Bullying na internet: do ambiente virtual para a sala de aula

Bullying na internet: do ambiente virtual para a sala de aula

Eric Zambon

No fim dos anos 1970, a banda inglesa Pink Floyd estourou nas paradas mundiais com a canção “Another Brick In The Wall Part II”, uma crítica ao sistema educacional britânico. Uma das frases mais marcantes, entoada por estudantes, é: “Teachers leave them kids alone!” (Professores, deixem as crianças em paz!, em tradução literal).

Mais de 30 anos depois, uma pesquisa do Portal Educacional, intitulada Este Jovem Brasileiro 2014, aponta que os mestres – e os pais – devem contrariar o rock inglês e, cada vez mais, participar do cotidiano dos estudantes. Segundo o estudo, 73% dos professores já detectaram problemas entre seus alunos devido a conflitos online e 64% já notaram bullying virtual entre os dicentes.

Segundo o grupo autor do material, mais de quatro mil alunos, de 36 escolas particulares de 13 estados e o Distrito Federal participaram do projeto, que também envolveu cerca de 300 pais e 60 professores.

Hostilidade

Os amigos Bruno Gibim, 17 anos, e Jonatas Ferreira, 15, curso 2º ano do Ensino Médio e garantem que ofensas trocadas entre colegas são comuns. “Comentários maldosos são frequentes”, dizem, após revelarem que ambos já foram vítimas.

“Uma vez tentaram interferir na minha vida, algo que não admito. Falaram coisas pela internet que eu ignorei, mas meus pais viram e brigaram comigo, como se aquilo fosse verdade”, conta Bruno. “Estava em aula e fizeram uma montagem com fotos sobre mim. Procurei não dar importância”, acrescenta Jonatas.

Os jovens fazem parte de uma realidade preocupante, especialmente para os pais. Segundo a pesquisa, 23% dos estudantes da rede particular de ensino, a partir dos 13 anos, já sofreram insultos em ambiente virtual e 16% deles foram alvo de postagens preconceituosas. “Esses jovens reúnem elementos de dificuldades emocionais e familiares, questões de autoestima”, avalia Jairo Bouer, psiquiatra parceiro do estudo.

“Vimos que boa parte dos alunos já vacilaram e se expuseram a situações que poderiam ter trazido consequências às vezes até sérias para a sua vida”, completa Bouer. Parte desse risco pode ser maximizado pelo tempo que os jovens entrevistados passam “conectados”. Foi apontado que 95% dos estudantes acessam a internet todo dia ou quase todo dia.

“A Internet é fundamental na vida de todos, mas tem que ter atenção, precaução e cuidados. Para os jovens, pais e professores, vai ser

Professores atentos

De acordo com o psiquiatra Jairo Bouer, “os alunos tendem a apontar menos problemas que seus professores enxergam, talvez porque eles estejam mais atentos e mais próximos ao relacionamento desses adolescentes do que os pais. Estes, muitas vezes, só enxergam os seus recortes dentro de casa”, conclui. Vale lembrar que em setembro do ano passado, uma universitária de 19 anos de Goiânia teve um vídeo íntimo de 13 segundos divulgado pelo Whatsapp e passou a nem querer mais sair de casa. O episódio ficou conhecido como “Caso Fran”.

Participação dos pais é essencial

A contadora Simone Baltazar da Silveira, 42 anos, é uma mãe cuidadosa quando o assunto é a rotina do filho de 10 anos. Segundo ela, o garoto já acessa a internet pelo menos três vezes por semana, mas ela não permite muita independência ainda. “É tudo controlado por mim e pelo pai dele. Sempre sabemos que tipo de site ele vê, pelo histórico”, diz.

A mãe se mostra especialmente preocupada com conteúdos pornográficos que seu menino, porventura, possa vir a ter acesso, mesmo sem querer. “Às vezes, ele pode digitar alguma coisa errada e acabar vendo o que não deve. Tem que ser vigiado também para que não fique focado só nisso, como acontece com várias crianças”, afirma.

De acordo com ela, já houve problemas relativos a um suposto número para fazer trotes. Alguns colegas de seu filho passaram um telefone que, quando a criança ligava, atendia alguém perguntando informações pessoais e conversando com palavras de baixo calão. Bullying é outro assunto que a preocupa.

“Procuro conversar muito. Digo a ele que, quando escutar alguma coisa que não o agrade, ignore. Oriento para que ele saiba lidar e não entre em depressão ou deixe de ir a escola caso (alguma ofensa) aconteça”, explica.

Por ter apenas 10 anos, a criança ainda não tem celular, mas é na modernidade que mora o maior perigo. De acordo com o Este Jovem Brasileiro, 80% dos pais entrevistados admitiu não controlar a navegação dos filhos feita através de tablets ou smartphones. E dos 20% restantes, metade confessa que só o faz por razões econômicas, como o excesso de gastos com compras.

Reflexo

Evelyn Souza, 17 anos, cursa o 2º ano do Ensino Médio e diz já ter vivenciado situações em que discussões virtuais refletiram diretamente em sala de aula. “Xingaram a professora de Química pelo ‘Secret’ e ela chorou a aula inteira”, afirma.

Reflexo na sala de aula pode ser prejudicial

A coordenadora pedagógica do Marista de Taguatinga, Silvana Cardoso de Figueiredo Alves, afirma que já lidou com problemas entre seus estudantes, todos entre 12 e 15 anos. “São bem ativos na internet. Até sabem mais do que a gente”, brinca. “Dependendo do caso, acionamos os pais. Colocamos os alunos como vítimas para que percebam a gravidade dos feitos, e os professores ajudam muito, pois se preocupam com a parte emocional”, diz.

O professor da mesma instituição de ensino, Cleiton Vieira Santos, da disciplina de Ensino Religioso, acredita que seja uma questão de maturidade. “Visualizamos isso como o aluno não sabendo separar o ambiente virtual do presencial”, afirma.

“Muitas vezes o aluno não sabe lidar com nota baixa e isso faz uma represália. É uma questão de os pais também acompanharem e orientarem os filhos”, defende.

Nesse ponto, o estudo demonstra preocupação. “Embora a maioria dos professores considerem a Internet preocupante, 20% sentem os pais não preocupados com essa questão”, descreve o relatório.

Saiba mais

O aplicativo Secret, que permite a postagem e o compartilhamento de mensagens de forma anônima, não pode mais ser baixado da loja brasileira de aplicativos da Apple desde ontem. Apesar de o app continuar aparecendo nas buscas da App Store, ao tentar fazer o download, o usuário recebe uma mensagem que diz que “o item que você tentou comprar não está mais disponível”

A decisão é da Justiça do Espírito Santo que, em liminar, determinou a retirada do app das lojas oficiais. A Justiça acolhe o pedido do MP estadual que protocolou uma ação civil pública no último dia 15.

Números

Outros dados da pesquisam apontam que:

59% dos professores acham que os alunos não têm noção dos riscos a que estão expostos na Internet.

A grande maioria dos pais (86%) diz estar atenta ao uso que os filhos da Internet, e quase 98% dizem que conversam com os eles sobre as relações e os problemas que eventualmente eles podem ter. Do outro lado, 40% dos jovens dispensam uma conversa com os pais sobre segurança na Internet.

37% dos estudantes admitiram já terem sido ofensivos contra alguém pela internet.

Fonte: Jornal de Brasília