A violência escolar no professor

A violência escolar no professor

Um aluno recentemente processou o seu professor por ter lhe tomado o celular no meio de uma aula. O caso aconteceu no Recife e a decisão do juiz Elieser Siqueira de Souza Junior a favor do docente foi a seguinte: “Julgar procedente esta demanda é desferir uma bofetada na reserva moral e educacional deste país, privilegiando a alienação e a contra educação, as novelas, os reality shows, a ostentação, o bullying intelectivo, o ócio improdutivo, enfim, toda a massa intelectivamente improdutiva que vem assolando os lares do país, fazendo às vezes de educadores, ensinando falsos valores e implodindo a educação brasileira”.

Confesso que minha alma de educador vibrou quando leu essa notícia. Finalmente, alguém com lucidez! Depois de todo o estardalhaço com a aprovação da Lei da Palmada (que não passa de um fajuto ¬marketing político), qualquer notícia que contraste com a demagogia do nosso governo dá a nós, professores, esperança quando vemos movimentos contrários a nosso favor.

A pressão negativa que o nosso governo tem provocado na carreira docente, com uma legislação ideológica cada vez maior, trará frutos amargos brevemente. Ele não percebe que, quando apoia essas iniciativas, desprestigiando a vocação de professor, está dando um tiro no próprio pé. Já dá para vislumbrar, num futuro não tão longínquo, uma carência total de docentes para diversas disciplinas e regiões do país, pois ninguém aguenta mais ser professor e não poder exercer a legítima autoridade que exige manter uma disciplina educativa, principalmente quando muitas famílias não oferecem um mínimo de estrutura de valores.

Recentemente, participei, na PUC-Rio, de uma banca de doutorado na Faculdade de Educação. A defesa da doutoranda consistia na necessidade de se investir urgentemente na formação dos diversos licenciandos que se preparam para dar aulas no ensino médio, para que aprendam a lidar com a violência escolar de forma mais assertiva. Este modo de educar, segundo a pesquisadora, acontecerá se houver mais reflexão durante os conflitos interpessoais, se o docente ensinar o alunado a apoiar-se mais no pensamento significativo, de forma a descontruir hábitos arraigados de violência ou atitudes de injustiça social. Segundo a pesquisa, essa formação quase não existe nas universidades e, quando existe, cai em discussões teóricas.

Confesso que gostei da defesa da tese, mas acredito que seja de difícil aplicação na maioria das nossas escolas públicas. No fim da tese, indaguei: sem formação adequada e com leis enfraquecedoras, como conseguiremos sustentar a esperança de tantos professores atuais e futuros?

Pessoalmente, defendo a necessidade de voltar a formar nossos alunos nas virtudes éticas fundamentais, tanto na família quanto na escola. Com o aprendizado desses hábitos morais, desde a educação infantil até o ensino médio, nossas crianças ganharão forças internas motivacionais para superar todas as mazelas educacionais e para não se deixar enganar pelas “sereias do mar” que nossa cultura materialista e hedonista continua criando. O aprendizado dessas virtudes éticas, quando bem aplicadas, não produzirá pessoas violentas, porque se sentirão com forças para amar o próprio dever e o próximo. A violência é sempre um indicador da fraqueza humana e de uma cultura de desvalores ou antivalores.

João Malheiro, doutor em Educação pela UFRJ, é consultor educacional.

Fonte: Gazeta do Povo