Acompanhamento pedagógico em hospitais dá continuidade ao aprendizado e ajuda na recuperação

Acompanhamento pedagógico em hospitais dá continuidade ao aprendizado e ajuda na recuperação

Ingrid Vogl

Um ambiente escolar em meio a um complexo hospitalar. Assim pode ser descrita a classe pertencente à Secretaria Municipal de Educação de Campinas existente no setor pediátrico do Complexo Hospitalar Ouro Verde. Não à toa, crianças que ficam internadas em um dos 21 leitos da área (dez deles na Unidade de Terapia Intensiva-UTI) pedem e aguardam ansiosas pelo momento do dia em que poderão ir até a “escola”, como elas mesmas definem, que fica apenas a poucos metros de seus quartos médicos.

O Hospital Municipal Dr. Mário Gatti também possui uma classe hospitalar de responsabilidade da Secretaria Municipal de Educação. O Centro Infantil Boldrini, entidade conveniada à Fundação FEAC e referência mundial no tratamento de câncer infantil e doenças do sangue, é outro que conta com salas de apoio pedagógico, para que o processo de ensino e aprendizagem tenha continuidade enquanto as crianças estão internadas em tratamento.

Convite ao desenvolvimento

Mesmo pequeno, o espaço destinado à classe hospitalar na ala pediátrica do Hospital Ouro Verde é convidativo, alegre e aconchegante. Logo na entrada há vários desenhos, fotos e trabalhos pedagógicos feitos pelos alunos-pacientes expostos nas paredes. Lá dentro, brinquedos por todos os lados e um armário repleto de jogos educativos fazem parte do material utilizado todos os dias pelas professoras Vânia Garbo, da Escola Municipal de Ensino Fundamental (EMEF) Carmelina de Castro Rinco, e Maria Cecília Coelho Furlani, da Escola Municipal de Educação Infantil (EMEI) Benjamin Constant.

“Fazemos a orientação aos pais de como estimular a criança, como melhorar a escrita e a leitura e ainda os ajudamos a trabalhar pedagogicamente com os pacientes que ganham alta e vão para casa”, afirmou Vânia.

Dentro da rotina do hospital, as docentes fazem diariamente a contagem das crianças que estão internadas, além das que irão entrar ou sair. É realizada uma avaliação do nível de aprendizagem dos pequenos pacientes e todas as atividades propostas são baseadas no nível no qual cada criança se encontra.

É feita também uma ficha de acompanhamento do trabalho pedagógico com cada paciente, inclusive para aqueles que vão ficar muito tempo internados, com os quais é feito um planejamento.

“Entramos em contato com escola na qual o paciente está matriculado quando sua internação supera cinco ou sete dias, justamente quando sabemos que a criança vai ficar mais tempo. Pedimos o material didático que está sendo desenvolvido com a criança na escola. Algumas unidades nos enviam as atividades para desenvolver com os alunos, mas depende muito de uma escola para outra. Quando o aluno tem alta, o material desenvolvido na classe hospitalar é enviado por envelope e o relatório vai por e-mail, para que a equipe da escola saiba o que foi desenvolvido durante a internação”, explicou Maria Cecília.

Rotina

Todos os dias, Maria Cecília passa nos quartos para avisar sobre uma das maiores alegrias dos pequenos pacientes: que a classe hospitalar já está funcionando. “Temos uma rotina que sempre pode sofrer alterações, pois trabalhamos de acordo com as necessidades médicas das crianças, já que algumas precisam de isolamento, outras podem vir até a classe e alguns pacientes só podem ser atendidos nos leitos”, relatou Maria Cecília.

Com o trabalho médico e pedagógico acontecendo muito próximos, a interação é grande entre os profissionais da saúde e da educação. “Acaba-se criando uma relação de confiança com as crianças e com outros profissionais que atuam no tratamento. Sempre começamos essa interação com o lúdico pedagógico, isto é, brincando, com o olhar pedagógico. Isso acaba ajudando a tirar o estresse e também no tratamento das crianças internadas”, enfatizou Vânia.

Todo o trabalho diferenciado e cuidadoso com os pequenos pacientes resulta em retornos positivos das crianças e gratificante para as professoras. Um dos indicadores é que elas não quererem ir embora da classe hospitalar; outro fato é o reconhecimento e apoio que a equipe médica dá ao trabalho pedagógico.

“Aqui conseguimos fazer um trabalho individualizado, com uma dinâmica diferente da que acontece na escola. Em alguns casos, os pais enxergam esse desenvolvimento nos seus filhos. A proximidade dos pais e a convivência entre crianças de diferentes idades (o atendimento é de zero a 14 anos), também é positiva, porque há uma troca de saberes e um aprende com o outro”, disse Maria Cecília.

