Educação vem de berço?

Educação vem de berço?

O ano letivo terminou e a maioria dos pais já fez sua escolha para o próximo ano: este é um bom período para pensarmos sobre a escola, porque as famílias estão livres dessas pressões.

Se olharmos as notícias que envolveram a instituição escolar –da educação infantil à universidade–, constatamos que parece não fazer parte do papel da escola o ensino da convivência, de algumas virtudes, do trabalho em equipe, da cooperação, da autonomia, do relacionamento democrático etc. Não: a escola não tem tempo a perder com esse tipo de ensinamento, porque ainda acredita que seu papel primordial é transmitir conhecimento.

Ocorre que onde há agrupamentos de mais novos, crianças ou jovens, há turbulências. Quem não sabe disso? Mas a escola quer que o estudante chegue a ela com educação vinda de berço. Por isso, sempre que algo indesejável acontece, a escola costuma responsabilizar os próprios alunos ou as suas famílias.

Hoje, é só em casa que podemos ser nós mesmos: podemos nos comportar sem julgamento algum porque estamos protegidos das vistas dos outros, não é? É em casa, portanto, que colocamos qualquer tipo de roupa, que usamos palavras e expressões que, em público, jamais usaríamos, que comemos como e onde queremos, que nos comportamos sem restrições.

Ter essa fortaleza, que é nossa casa, é absolutamente necessário para a manutenção de nossa saúde mental. Como os filhos observam tudo, eles aprendem também o que os pais não planejavam ensinar.

“Educação de berço” é o processo de socialização primária, como chamam os estudiosos: ensinar a criança a falar, a conviver, a se alimentar em companhia de outros, a vestir-se adequadamente, a respeitar regras em jogos, a cuidar dos mais novos e dos mais velhos etc.

Além desse processo, cabe à família também ensinar as virtudes e a moral que escolheu para seu grupo, e todo esse aprendizado da criança é aquecido pela afetividade, o eixo da educação familiar.

Quando ela vai para a escola, precisa passar pelo processo da socialização secundária, que em geral já foi iniciado pela família, mas será efetivado mesmo é na escola: aprender a conviver em grupo –e a resistir ao grupo quando for preciso– e em espaços públicos, onde as relações são impessoais.

Cabe à escola esse papel. Toda vez que uma criança ou um grupo delas, reunido em função da escola, se comporta de modo não civilizado, a responsabilidade é da instituição, principalmente.

Mas não é a família que educa os filhos para que eles respeitem os outros, não ajam de maneiras agressivas e preconceituosas, para conviver com diferenças de todo tipo?

Sim, em teoria e em grupos com relação afetiva. Em sociedade, o papel fundamental para esse ensino é da escola. Afinal, aprender a respeitar a irmã é mais fácil de entender, mas respeitar um(a) colega ou desconhecido é outra história.

Já passou da hora de a nossa sociedade exigir que a escola honre esse seu papel social. Por isso, caro leitor, antes de encaminhar seu filho a um atendimento especializado por ele ser agressivo ou desrespeitoso com colegas, pergunte à instituição qual é o projeto dela para ensinar os alunos, na prática, a boa convivência, as virtudes, o respeito às diferenças e as relações justas e solidárias, por exemplo.

Fonte: Folha da São Paulo