Dislexia precisa de compreensão em sala de aula

Adriana Czelusniak

Após dois anos de compreensão e carinho, o pequeno Cristian, disléxico, começou a sofrer na escola. A professora do terceiro ano do ensino fundamental, ao contrário do que faziam as outras educadoras, começou a exigir que ele escrevesse certo. “A professora chamava a minha atenção a cada cinco minutos”, conta, “parece que ela esperava sempre a perfeição que eu não conseguia apresentar”. Cristian começou a ficar triste e não tinha mais vontade de ir para a escola.

Hoje, tudo isso passou. Agora Cristian é formado em Engenharia da Computação, trabalha em uma empresa multinacional e está terminando o mestrado em Inteligência Artificial. Tudo graças a professores pacientes e compreensivos, que souberam trabalhar com suas limitações e apostar no que ele podia fazer.

A dislexia é a realidade de cerca de 12% das crianças, uma condição neurobiológica que afeta a aprendizagem da leitura e da escrita. Além de terem dificuldade em decodificar e soletrar as palavras, pessoas com dislexia têm afetadas as capacidades de concentração e de memória. A causa da dislexia ainda é um mistério, mas se sabe que parte dela é genética – Cristian tem dois filhos disléxicos. Identificada a tempo e com acompanhamento de especialistas seus efeitos negativos podem ser minimizados.

“É importante que a dislexia seja diagnosticada o mais rápido possível, antes da fase de alfabetização”, explica a psicopedagoga e especialista em educação especial e em gestão escolar Ana Regina Caminha Braga. Depois disso, o aluno necessita de compreensão e de ajuda multidisciplinar. “Cada criança requer um projeto de intervenção personalizado, voltado às questões fonológicas, nas quais podem ser utilizadas atividades com foco na rima, segmento da fala e a relação entre letra e som.”
Reclamações da escola

Há cinco anos, Erick, hoje com 12 anos, trazia da escola muitos bilhetes de professores: eram reclamações sobre a falta de atenção do menino em sala de aula, as lições inacabadas e a dificuldade de compreensão de exercícios. A mãe, Danielle de Oliveira Lima, buscou uma neuropediatra e, depois de vários exames, foram diagnosticados dislexia e transtorno de déficit de atenção e hiperatividade (TDAH).

Nos últimos anos, além de ter sido acompanhado por psicóloga, fonoaudióloga e psicopedagoga, Erick passou a tomar o medicamento ritalina e teve diversas adaptações na sala de aula na rede municipal até o ano passado. Agora, no 6º ano no Colégio Estadual João Paulo I, a adaptação depende da boa vontade dos professores.

“É sempre um recomeço. Ele frequenta a sala de recursos multifuncionais, mas até agora não tem provas diferenciadas e alguns professores ajudam, outros pegam no pé. Até os bilhetes com reclamações voltei a receber. Dizem que ele não consegue copiar do quadro, que não presta atenção, que não faz direito a lição, mas a escola sabe que ele tem essas dificuldades, e ele está cada vez mais desmotivado, se achando menos inteligente que os colegas”, conta a mãe Danielle. Erick havia interrompido a medicação por que estava tendo muitas dores de cabeça, mas a mãe conta que terá de voltar a medicá-lo, diante das reclamações da escola.
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Essa equipe multidisciplinar precisa contar fonoaudiólogos, neurologistas, psicopedagogos e pedagogos. E o apoio da escola, como lembra a psicopedagoga Stella Maris. “Se a escola não adapta a metodologia, a criança com dislexia vai ter dificuldade para aprender. Algumas escolas têm alguém que lê para a criança no dia a dia ou nas avaliações, ou permite mecanismos para que ela consiga estudar, gravando conteúdos ou assistindo vídeos”, afirma Stella.

Mais do que um encaminhamento clínico, uma criança com essa necessidade educacional especial tem de ser acolhida. Família e escola precisam estar atentos à autoestima do aluno, e evitar comparações com outras crianças. “É fundamental o envolvimento da escola, família e profissionais de saúde, fazendo com que a criança descubra suas habilidades resgatando a autoconfiança e autonomia, e para isso é preciso que a equipe esteja disposta a criar também formas diferenciadas e adaptadas para essa criança aprender e ser avaliada”, comenta a psicóloga Elaine Cristina Silveira.

Será dislexia?

Fique atento a sinais que podem indicar a necessidade de uma consulta com especialistas:

1) Memória imediata prejudicada, falta de concentração e dificuldades em decorar tabuadas e aprender outro idioma.

2) Atraso no desenvolvimento da fala e dificuldade em decorar informações e aprender rimas e canções.

3) Coordenação motora prejudicada, comportamento que lembra depressão ou timidez excessiva.

4) Falta de interesse por livros, dificuldade em absorver informações que são lidas.

5) Confusão com conceitos de esquerda e direita, dificuldade em copiar do quadro e de outros materiais.

6) Troca de letras, dificuldade em escrita e em exercícios de matemática e desenho geométrico.

7) Falta de autonomia e de iniciativa.

Fonte: Associação Brasileira de Dislexia (ABD) e especialistas entrevistados.

Fonte e imagem: Gazeta do Povo