Alunos da rede privada ajudam grupo de estudantes da rede pública

Alunos da rede privada ajudam grupo de estudantes da rede pública

A rapaziada nasceu em lares bem estruturados. Podem estudar nos melhores colégios, planejam curso superior em grandes universidades do planeta. Enfim, os amigos tinham tudo para levar uma vidinha sossegada, divertida, sem atropelos ou preocupação. Mas a turminha optou por trabalhar pela comunidade e ajudar quem não teve a mesma sorte. Sem ganhar um tostão, os idealistas passam a manhã de domingo dando aulas de reforço escolar para alunos da rede pública.

Os beneficiados — todos do Ensino Médio — assistem aulas de fração, geometria, equações, aritmética. A matemática deixou se ser tabu e virou prazer. Mais que isso: o empenho dos educadores voluntários revelou talentos que, hoje em dia, participam até de olimpíadas escolares, Brasil afora. O sucesso é tão grande que já se forma grupos com alunos matriculados a partir do 6º ano do Ensino Fundamental.

O autor do projeto é um jovem de apenas 18 anos. Fernando Nazário nasceu em São Paulo mas, ainda garotinho, se mudou para Campinas. O menino, filho de um médico, cresceu e estudou em escolas tradicionais da região: Comunitária, Porto Seguro, Etapa. Trocava de colégio quando mudava de casa. Agora mora em Vinhedo. O pai, diretor de um hospital paulistano, viaja todo dia para trabalhar. Então, Fernando e a mãe vivem em um bairro sossegado, seguro, longe do barulho e da poluição. E foi ali, no seu cantinho, que o rapaz resolveu virar professor.

A sala de aula foi improvisada em uma edícula dos fundos, antes usada como despensa: uma reforminha aqui, uma demão de tinta ali. Nazário instalou lousa, uma mesa de seis lugares e passou a ajudar os amigos do colégio que não tinham muita afinidade com números, ângulos e tabelas. Aí ele se entusiasmou, e resolveu levar as aulas para a rede pública. Ao lado de velhos parceiros — Thiago, Carol, Rafael, Cinthia, Gabriel, Augusto, Beatriz — o adolescente apresentou seu plano à direção da Escola Estadual Maria do Carmo Von Zuben, no bairro da Capela, em Vinhedo, e teve autorização para montar a primeira turma.

Apolo

Desde o começo do ano letivo, as aulas não pararam mais. Todo domingo, faça chuva ou faça sol, os estudantes se ajeitam nas carteiras. Às vezes dez, às vezes 15, às vezes 20. Ah, os instrutores voluntários não seguem o currículo oficial. A ideia é esclarecer dúvidas e fazer exercícios acerca dos temas indicados por cada aluno. Cada um decide o que gosta mais e o que precisa aprender. Cada “mestre” leciona o que tem mais afinidade. Os grupos são formados por temas ou níveis de aprendizado. E deu muito certo. Ninguém vê a hora passar.

Ah, sim. O projeto ganhou um nome. O Apoio Olímpico ao Estudante (Apole) nem queria, no começo, classificar alunos para competições. “O nome era uma alusão ao esforço pessoal de cada aluno. Também fazia referência a Apolo, deus grego da juventude, da arte, da luz”, explica Nazário. Mas não teve jeito. O entusiasmo dos alunos cresceu, e o amor pela matemática não ficou restrito à sala ou à escola.

Nazário, criador do projeto, já ganhou ouro e prata na Olimpíada Brasileira de Astronomia. Brilhou em etapas de competições internacionais de porte, como o IYPT, sigla em inglês para o Torneio Internacional dos Jovens Físicos. E, no futuro, o rapaz quer estudar na badalada Universidade da California em Los Angeles (Ucla). Ama física, ciências políticas, quer se especializar em educação, fala até em estudar neurociências. Vai morar fora um tempão, lógico. Por isso, não quer se mudar já. Acha que o Apole vai crescer, e pode ser levado a escolas públicas de outras cidades.

E quem assiste às aulas se comove com o esforço quase artesanal de quem ensina e de quem aprende. Os “professores” levam um lanchinho para compartilhar com os estudantes. Imprimem, com recursos próprios, todo o material de apoio que vão usar na aula. De outro lado, os alunos (alguns matriculados em outras escolas públicas da cidade) chegam de ônibus ou caminhando mesmo. Quando amanhece chovendo, por exemplo, o quórum cai. Mas tem aula do mesmo jeito. “Eu tive a chance de estudar, aprender. Eu tenho a obrigação contribuir com a educação pública no meu País”, atesta Nazário.

Saiba mais 

As pessoas interessadas em conhecer o projeto podem visitar a página da Apole — Apoio Olímpico ao Estudante no Facebook, ou entrar contato pelo pelo e-mail [email protected]

Fonte: Correio Popular