Amorosidade, a essência do ensinar

Amorosidade, a essência do ensinar

Thaís Jorge

Se a vida só é bem vivida quando compartilhada, como defendem alguns, quem exerce a docência certamente se encaixa nessa condição, com uma trajetória de entrega, aprendizado e, principalmente, amorosidade. Esse é o termo que o filósofo e escritor Mário Sérgio Cortella, que possui 40 anos de experiência como docente, utiliza para definir o ato de ensinar, que precisa, segundo ele, ser alimentado e valorizado em conjunto com a própria educação. “A docência me ensinou a ideia de amorosidade em sua percepção mais profunda. Além de ensinar, aprendi e aprendo muito, ainda hoje, através dela”, diz o escritor.

Mesmo às voltas com diversos percalços e desafios, Cortella defende que é necessário insistir na docência como uma partilha e um compromisso com a vitalidade. “A docência é uma maneira de dizer ao mundo que as coisas podem ser diferentes”, argumenta. “E ela pode ser exercida de maneira profissional, como é meu caso, ou não. Todos nós temos uma certa experiência e contato com ela, em diversos campos. Inclusive pais e mães”, observa. Em todos os níveis desse ensino e aprendizado, as alegrias e as agonias se fazem presentes; o importante é saber lidar com elas.

Cortella estará em Campinas no próximo dia 3 de março, no Teatro Brasil Kirin, para uma palestra com o tema Nós e a escola: agonias e alegrias. Pensatas Pedagógicas para docentes e famílias. O bate-papo marca o lançamento de seu novo livro, que trata do mesmo assunto. O evento é gratuito, mas é necessária a retirada dos ingressos, pessoalmente, a partir de 25 de fevereiro, na livraria Saraiva do Shopping Iguatemi Campinas. A distribuição é limitada a dois ingressos por CPF até o término dos mesmos e está sujeita à lotação da sala. Leia a seguir a entrevista exclusiva da Metrópole com o autor:

Metrópole – Em seu último livro, o senhor argumenta que ser docente é uma forma de desdobramento. O que a experiência da docência trouxe para a sua vida e a sua construção pessoal nesses 40 anos?

Mário Sérgio Cortella – A cada livro meu, penso em uma virtude em específico. Nesse, quando alguém pede um autógrafo, escrevo nele a palavra amorosidade. E isso é muito do que a docência me ensinou: me mostrou a ideia de amorosidade em sua percepção mais profunda. Seja na educação familiar, seja nas instituições, a docência nos coloca em uma trilha muito forte de convivência e de troca. E nessa troca há muita entrega. E muito cuidado, muita doação e vontade de ser melhor e partilhar o melhor de nós.

Quais são as principais alegrias da vida docente atualmente, na sua opinião? E quanto às agonias?

Na atividade de convivência entre nós e a escola, a agonia é o que nos faz sofrer mas não nos derrota. A alegria, por sua vez, nos encanta mas não nos acomoda, pois continuamos a busca por sermos melhores. Hoje, sinto duas agonias muito presentes. A primeira é uma sociedade que valoriza a educação apenas no discurso, não oferecendo apoio cotidiano nesse sentido, seja nas escolas ou dentro das famílias. A segunda é que há uma geração, nos últimos 20 anos, extremamente avançada em diversos aspectos, mas que foi formada em famílias que não cultivaram essa questão da disciplina, do estímulo à dedicação e ao esforço. É uma geração formada sem essas ideias, por ter tido uma vida mais facilitada. E isso vem impactando muito o trabalho do professor na sala de aula. Pedir que um livro seja lido soa como uma ofensa para o aluno, porque ele só faz o que quer. Isso parece sinal de liberdade, mas não é. Quanto às alegrias, sinto que a atual geração voltou a ter contato com a escrita, seja por meio dos blogs ou das redes sociais. E isso me deixa muito feliz.

O senhor observa algum tipo de vício na pedagogia atual, dentro das salas de aula?

Sim, claro. Apenas para citar um deles, nós temos duas situações muito comuns. Tanto por parte dos discentes quanto dos docentes, existe ou uma idolatria às novas tecnologias ou total negação a elas. E isso acaba sendo uma ignorância e um comportamento vicioso.

Na sua opinião, existe hoje um debate social efetivo sobre educação e metodologias pedagógicas?

Estamos ainda em um passo introdutório a esse debate. Estamos ainda no mundo da queixa. Temos muitas queixas e poucas soluções concretas. Mas vejo essa discussão ganhando mais força, ainda mais se tivermos a consciência do mundo digital como uma estrutura de apoio, mas não exclusiva. Independentemente das plataformas, práticas docentes precisam ser discutidas e valorizadas – como a própria atividade de coordenação e a humanização de valores, preservada e propagada pela figura docente.

Em tempos individualistas como os atuais, como sobrevive a docência, que é uma atividade de tanta entrega e compartilhamento?

A docência exige cada vez mais a capacidade de recusar essa forma de egoísmo que, em grande medida, o próprio sistema econômico favorece. É necessário insistir na docência como partilha. Mesmo com todas as dificuldades, temos muitos profissionais em busca dessa profissão que, acima disso, é um compromisso com a vitalidade. A docência é uma maneira de dizer “as coisas não precisam ser assim, elas podem ser diferentes”.

No livro, um capítulo é dedicado ao “risco do desencanto” do docente. Quão grave é esse risco e como é possível resistir a ele em meio aos problemas estruturais na educação do País?

Em uma sociedade que tem uma aceitação da ética do prazer cada vez mais forte, a atividade docente traz a ética do dever, que conflita com a primeira. Se esse conflito não se resolve, gera o desencanto. A única coisa que pode impedi-lo é a resistência e as razões dos docentes, que ultrapassam tudo isso. A família, a mídia, grupos de empresas, todos que estão às voltas com essa atividade precisam afagá-la e valorizá-la um pouco mais. Isso não significa ser piegas, mas, sim, não deixar esmorecer aquilo que é a força interna de homens e mulheres que passam a vida se dedicando a cuidar da vida do outro.

Fonte: Correio Popular