Educadora mostra que lecionar não é só dar aulas

Educadora mostra que lecionar não é só dar aulas

Daniela Jacinto

Quando, no início de carreira, ela se deparou com a desvalorização da profissão, “que ganha menos que um profissional cuja formação é só o ensino médio” – disse – , ela chegou a desistir. Parou de dar aulas por um tempo, até entender que seu lugar era ali, independente do quanto seria remunerada. Assumiu seu papel de professora, munindo-se de força de vontade, a principal ferramenta que viria a usar em diante. Caminhando para os 30 anos de magistério, a professora Jane Freire de Almeida já passou pelas mais variadas etapas da educação infantil, desde o maternal até o 5º ano do ensino fundamental. Atualmente leciona em uma escola municipal no período diurno e em uma estadual durante a tarde. Outro dia, fazendo uma limpeza em seus dois armários, que acumulam papéis desde o início de carreira, Jane se deparou com uma porção de desenhos e bilhetes de alunos e como que num “flash”, lhe voltaram à memória todos os momentos ali registrados, que também traduzem como é a vida na educação pública.

Entre as histórias que lhe voltaram à mente está a de uma criança que deixou com Jane um texto, como rascunho para transcrever no cartão do Dia dos Pais: “Pai… Você sabe o que é demais??? Demais é eu saber que você não me ama.

Demais é eu saber que você é meu pai. Demais é quando eu acho que tem possibilidade de você voltar sem o vício.
Demais é amar e não ser amada!!! Pai volta para mim sem a droga… Pois fique sabendo que eu tenho coração e você não, ouve Deus e volta para o seu lar. Pai, volta por favor”.

O bilhete, conta Jane, foi desenhado com corações e uma carinha triste. “Lembro-me do quanto conversei com a criança, que tinha 9 anos na época. Era uma boa aluna e não foi encaminhada ao psicólogo (a fila é grande e alunos em piores condições não são atendidos). Mais uma vez me peguei no deserto da educação, numa quixotesca luta que participo todos os dias, onde vejo representados todos os problemas sociais”, disse. Ainda conforme Jane, naquele momento veio a lembrança um poema de Drummond: “Tenho apenas duas mãos/e o sentimento do mundo/(…) /Os camaradas não disseram/que havia uma guerra”.

Essa guerra é enfrentada não apenas por Jane, mas por um exército de professores que acreditam que lecionar não é só dar aula. É olhar para o aluno que está ali em sua frente, perceber suas necessidades sociais e psicológicas, não apenas as educacionais. Mesmo porque para conseguir aprender, ele precisa que sejam primeiro resolvidas algumas outras questões, acredita Jane. Então além de fazer o planejamento das aulas e enfrentar a burocracia diária da escola, o professor ainda se depara com situações que o mobilizam a dar alguns passos extras, que não têm nada a ver com os conteúdos, mas que podem ajudar sobremaneira no aprendizado de seu aluno posteriormente. São docentes que se reúnem para arrecadar dinheiro para enviar cestas básicas às famílias dos estudantes, se organizam para ajudar em uma cirurgia, para matricular um estudante em um curso de música… São pessoas que sempre conversam com seus alunos e buscam estar por perto, como uma referência mesmo.

Professor pode marcar vida de aluno para sempre

A professora Jane Freire conta que ainda era estudante do magistério quando começou a assumir salas de aula. O primeiro caso que a impressionou foi de um aluno com 10 anos, usuário de drogas. “Eu trabalhava numa escola do bairro Nova Esperança e esse menino cheirava cola, usava outras drogas também e chegava transtornado na sala”, afirma. Jane se preocupava com ele e a irmã, de 9 anos, pois já participavam de pequenos roubos. “A menina colocava droga em seu brinquedo, um carrinho de bonecas, para transportar para os traficantes. Foi muito trágica a história dela. Com uns 11, 12 anos, já era “namorada” de traficante e foi assassinada com 13 anos”, lembra, emocionada, a professora, que desde o início de carreira tomou por hábito acompanhar a vida de seus alunos.

A história desses irmãos marcou muito para Jane. Ela recorda que depois da morte da menina, o irmão da garota tentou se vingar. Entre muitos momentos que esse ex-aluno teve, uma das últimas notícias que a professora soube dele é que tinha matado um taxista e acabou sendo preso. “Essas crianças são assediadas pelo crime. Elas vivem em situação de risco social. Existem alguns encaminhamentos feitos pelas escolas, direcionados a instituições, mas são demorados. Quando a criança é atendida, já é tarde demais e dificilmente se consegue resgatar quando ocorre a intervenção”, diz a professora.

