Sem divisão por séries, escola de Florianópolis promove inclusão

Sem divisão por séries, escola de Florianópolis promove inclusão

Metodologia de projetos e desenvolvimento de competências são alguns dos caminhos encontrados para construir um modelo educacional que valoriza diferentes interesses e ritmos de aprendizagem

por Marina Lopes

Saber se comunicar, trabalhar em equipe, ser autônomo e exercitar a criatividade são competências cada vez mais importantes para a vida no século 21. Desenvolver essas habilidades na escola prepara crianças e adolescentes para o futuro, além de criar um ambiente propício ao respeito às diversidades. É o que acontece na Escola dos Sonhos, localizada em um ambiente rural de Vargem Grande, em Florianópolis (SC).

Para construir um ambiente educacional inclusivo que, na sua concepção, reconhece os diferentes interesses e ritmos de aprendizagem, a escola acabou com a divisão por séries e adotou a metodologia de projetos.

Localizada em um espaço de 50 mil m² de área verde, a escola olha para a inclusão como a capacidade de entender e reconhecer o outro, independente da idade, etnia, gênero, classe socioeconômica ou deficiência. Para isso, o trabalho com as crianças tem foco na cooperação e na colaboração. Da educação infantil ao ensino fundamental, os estudantes se dividem em diferentes núcleos: de experimentação (de 2 a 3 anos), de investigação (de 4 a 5 anos), de transição (crianças em processo de alfabetização), de desenvolvimento (do segundo ao quinto ano) e de aprofundamento (do sexto ano nono ano).

A proposta tem inspiração no modelo da Escola da Ponte, de Portugal. A partir dos seus interesses, as crianças são estimuladas a brincar, explorar o espaço e investigar diferentes assuntos, que se relacionam com as áreas do conhecimento e envolvem os conhecimentos curriculares específicos de cada ano.”Quando pensamos em trazer para o espaço de aprendizagem uma proposta que valoriza as diferentes formas de aprendizagem e desenvolvimento cognitivo das crianças, acreditamos que estamos contribuindo para que a inclusão aconteça”, destaca a educadora Danuza Silva, coordenadora do Núcleo de Desenvolvimento.

Dentro dessa concepção, o rompimento da divisão por séries foi uma das maneiras encontradas pela escola para garantir que cada aluno trilhe o seu próprio caminho de desenvolvimento. “Percebemos que as crianças se sentiam um pouco para baixo, porque elas estavam dentro de um grupo seriado e, quando olhavam para um amigo do lado, às vezes percebiam que ele fazia uma determinada atividade mais rápido”, diz a coordenadora.

Na nova proposta, ela conta que os estudantes são separados em grupos por interesse de estudo. “Eles trazem os temas para um assembleia e apresentam porque estão interessados em estudá-los. Todas as sugestões ficam expostas no mural da escola por uma semana, e as crianças podem conhecer os temas dos colegas. Na semana seguinte, fazemos outra assembleia para formas os grupos”, explica, ao mencionar que as equipes costumam ter 20 crianças e são orientadas por dois adultos.

Logo após definir um tema, os estudantes fazem um projeto de investigação. Com a ajuda de um orientador, eles montam o seu roteiro de pesquisa e de estudos gerais, que incluem os conteúdos curriculares, estratégias de trabalho, saídas de campos e competências a serem desenvolvidas. “Geralmente, as atividades são feitas para estimular a pesquisa de conteúdos curriculares e subjetivos. A nossa orientação é instigá-los para que busquem respostas de maneira autônoma”, menciona a professora orientadora Decalafy da Silva Rodrigues, que trabalha com grupos do Núcleo de Desenvolvimento.

Atualmente, Decalafy conta que está orientando três temas de pesquisa: safari, desastres naturais e o acidente nuclear de Chernobil. “Por meio de pesquisas na internet ou em livros didáticos, eles tentam compreender conceitos e são instigados a fazer perguntas”, diz, ao mencionar que nessa proposta o professor assume um papel de mediação para que o estudante alcance os seus objetivos. “O modelo funciona com base no diferencial de cada criança. Não existe um padrão em momento nenhum. As atividades são de acordo com as dificuldades dos alunos. Tudo gira 100% em torno da diferença.”

Para acompanhar o desenvolvimento dos estudantes, a escola também abre mão da prova tradicional e trabalha com um modelo de avaliação descritiva, que se baseia na observação dos educadores para diferentes aspectos: a relação da criança com o grupo, os conflitos, a autonomia e a responsabilidade, a forma de relacionar os conteúdos escolares com o mundo e o quanto os objetivos do projeto foram atingidos. Semanalmente, a coordenadora também visita as salas para conversar com os estudantes, que são incentivados a contar as coisas que fizeram e o que ainda precisam melhorar.

Seguindo essa proposta, o que também ajuda a despertar o olhar dos educadores para o desenvolvimento de competências em um modelo educacional inclusivo é um trabalho contínuo de formação. Conduzidas pelas coaching educacional Rafaela Mund, o foco das formações está no reconhecimento das competências gerais que são apresentadas na última versão da BNCC e também na compreensão dos diferentes perfis de aprendizagem. “O professor sabe que existem essas diferenças, ele sabe que deveria trabalhar inclusão nessa perspectiva, mas ele não sabe como fazer”, avalia.

Após um ano de trabalho com projetos em um modelo não seriado, a coordenadora Danuza Silva diz que a escola consegue olhar para cada estudante de forma mais individualizada. “Uma criança com dislexia pode não ir muito bem no português, assim como uma criança que não tem diagnóstico. Tanto uma como outra precisam ser incluídas nesse processo. Nós estamos sempre adaptando as atividades e buscando orientação”, destaca. “Essa proposta favorece muito a inclusão. Temos um olhar que entende que toda criança é merecedora de ser incluída, independente de ter um diagnóstico ou não.”

Na série de reportagens Educação Inclusiva, veja como tendências educacionais ajudam na construção de ambientes educacionais que acolhem a diversidade e respeitam as múltiplas formas de aprender de cada aluno.

Fonte: Porvir