Entre idas e vindas, Davi Gabriel da Silva, dois anos, frequenta o Hospital Ouro Verde desde que nasceu. As convulsões, sondas e tubos usados devido à traqueostomia não são empecilhos para que o pequeno tenha evoluções. “Não conhecia o trabalho da classe hospitalar até chegar aqui, e tive uma grata surpresa. Pensei comigo: Nossa, tem uma escolinha aqui dentro! E o trabalho das professoras com meu filho sempre foi estimulá-lo. Acho um excelente trabalho. Eu e meu filho saímos daqui renovados. Não tenho dúvidas de que o trabalho pedagógico influencia no desenvolvimento e na recuperação das crianças. Se eu pudesse, ficaria o dia inteiro aqui fazendo atividades com ele e as professoras”, disse Ana Paula Fabiana da Silva, mãe de Davi Gabriel.

Durante o ano de 2015, a classe hospitalar do Hospital Ouro Verde atendeu mais de 530 crianças. No primeiro semestre de 2016, o número de pacientes foi de 271.

Boldrini

No Centro Infantil Boldrini, o tratamento de crianças com câncer e doenças do sangue é feito com atenção especial à educação. No hospital há três espaços no setor pedagógico para o atendimento de alunos que permanecem internados. São duas salas pedagógicas e uma ludoteca, que funciona de segunda a sexta-feira, das 8h às 17h, com uma equipe composta por quatro pedagogos.

Segundo Luciana Assunção Ramos Silva de Mello, coordenadora pedagógica responsável pelas salas de apoio pedagógico do Boldrini, o período matutino possui o maior fluxo de crianças que frequentam os espaços de educação da instituição.

“Fazemos o acompanhamento pedagógico com interface junto à instituição de ensino em que a criança é matriculada, para dar continuidade à escolarização do paciente. Em alguns casos, até mesmo provas diversas, como vestibular, exames escolares e outras são aplicadas no hospital”, afirmou Luciana.

De acordo com a coordenadora pedagógica, o foco do atendimento educacional no Boldrini é muito mais no interesse do aluno em fazer as atividades escolares do que nos resultados. “Garantir o acesso e a oportunidade aos estudos é promover a autoestima e o incentivo, inclusive com retornos benéficos para o paciente”, disse.

Assim como no Ouro Verde e Mário Gatti, a equipe pedagógica do Boldrini também acredita que em alguns casos o aluno pode ter a oportunidade de ter um aprendizado eficaz durante a internação devido ao atendimento individualizado que recebe.

“Procuramos alinhar o trabalho lúdico com o pedagógico e as famílias são muito parceiras. A rotina de aulas para as crianças internadas é saudável”, concluiu.

O Boldrini atende mensalmente cerca de 500 crianças na ludoteca e outras 200 nas salas pedagógicas.

SOBRAPAR

O Hospital SOBRAPAR -Crânio e Face, também conveniado à Fundação FEAC, desenvolve desde 1990 o projeto A Escola no Hospital, que é oferecido para crianças e jovens de 5 a 18 anos que estão em tratamento e são pacientes da instituição. A iniciativa tem o objetivo de promover a reabilitação, recuperação da autoestima e melhora do desempenho escolar.

Em 2013, o projeto passou a ter a parceria da Fundação Prada de Assistência Social, que doou recursos para a compra de equipamentos como TV, tablets, DVD e materiais pedagógicos e psicopedagógicos, além da remuneração de profissionais que fazem parte da iniciativa.

Atualmente, A Escola no Hospital possui uma equipe de cinco profissionais entre psicopedagogas; fonoaudiólogas e psicóloga, que utilizam a brinquedoteca ou a sala da Psicologia para fazer os atendimentos que são individuais e agendados, uma ou duas vezes por semana, conforme a necessidade e disponibilidade do paciente. Futuramente, o hospital pretende criar uma sala específica para o atendimento psicopedagógico.

Para fazer parte do projeto, é realizada uma avaliação para saber como é a relação do aluno com a aprendizagem formal, o contexto escolar e como a família lida com essa questão. A equipe também entra em contato com a escola onde a criança é matriculada para dar orientações aos educadores sobre como lidar com os alunos que estão em tratamento e auxiliar no desenvolvimento do aluno. Entre 2013 e 2015, foram atendidas mais de 300 crianças e adolescentes no projeto.

Saiba mais sobre as classes hospitalares da Secretaria Municipal de Educação: http://www.campinas.sp.gov.br/governo/educacao/depto-pedagogico/educacao-especial/sme-campinas.php

Saiba mais sobre o Centro Infantil Boldrini: http://www.boldrini.org.br/

Saiba mais sobre o Hospital SOBRAPAR: http://www.sobrapar.org.br/