Dez anos depois, Jane conta que começou a dar aulas para o irmão mais novo do aluno que tinha sido preso. Esse irmão mais novo tinha problemas de saúde e aguardava há anos em uma fila para poder operar. Jane e outras professoras conseguiram a operação desse menino em três meses. Elas fizeram campanha para ajudar, que acabou envolvendo duas escolas. Compraram roupas, frutas e uma mala para ele levar ao hospital. “Antes de dar aula pela manhã eu e outra professora fomos na favela, fizemos a internação dele para depois voltar à escola”.

Um dia, em uma das visitas ao aluno em recuperação, ela reencontrou o ex-aluno, que tinha sido solto da prisão. Descobriu que suas aulas tinham marcado a vida dele, mesmo envolvido com tantos problemas. Ele mostrou para Jane que, quando ainda era pequeno, tinha gravado o nome dela na cabeceira de sua cama e mantinha até os dias atuais.
Já o irmão mais novo, diante da gratidão por ter conseguido ser operado, e por ver o esforço e o carinho das professoras, sem qualquer pessoa pedir, fez a elas a promessa de nunca se envolver com drogas. Começou a aprender música na própria escola, e se identificou com o violoncelo.

Estudantes precisam de um olhar humanizado

Um outro momento que Jane recorda é de uma aluna que sempre o irmão ia buscar. Jane reparou que o garoto tratava a pequena com muito carinho e admiração. Ficou impressionada de ver como era tão dedicado à irmã. Curiosa, começou a perceber que o irmão vivia fazendo perguntas à menina sobre a escola. Um dia Jane perguntou a ele em que série estava e onde estudava e então veio a surpresa: não estudava em lugar algum, simplesmente porque nem tinha certidão de nascimento.

Novamente foi iniciada mais uma mobilização de professores, para que o menino pudesse estudar. “Ele morria de vontade de ir à escola, como as outras crianças”, conta Jane. Foi uma correria para providenciar documentos, pois o menino tinha nascido em outra cidade e a família, sem condições financeiras, teria de viajar até o local para resolver a situação. Foi uma luta, mas com tudo resolvido, finalmente ele foi matriculado, com 11 anos, na primeira série. “A vontade de estudar era tão grande que em dois meses ele já escrevia em letra cursiva”, observa Jane.

As professoras, penalizadas com a situação, pensaram no quanto esse menino havia perdido e sido prejudicado – não apenas com relação aos conteúdos curriculares, que ele já estava recuperando, mas à socialização, aos passeios em grupo… Por isso sempre que tinha alguma viagem da escola, elas ajudavam. “Cada vez que tem passeios você não consegue deixar as crianças para trás”, conta Jane. As professoras também passaram a auxiliar a família desse aluno doando cesta básica. “Até mesmo para fazer a inscrição na escola e começar a estudar ele teve dificuldade. A escola disse que tinha uma taxa, e como a família do menino não tinha aquele valor, a secretaria simplesmente não fez a matrícula. Quando soubemos disso, fizemos vaquinha, senão a escola não faria nada, não tem uma assistente social e nem ninguém que possa resolver”.

Mais uma etapa vencida e assim a vida foi seguindo. Lá um belo dia, andando pela sala de aula, Jane observou que um aluno de 9 anos, que era um tanto quieto, estava desenhando. Foi ver o que era e acabou se deparando com imagens que considera um tanto enigmáticas: demônio, faca, serpente e órgãos genitais que ele rabiscou por cima. Preocupada, a professora perguntou um pouco mais sobre sua vida e o menino contou que dormia na sala com um senhor que dizia ser o rei Salomão, mas na verdade se tratava de Jesus reencarnado. “Esse senhor levava e buscava o menino na escola, não desgrudava dele”, lembra. A professora chegou a falar com a mãe do garoto, que confirmou ser Jesus reencarnado. Depois disso, a criança não apareceu mais na escola.

Recentemente, ficou sabendo que um de seus alunos ficou perdido na mendicância. “Ele era agressivo, usava drogas e acabou tomando uma surra. Está moído agora, com válvula na cabeça, chegou perto da morte. Eu fico me perguntando até quando tudo isso? Até quando a escola ficará sem assistentes sociais, sem psicólogos? E os bairros sem área de lazer? Até quando?”.

A professora lamenta que haja tantos índices medindo o aprendizado dos alunos sem levar em conta todo o contexto social em que vivem. “Esses índices não levam em conta todos esses problemas que eles passam. Essas crianças precisam de apoio, de atendimento especial. Quando me deparei com esses bilhetes todos, essas histórias voltaram à minha cabeça”. Para Jane, é preciso fazer algo para que todos recebam assistência e não apenas aqueles que contam com um olhar mais humano de seus professores.

Fonte: Cruzeiro do Sul