mostrado o quão importante é a parte diversificada para complementarem o ensino dos componentes curriculares como matemática e português, ao que estavam acostumados até o ano passado.

Uma das ações diferenciadas é o Clube Juvenil, onde os alunos organizam atividades propostas por eles para ensinar os demais. Ao todo, a Jamil Gadia tem hoje 16 clubes sendo desenvolvidos com alunos de anos mistos, com temas que vão desde hip – hop, xadrez, até culinária.

Enquanto as Aulas de Trabalho Pedagógico Coletivo (ATPCs) acontecem entre os professores, os Clubes são desenvolvidos em diversos espaços da escola. Para os alunos de ensino fundamental, as aulas do Clube acontecem uma vez por semana e para o ensino médio, são duas semanais. “Com relação ao Clube, já percebemos que os alunos se comprometeram e tem uma responsabilidade grande com as aulas que eles preparam e planejam. Eles demonstram uma preocupação para que dê certo e assim acabam também valorizando o papel do professor”, explicou Patricia Castello.

No momento em que a equipe gestora da escola explicava sobre este Projeto, a aluna e vice-presidente do Clube Master Chef Jamil, Laura Eloisa Santos, do 8º ano, entrou na sala e, orgulhosa, ofereceu para as gestoras um pedaço de bolo de milho cremoso feito pelo seu grupo no dia anterior.

“Sempre damos uma aula teórica e depois a prática, então primeiro apresentamos a história do milho e depois, fizemos a receita, onde todos os membros ajudaram, desde a preparação dos ingredientes até a limpeza da cozinha”, explicou Laura.

Ao fim de cada aula do Clube Juvenil, os responsáveis devem fazer relatórios. Os Clubes têm a duração de um semestre e ao fim deste período, cada grupo deve apresentar os resultados obtidos em forma de projeto. No início do próximo semestre, novos Clubes são montados com novos presidentes e vice-presidentes. “Está sendo superbacana ver mudança de postura dos alunos. Não esperávamos um resultado tão rápido”, comemorou Patricia Castello.

Tutoria

Com a chegada do ensino integral na EE Jamil Gadia, a mediação de conflitos na escola passou a ter uma ação especial, com a criação da Tutoria. Nesta ação, cada aluno escolhe seu tutor, que pode ser um professor ou gestor. São os tutores que conversam, pelo menos duas vezes ao mês, com seu aluno sobre variados assuntos referentes à escola, como problemas, sua evolução em sala de aula, notas, comportamento. Somente se o tutor não conseguir alinhar e solucionar determinada questão com o aluno, o professor mediador é acionado.

Por meio dos tutores, são detectados também problemas familiares, e o trabalho dos profissionais é ser uma referência para os alunos e fazer com que reflitam sobre as decisões que serão tomadas por eles.

“É muito bom conversar com o tutor. Pode-se falar sobre qualquer coisa, que ele não vai contar nada para ninguém. Temos privacidade com ele e acabamos virando amigos”, disse Paloma Cunha, demonstrando a relação de confiança com seu tutor.

Disciplinas eletivas

O ensino integral permitiu ainda que a Jamil Gadia criasse disciplinas eletivas, que foram elaboradas a partir de atividades dinâmicas com os alunos, quando uma equipe da E.E Carlos Gomes esteve na escola para fazer a acolhida da comunidade escolar ao Programa de Ensino Integral.

“Foram feitas atividades para que os alunos traçassem seus projetos de vida, como a Escalada dos Sonhos, onde os alunos colocaram quais seus desejos futuros e assim cada um montou seu projeto de vida. Isso gerou uma apostila individual denominada Quem Sou Eu, onde estão registrados os sonhos, qualidades e o que é preciso para superar os defeitos de cada um, de acordo com a opinião dos próprios alunos, além das principais fases de sua vida e os momentos mais marcantes. A partir daí a equipe escolar fez o levantamento dos projetos de cada aluno e elaboraram as disciplinas eletivas”, explicou a professora coordenadora, Juliana Pimentel Juliani Castilho.

Atualmente, a escola possui onze disciplinas eletivas, sendo oito para o ensino fundamental e três para o ensino médio. Essas disciplinas têm duração de um semestre, com duas aulas semanais e são ministradas por dois professores de disciplinas diferentes e turmas mistas, onde cada aluno escolhe sua eletiva, de acordo com seu interesse.

“É muito bacana ver que vários alunos já pensam na carreira profissional desde o ensino fundamental. No ensino médio, o objetivo de ingressar em uma faculdade é mais definido”, comentou Patrícia Castello, que explicou que o objetivo de todo esse trabalho cuidadoso e minucioso da equipe escolar – que está vinculado aos componentes curriculares – é uma ferramenta que reforça a ideia do que o aluno deve fazer para alcançar seu sonho de vida, e ajuda a compreender qual o melhor caminho para que cada um alcance seus objetivos.

Segundo a vice-diretora Patricia Castello, os profissionais da escola têm estudado e pesquisado para orientar os alunos em seus projetos de vida.

Fortalezas x desafios

Questionada sobre as principais características da escola, a vice-diretora aponta o protagonismo do aluno e a consciência que está sendo formada. “É ele quem faz a escola e ajuda a torná-la um lugar confortável. Além disso, o relacionamento de professores e alunos avançou muito, e já é possível perceber o respeito e a valorização que um tem pelo outro. A gente vê que o envolvimento e a vontade de todos de querer que o programa dê certo é enorme”, disse.

A professora coordenadora geral frisa ainda que o ensino integral tem gerado muitos aprendizados para toda a comunidade escolar e que há um fortalecimento do trabalho da equipe. “Vejo também uma mudança de postura de funcionários que eram resistentes em algumas questões, mas agora estão prontos para ajudar”, disse.

Lisboa Salvador Catello, funcionária há 24 anos na EE Jamil Gadia, se enche de entusiasmo ao falar de sua trajetória na unidade. “Essa escola é maravilhosa e já me ofereceu muitas alegrias, tristezas e momentos inesquecíveis de aprendizado. A implantação do ensino integral está muito bem organizada e a unidade está preparada para que os objetivos propostos sejam atingidos. A gente trabalha e se dedica muito, é bom porque no fim, todos juntos conseguem resultados positivos”, disse.

Mas muitos desafios ainda precisam ser encarados diariamente, como a adequação aos horários e gestão de tempo. “Queremos fazer com que dê certo logo, mas as coisas têm o seu tempo, e precisamos segurar a ansiedade em colocar todas as ações do ensino integral propostos pelo Programa em prática com a estrutura atual”, avaliou Patricia Castello.

Entre acertos e dificuldades, a EE Jamil Gadia se transforma e aponta para um futuro promissor e de sucesso.

Saiba mais sobre o Programa de Ensino Integral, da Secretaria da Educação do Estado de São Paulo: http://www.educacao.sp.gov.br/escola-tempo-integral

Gráfico jamil gadia