Ecobrinquedoteca ensina o brincar consciente

Ecobrinquedoteca ensina o brincar consciente

Claudia Corbett

Eco brinquedos não são feitos apenas de sucatas ou materiais recicláveis. Eles carregam enfoques cognitivos, afetivos e estéticos. E ainda conscientizam sobre a reutilização do que já existe. São feitos para um dia voltarem a ser reciclados.

Esta é a proposta da Ecobrinquedoteca do Parque Estadual Ecológico Monsenhor Emílio José Salim, localizada em Campinas/SP, e referência no Brasil. Coordenada pela professora Tereza Miriam Nunes (Zamira) e pela educadora Emile Miachon, a Ecobrinquedoteca une, desde 2006, o lúdico à educação ambiental e oferece formação para ecobrinquedistas e vivências abertas para pessoas de diversas áreas de atuação e idades.

O trabalho educativo distinto inclui as diferenças e revela aspectos de várias culturas, valorizando a história e a formação do ser humano em sua totalidade: razão, emoção, sentimento e intuição.

A Ecobrinquedoteca é um local de recreação preparado para o brincar com foco no desenvolvimento do indivíduo, mas segue além de um simples espaço de brinquedo. É estruturado para estimular também a sociabilidade e o senso de responsabilidade.

“É um espaço de liberdade onde cada um confecciona o brinquedo que lhe é útil”, exemplificou Zamira. Nele busca-se agregar o conceito da sustentabilidade E possibilitar o estímulo de valores importantes para a formação do cidadão, por intermédio da brincadeira.

“Esse trabalho é fruto da minha prática em sala de aula. As crianças reutilizavam sucata para criarem seus brinquedos. Isso dá autonomia e ainda a possibilidade de recriar e despertar o poder criativo que está encaixotado. Hoje compra-se tudo pronto”, constatou Zamira.

De acordo com Alessandra Fiorini, assessora técnica do Departamento de Educação da FEAC, a possibilidade de imaginar, criar, construir e reconstruir, é também reconhecer na infância sua especificidade. “Quando a criança experimenta a cultura, a arte e a história livremente, como protagonista, ela não apenas tem condições de exercer plenamente sua cidadania, mas de desenvolver-se de fato amplamente e em todas as esferas: afetiva, cognitiva e social”, concluiu.

A transformação dos resíduos é vivenciada por meio da construção dos brinquedos e também na ação do brincar com os jogos feitos com materiais diversos. Isso estimula o autoconhecimento e a capacidade de adaptação e desenvolve ainda a concentração, a atenção e a criatividade.

Segundo Zamira, a ideia é mudar o cenário atual. “Há muitos adultos que não conseguem enxergar possibilidades de transformação em um material reciclado. Eles não têm a inventividade e a transposição das coisas”, desabafou.

Na Ecobriquedoteca do Parque existem mais de 100 jogos. “Não inventamos. Pegamos os que já foram criados e testados e recriamos reutilizando materiais reciclados. Durante a concepção, cada um faz a adaptação de acordo com a sua necessidade. Temos até uma caixa com jogos para pessoas com deficiência visual”, complementou.

Formações

Semestralmente, a Ecobriquedoteca de Campinas realiza formações de ecobrinquedistas. Este curso é voltado para pessoas que têm perfil criativo e gostam de brincar. Os ecobrinquedistas possuem um papel fundamental na geração de estímulos que irão impactar na vivência da criança nesta atividade. São os responsáveis por tornar essa experiência positiva e engrandecedora.

Já as vivências intergeracionais são realizadas uma vez por semana. A diversidade das idades deixa a atividade dinâmica. Adolescentes jogam com idosos, crianças brincam com adultos. Aberta ao público, a atividade recebe pessoas de diferentes áreas de atuação, em um espaço amplo, localizado no Parque Ecológico em Campinas.

Em 2016, uma oficina na Ecobrinquedoteca fez parte da programação da Semana da Educação de Campinas, promovida pelo Departamento de Educação da Fundação FEAC, no âmbito do Compromisso Campinas pela Educação (CCE).

Ketty Nicolini Silva, orientadora pedagógica da Creche Mãe Cristina, entidade parceira da Fundação FEAC, desde então, frequenta as vivências semanalmente, às quartas-feiras. “Tudo que aprendo replico para as educadoras. Na instituição também trabalhamos com os brinquedos não estruturados, aqueles que a própria sucata desperta o faz de conta. Nestas vivências não só construímos os jogos, também brincamos com eles. Para ensinar é preciso aprender as regras” exaltou.

A Ecobrinquedoteca tem jogos para todas as idades. Alguns buscam apurar o conhecimento lógico matemático e outros estimulam a criatividade. As sucatas também são utilizadas para a elaboração de instrumentos musicais, casinhas, fantoches, mobiles, entre outros.

Corrida de Cavalo é um exemplo de jogo cooperativo. É feito de cartela de ovos, tinta e tampinha de refrigerante. Não competitivo, tem como objetivo ensinar cor e contagem com regras simples.

“Aprendi, nestes encontros, o significado de obsolescência programada. Estamos em uma sociedade de consumo absurdo. Tudo que é feito pela indústria já tem tempo previsto para acabar. Os produtos são transitórios, acabam muito fácil”, comentou a orientadora pedagógica. O encontro enfatiza a necessidade da reutilização de materiais e a conscientização sobre o descarte de lixo.

Lixo que vira brinquedo

A reutilização de materiais que seriam descartados como lixo, destaca temas como resíduos sólidos, consumo consciente e sustentabilidade. E ainda trazem de volta a valorização das brincadeiras tradicionais. Tampinhas de garrafa viram jogo de dama. Um quadrado de papelão e rolhas podem ser transformados em um jogo de xadrez.
Potes de plásticos com variados tamanhos com tampas e uma prancha despertam a coordenação motora.

“Utilizamos esse eco brinquedo para atividades com os bebês do nosso berçário. Eles aprendem cores, formas, tamanhos e a encaixar as tampas”, complementou a orientadora da Creche Mãe Cristina.

A criação de eco brinquedos e eco jogos possibilita a reflexão e prática ligadas ao consumo consciente: repensar, reutilizar, reparar, reciclar e repassar.

Saiba Mais: http://ecobrinquedoteca.blogspot.com.br/