Para entender de olhos fechados

Para entender de olhos fechados

Com o tato e materiais bem adaptados, alunos com deficiência visual dominam conteúdos complexos

Por: Talita Nascimento

Desenhos para visualizar uma questão, gráficos para organizar ideias e lousas cheias de cálculos. Os conteúdos de Matemática vão ficando mais complexos. Para quem tem cegueira ou baixa visão, a dificuldade é ainda maior. De acordo com a Lei de Diretrizes e Bases da Educação, as crianças com deficiência visual têm direito de estudar em salas comuns e ter acesso a material adaptado, mas, entre isso e o aprendizado de fato, multiplicam-se os obstáculos.

“Uma tabela de dupla entrada em que você relaciona linhas, colunas e células não é óbvia para os adolescentes com deficiência”, diz Hellen Leite, professora da Universidade Federal do Espírito Santo (Ufes). Apesar dos livros com instruções em braille e do uso de equipamentos para escrever nesse sistema de leitura, fazer traços verticais e horizontais que se cruzem é praticamente impossível. Sintetizadores de voz, que funcionam como ledores, têm limitações para disciplinas com símbolos específicos. Só mesmo um conjunto de estratégias abre possibilidades.

O professor Rubens Ferronato, de Cascavel, no Paraná, indica a linguagem descritiva como primeiro passo. Funciona substituir expressões como “esse” e “ali” por informações precisas como “o ponto do eixo x, no segundo quadrante” ou “o ângulo de 90O da união entre as retas AB e BC”. “Percebi a desmotivação de um estudante cego de Ciências da Computação na União Panamericana de Ensino (Unipan), por não conseguir formar uma imagem tátil de conceitos como os planos cartesianos”, conta Rubens. Decidido a não perder o aluno, o professor visitou uma escola especializada, uma livraria e uma biblioteca, e acabou e uma loja de construção, onde uma placa de madeira perfurada chamou sua atenção. Com a placa, alguns rebites, argolas e elásticos, encontrou uma maneira para que o estudante construísse seus próprios gráficos e figuras geométricas.

Hoje conhecida como Multiplano, a ferramenta ajudou muitos alunos pelo Brasil. Um deles foi o paranaense Lucas Radaelli, hoje com 25 anos. Como o Centro de Apoio Pedagógico Especializado (Cape) do Paraná providenciava transcrições para o braille só até a 4a série – equivalente hoje ao 5o ano do Ensino Fundamental –, seus pais passaram a converter livros e conteúdos para o braille ou para formatos de texto compatíveis com sintetizadores de voz. Após entrar em contato com o inventor, o pai construiu réplicas do Multiplano para auxiliar o filho. Em aulas com Rubens, o menino foi incentivado a solucionar questões das Olimpíadas de Matemática. “Geralmente não é possível aprender, porque você não tem um material adaptado. Mas quando consegue essas coisas e alguém que explique bem a você, não é complicado aprender Matemática”, diz Lucas, que cursou Ciências da Computação na Universidade Federal do Paraná (UFPR) e hoje é programador no Google. Ele credita a aprendizagem à união de professores, pais e o centro de apoio que frequentava no contraturno.

Um dos problemas superados por Lucas — comum a quem tem deficiência visual — foi o fato de que existem diferentes maneiras de representar códigos matemáticos em braille. Sua família criou uma forma alternativa de fazer os registros, maneiras singulares de anotar potências, raízes quadradas e outros símbolos. Lucas criou seus próprios métodos de representá-los na tela do computador, para que pudesse entender quando os sintetizadores de voz lessem as suas anotações.

Esse tipo de obstáculo desafia outros educadores, como Cátia Palmeira, professora da rede estadual em Vitória, no Espírito Santo. Em aulas extras, ela investe na melhora da fluência da leitura e da escrita em braille, aperfeiçoando a linguagem matemática de seus alunos cegos. No trabalho com eles, observou a importância de ouvir suas necessidades e demandas, para que as adaptações sejam feitas de forma eficiente. Outro ponto é cuidar das avaliações, que podem ser feitas se respeitado o tempo necessário para a transcrição das operações matemáticas em braille. Em alguns  casos, o professor pode abrir mão de questões, tornando a prova mais objetiva, sem deixar de verificar a aprendizagem.

Recursos adaptados por todos

“Ver esse aluno como igual e acreditar no seu potencial é o primeiro passo para que ele evolua”, garante Tânia Rezende, especialista na inclusão de pessoas com deficiência visual pela Universidade Estadual Paulista (Unesp). Ela perdeu a visão aos 19 anos em um acidente de carro e hoje cuida de sala de recursos em escolas estaduais. A pedagoga também capacita professores para usar soroban, instrumento que facilita o cálculo mental. Mas nem só recursos prontos servem na hora de ensinar. “Uma de minhas colegas usou o material dourado para tornar um gráfico de barras compreensível para uma criança”, conta Tânia. Diante de uma sala regular lotada e alunos com e sem deficiência, a educadora propõe que a turma toda seja envolvida na adaptação dos materiais didáticos. Ao produzir tabelas e gráficos em alto-relevo, os estudantes que enxergam também trabalham o conteúdo de forma ativa e o tornam acessível para os demais colegas.

Na EE Professora Inah de Mello, em Santo André, a professora Carmem Medina é responsável pela sala de recursos que funciona no contraturno e tem materiais criados pelos professores. Até a sucata, como palitos de churrasco e tampas de garrafa PET, pode se transformar em peças úteis. Uma dica na construção delas é garantir formas de fixar os elementos móveis das criações (com velcro, por exemplo), assim os estudantes cegos se sentem seguros para manuseá-las. “Elas não podem ser muito frágeis, pois eles costumam apertá-las. Se deformarem, podem ficar inibidos.” Mas a forma de orientar e incentivar as atividades é que, na prática, faz mais diferença. Carmem conversa com os alunos guiando suas mãozinhas para que eles saibam o que exatamente está sobre a mesa. A um sinal de distração ou falta de vontade, ela fala com voz firme e reforça que o estudante consegue, sim, vencer determinado desafio. Tudo parece valer a pena quando Rian Cristian de Oliveira Ferreira, 12 anos de idade e aluno do 6o ano, se surpreende ao traçar um plano cartesiano: “Uau! Eu posso fazer um quadrado também, professora?”. Com um sorriso, ela responde: “Você pode fazer qualquer coisa”.

Fonte: Nova Escola