Projeto escolar leva saneamento à comunidade ribeirinha do Amazonas

por Valter Pereira de Menezes

Sou professor há 22 anos, e a minha experiência profissional sempre foi em escolas do campo da região amazônica. Quando trabalhamos com o ensino de ciências, sempre temos que ficar atentos para responder questionamentos e hipóteses da turma. Outro dia, um aluno me perguntou por que a nossa comunidade tinha tantos casos de diarreia.

Como moro em uma região ribeirinha, eu tinha que dar uma resposta para o meu aluno. Aqui no Amazonas, temos duas estações do ano bem críticas: a enchente e a vazante. Durante a seca, o rio fica raso e causa problemas. Quando está cheio, ele costuma ser contaminado pelas enxurradas. Com isso, a população que consome a sua água começa a ter sintomas de diarreia e verminose.

Quando falei sobre isso com a turma, comecei a pensar em uma solução para o problema da falta de saneamento básico da nossa região. Foi aí que, junto com a comunidade, escola, professores e alunos, criamos o projeto “Água limpa para os Currumins do Tracajá”.

Fomos atrás de parcerias e conseguimos o apoio das ONGs Asas de Socorro e Tearfund para instalar filtros bioativos pela região, composta por cerca de dez comunidades. Depois também conseguimos ajuda para construir 20 novas fossas, já que tínhamos muitos problemas de saneamento básico.

A partir daí, buscamos novos apoios. Fizemos uma avaliação da nossa região e chegamos à conclusão de que em dez anos teríamos muitas fossas cheias. O que iríamos fazer quando isso acontecesse? Tivemos que pensar em uma alternativa e começamos usar fossas biológicas que não agridem o lençol freático. Fomos a primeira comunidade do Amazonas a plantar bananeiras para isolar os detritos humanos e filtrar a água.

Com toda essa prática pedagógica, conseguimos trabalhar em sala de aula a questão da verminose, do lixo e da proteção do lençol freático. O grande diferencial desse projeto foi conseguir sair da teoria para a prática. Trabalhamos em um espaço não formal, e isso eu acredito que é fazer educação de qualidade. Você sai das quatro paredes e consegue atingir a realidade do aluno.

Os alunos ficaram muito engajados durante todo o projeto. Eu fui apenas um intermediador, mas foram eles que correram atrás de parcerias e organizaram pesquisas de campo. Nós até criamos um grupo chamado “Agentes da Água”.

Temos o compromisso de preservar um ambiente que é nosso. A Amazônia é tão falada como o pulmão do mundo, mas precisamos conscientizar os alunos de que é preciso cuidar desse espaço. Hoje posso até dizer que temos uma comunidade ecológica.

Fonte: Porvir