Além dos livros: Escola deixa que a natureza e o outro ensinem o que não se aprende em sala de aula.

Além dos livros: Escola deixa que a natureza e o outro ensinem o que não se aprende em sala de aula.

Escola da Serra, em Belo Horizonte, inova derrubando muros e propondo acampamentos selvagens em seu currículo oficial. Na volta, uma surpresa: crianças mais auto-confiantes, unidas, e próximas da sua essência.

Por Mariana Sgarioni

Na hora da chegada ou da saída, o pátio da Escola da Serra, em Belo Horizonte, mais parece uma pracinha de interior. Cercadas de árvores, crianças pulam, sobem e descem, enquanto pais conversam sem pressa de ir embora.

Construída numa área total de mais de 4 mil m2, a escola propõe um modelo diferente de educação: não há uniforme, séries, notas, provas, ou salas fechadas. As turmas de educação infantil, quando estão do lado de dentro, contam com paredes envidraçadas que mostram todo o jardim lá fora.

Os jovens do ensino fundamental, uma vez por ano, viajam com professores e educadores para um acampamento selvagem na Serra do Cipó. O passeio faz parte do currículo oficial. Os alunos passam dois meses se preparando, com aulas práticas e teóricas. Os assuntos vão desde como construir seu próprio fogão e cozinhar, até como lidar com animais peçonhentos ou prestar primeiros socorros. Já o ensino médio conta com um outro desafio: três dias acampando em uma aldeia dos índios pataxós.  “Os mais novos aprendem, no contato com a natureza em seu estado mais bruto, a conhecer melhor a si mesmos. Com os índios, os mais velhos aprendem a ver o outro, a olharem para além deles mesmos”, diz Sergio Godinho, diretor-geral da Escola da Serra. Na entrevista a seguir, Sergio conta um pouco mais sobre esta inovadora experiência pedagógica.

Por que a Escola da Serra é considerada uma instituição de ensino diferente?

Por vários motivos. Para começar, entendemos a educação como um processo de construção de conhecimento único para cada criança e jovem. Cada aluno é único e deve ser acolhido em seus talentos e dificuldades. Vivemos e defendemos a democracia. Prezamos a arte e as cores: cuidamos de um ser humano inteiro e não apenas da sua cabeça. Da sua criatividade, sua sensibilidade. Abraçamos estes objetivos. Nos últimos treze anos, fomos lapidando essas ideias e ousando cada vez mais ao tentar responder às perguntas: qual a essência da educação? O que faz sentido para uma escola? Assim, fomos limpando as “bobagens” que nos cercavam: não temos uniforme, turmas, séries, salas de aula, notas, nem aulas formais. Chegamos, enfim, à essência de uma escola: os alunos vêm para cá simplesmente estudar e aprender. Ponto.

De que maneira a natureza e o contato com o ambiente externo entram neste projeto?

Essa pergunta é difícil porque não separamos criança e natureza. Elas são uma coisa só. Entendemos que a educação deve estar fundada nas relações que as crianças estabelecem dentro da escola e no ambiente. Temos mais de 2 mil metros de área livre abertos quase o tempo todo. Crianças brincam lá fora, sobem e descem das árvores. Incentivamos que andem descalços, que brinquem com terra e areia. Os brinquedos disponíveis são de escalar, de pendurar, de entrar no túnel, de desafios corporais. Na educação infantil, temos janelas grandes para que as crianças possam ver as árvores mesmo quando estão dentro da escola. E temos os projetos de acampamento para os mais velhos.

Por que levar os alunos para acampar?

Eu adoro acampar, faço isso desde muito jovem e estas experiências me ajudaram a crescer e a me tornar quem sou hoje. Acampei muito com minhas filhas quando eram menores. Depois que elas cresceram perdi a companhia [risos]Então pensei: por que não levar meus alunos? As crianças hoje estão muito fechadas em apartamentos e shoppings. Como será esta geração que só conhece plástico? É preciso tirar esses meninos do excesso de urbanidade. Eles não podem ficar restritos a um ambiente tão limitado. Então procurei um lugar que fosse bem selvagem, sem estrutura, sem banheiro, cozinha, nada. Encontrei um lugar deslumbrante, na Serra do Cipó. Acampamos ao lado de uma nascente e a 30 metros de um ribeirão, no pé de uma serra maravilhosa.

Como funciona?

Este é um programa para jovens de 13 e 14 anos. Vamos na segunda quinzena de maio, e acampamos durante cinco dias. Em geral, vão cerca de 65 crianças – mas já tivemos 90! Passamos mais de 2 meses preparando os alunos para esse momento. Eles aprendem a montar e desmontar barracas, mexer com machado, facão, cozinhar, primeiros socorros. Temos um manual de acampamento em que passamos todas as instruções, e o repassamos várias vezes, com regras. Neste ano trouxemos especialistas e fizemos um curso de como lidar com animais peçonhentos, como cobras e escorpiões. Logo que chegamos, fazemos uma trilha de pouco mais de 1 km, e os próprios alunos montam as barracas. Em 13 anos já levamos mais de 600 crianças para o mato!

Qual o efeito dessa experiência nos alunos quando voltam?

Algumas frases marcantes de alunos que já escutei: “Nossa, não sabia que viver dava tanto trabalho! Só para comer tem que construir fogão, buscar lenha, fazer a comida, lavar tudo…”. Ou: “Mudei de personalidade! Na minha casa, eu morria de nojo de uma colherinha suja! No mato, eu mexia meu leite com um graveto do chão!”. São muitas experiências concentradas. Muitos sequer tinham a oportunidade de ver um céu estrelado. De repente, eles se veem fazendo uma fogueira, tomando banho de rio, sem água quente, sem conforto, mas com uma simplicidade incrível. Isso é muito forte. Percebo que voltam mais maduros, mais amigos, mais coesos como grupo. Alguns pais me perguntam: “vocês estudam o quê lá? Não dá para aproveitar e estudar biologia???” Olha, dar um papel na mão deles lá é muito anticlímax. Respondo que eles estudam eles mesmos. É um aprendizado que não existe em nenhum outro lugar. Conhecer a si mesmos, seus medos, seus limites, seus potenciais. Crianças tímidas, por exemplo, na natureza podem virar líderes.

Como funciona o programa para o ensino médio?

Os jovens do ensino médio são lançados a outro desafio. O acampamento é feito numa aldeia indígena pataxó a cerca de 4 horas daqui. É um programa obrigatório, conta como aula. A ideia é desfazer estereótipos, mostrar que os índios são pessoas iguais a nós e são culturalmente diferentes. São três dias de acampamento. Durante o dia, eles convivem, jogam, brincam, preparam os alimentos. De noite tem dança, fogueira. Os alunos já chegam informados sobre a cultura e também sobre a questão indígena.  Os pataxós levam os alunos para o meio da mata onde é o local cerimonial. Mostram como a floresta é um ambiente de reverência. Mais que somente a natureza, neste caso, nosso foco é o contato com o outro, o ser humano. Como é lidar com quem é igual e também diferente? Talvez esta seja uma das grandes questões atuais da humanidade.

Fonte: criançaenatureza.org