Após fim de contrato, gestão Alckmin recolhe impressoras de escolas

EMILIO SANT’ANNA
MARINA ESTARQUE

Sexta-feira (4) foi dia de correria para professores da rede estadual. O motivo: imprimir as atividades que precisam usar em sala de aula, pois a partir de segunda (7) boa parte das impressoras terá sido recolhida das escolas.

Um aviso eletrônico enviado aos gestores desde a semana passada alertava que os colégios podem ser multados caso utilizem os equipamentos depois desta sexta.

As impressoras não pertencem às escolas nem ao Estado. Foram colocadas há cinco anos nas unidades por contrato de outsourcing –que prevê o fornecimento dos equipamentos e insumos por empresa contratada em pregão.

O comunicado da gestão Geraldo Alckmin (PSDB) estabeleceu as diretrizes para recolher as impressoras, mas não indicou se as mesmas serão repostas ou como as escolas devem proceder sem elas.

Na falta da orientação, um equipamento que ficou muito tempo aposentado ganhou destaque na escola Evandro Cavalcanti Lins e Silva, no Jardim Castro Alves, zona sul.

Uma professora –que pede para não se identificar por temer represália– tem usado um mimeógrafo, desde 2015. “Antes era porque não havia toner. Agora porque não teremos mais duas impressoras.”

Segundo ela, sobrará ainda um equipamento antigo, comprado pela própria escola. Ele deve atender à demanda da secretaria do colégio. Será usado, por exemplo, para impressão de documentos.

A rede tem 4 milhões de estudantes em 5.300 escolas. Em média, cada uma delas ficará com 1,8 impressora após a retirada (leia abaixo).

Diretora da escola estadual Antônio Viana de Souza, em Guarulhos, Ozani Martiniano afirma que três equipamentos serão retirados do local. Restarão outros três.

“As que ficam são bem mais velhas, compramos com verbas do Programa Dinheiro Direto na Escola [do governo federal] e não conseguem suprir as necessidades”, diz ela, também diretora do sindicato da categoria. “Não é só aqui. Todas vão ter problemas.”

Na Padre Antônio Vieira, em Santana, na zona norte, os professores alteraram as atividades por falta de papel.

“Somos cobrados para dar aulas diversificadas, mas não temos como trazer material complementar”, diz uma das professoras, que não quis se identificar. Duas relataram ter levado exercícios impressos de casa. “São cerca de 400 alunos. Vou gastar pelo menos R$ 80. Não dá”, reclama.

ALUNOS

Para os estudantes, a ausência de material adequado prejudica o ritmo das aulas. “O que era para dar em uma aula acaba durando duas ou três”, afirma M.S., 15.

A situação afeta também os mais novos, do ensino fundamental. “Nessa idade eles são muito visuais. Os exercícios têm figuras, precisa ligar uma letra à outra, circular um número”, diz uma professora da escola Paulo Setúbal, no Limão, na zona norte.

Segundo ela, a escola está desde o início do ano sem poder usar a impressora. “Gastei um cartucho, de R$ 60, em duas semanas. Acabei comprando uma impressora [para ela] de R$ 900, que é mais econômica”, diz ela, que ganha cerca de R$ 1.600 por mês.

Na administração, pais que precisam de documentação dos filhos, como histórico escolar, voltam de mãos vazias. “Não conseguimos imprimir. Vou simplesmente sentar e cruzar os braços, porque assim não dá para fazer nada”, afirma uma funcionária.

OUTRO LADO

A Secretaria de Estado da Educação afirma que as escolas estaduais “estão imprimindo as atividades regularmente”. De acordo com nota enviada pela pasta, há 10 mil impressoras pertencentes a elas disponíveis para o uso.

A rede de ensino tem cerca de 4 milhões de estudantes em 5.300 escolas no Estado.

“Todas as escolas apontadas pela reportagem continuarão a ter impressoras”, afirma a secretaria, em nota.

Na Evandro Cavalcanti Lins e Silva, uma; na Professor Antônio Viana de Souza, três; Paulo Setúbal e Padre Antônio Vieira, três em cada.

A secretaria também afirma que “conforme o secretário [José Renato Nalini] já anunciou à Folha, o momento é de otimização de recursos públicos para que sejam oferecidos melhores serviços com menor custo”.

O cálculo do Estado é que o fim do contrato de outsourcing de impressão vá gerar R$ 33 milhões para o caixa da secretaria, que diz que “todas as escolas já receberam R$ 6 milhões para uso imediato em compra de suprimentos, até que um novo contrato seja assinado”.

A Secretaria da Educação, no entanto, diz não ter um prazo de quando isso vá ocorrer e que a Folha “erra ao afirmar que as escolas estaduais terão problemas para imprimir documentos, um exercício de futurologia”.

Fonte: Folha de São Paulo