O trabalho com socioemocionais não precisa ser oneroso ao professor

Robert Selman, professor da Universidade de Harvard, nos Estados Unidos, defende a prevenção como foco no trabalho da convivência e a abordagem de habilidades sociais vinculada ao currículo

por Wellington Soares

Abertura a novas experiências, consciência, extroversão, amabilidade e estabilidade emocional. Esses cinco fatores têm ganhado cada vez mais espaço no debate educacional. Eles são as mais importantes habilidades socioemocionais, defendida por muitos especialistas como uma das grandes questões para uma renovação da prática educativa.

Robert Selman, professor da Universidade de Harvard, uma das mais prestigiadas instituições do mundo, se dedica a pesquisar o desenvolvimento de habilidades de convivência na escola, mais especificamente nos primeiros anos da Educação Básica. Em entrevista a NOVA ESCOLA, durante passagem pelo Brasil em março, ele discute possíveis estratégias para incorporá-las à rotina.

Por que as habilidades socioemocionais têm ganhado tanto espaço?
Há algumas décadas, acreditava-se que o ensino de competências relacionadas à convivência cabia exclusivamente às famílias e que as escolas deveriam se debruçar apenas sobre o conhecimento acadêmico. Com o tempo, passou-se a acreditar que a escola deveria também formar cidadãos, mas sem clareza sobre o que era necessário para isso. Por essa razão, ainda havia resistência à incorporação de competências como amabilidade, estabilidade emocional e consciência. Quando, nas décadas de 1980 e 1990, epidemias de violência e conflitos se espalharam pela sociedade, o cenário começou a mudar, pois esses problemas também atingiam as escolas. Como é comum acontecer, acabou cabendo à Educação lidar com esses problemas que o mundo não conseguia. Nesse contexto, o papel que era das famílias passou a ser considerado também um papel das instituições escolares. Começaram a surgir, então, diversas propostas para trabalhar com essas questões. Recentemente, o movimento da aprendizagem socioemocional saiu em vantagem porque algumas pesquisas mostram que, quando colocamos essas habilidades no currículo, o desempenho acadêmico também melhora. Esse movimento nomeia habilidades como cooperação, extroversão e abertura a novas experiências para fazer com que as instituições de ensino trabalhem especificamente com elas. Mas a questão é: o quanto dessas responsabilidades podem ser colocadas na conta do professor?

Qual deve ser o currículo para trabalhar as habilidades?
As evidências mostram que o trabalho com elas deve ser modesto e bem definido. Isso quer dizer que devemos integrá-las ao currículo de maneira que não seja onerosa aos docentes. O professor define o conteúdo acadêmico e, junto a ele, os conteúdos sociais que ache importantes (como conviver com diferentes ou fazer revezamentos em uma brincadeira) e, a partir daí, concebe seu planejamento. O que eu faço em minhas formações é tentar chamar a atenção para essa questão, para que os professores tentem incorporar os temas relacionados às habilidades sociais ao planejamento do dia a dia. Outra dimensão do trabalho pode estar na criação de novas funções dentro da escola. Algumas instituições americanas já começam a ter o papel do “coordenador de clima”, um educador que trabalha junto ao gestor para incorporar as questões sobre convivência no cotidiano da escola.

Quais materiais o professor pode usar para realizar esse trabalho?
Com crianças pequenas, acredito que a literatura é um recurso importante. Nas práticas de leitura que já fazem parte do planejamento da pré-escola, é possível utilizar obras que tratem de questões de sociabilidade presentes no cotidiano da escola. Fizemos uma pesquisa em escolas urbanas dos Estados Unidos e notamos algumas dessas questões: as diferenças entre meninos e meninas, conflitos sobre a vida na periferia, questões raciais e assim por diante. Pensamos, então, em sugerir livros em que esses temas aparecessem de alguma maneira.

Especialistas em leitura não recomendam que o trabalho com livros se paute na busca por uma moral da história. Como usar a literatura sem cometer esse equívoco?
Ler livremente sem nenhum direcionamento não fará mal a nenhuma criança, mas talvez também não faça tão bem quanto poderia. O professor precisa se preparar: ler o livro e escolher aquele que trata de algo sobre a convivência que ele queira discutir com as crianças. Isso também envolve ter um planejamento e um objetivo específico para a atividade. Com isso pensado, a leitura e a discussão podem ser encaminhadas não de maneira restritiva, dizendo aos alunos “Isso o que você achou está certo” ou “Isso que você achou está errado”, mas dando ênfase a aspectos como a relação do personagem com os outros, os conflitos que ele vive ou as dificuldades que enfrenta. Nesse caso, o professor não pode deixar que a atividade se encerre sem que esses pontos tenham sido discutidos.

Em quais outras situações essa discussão pode acontecer?
O próprio cotidiano escolar é um campo fértil. Há conflitos sociais nas salas de aula o tempo todo. E, na primeira infância, uma das coisas mais eficazes que os professores podem fazer é simplesmente não questionar esses conflitos, mas ajudar as crianças a desenvolver maneiras de resolvê-los. Muitos pequenos já possuem conhecimentos complexos sobre como lidar com essas situações, porque vivem em comunidades em que precisam exercer habilidades sociais complexas. Uma possibilidade de intervenção simples é o professor pedir que, no momento de resolução de conflito, os pequenos tentem deixar de lado as reações naturais – como chorar ou revidar uma agressão – e se esforcem para comunicar, com as palavras, o que estão sentindo. Não é fácil fazer isso, especialmente quando você está triste ou com raiva, mas pode-se começar a construir como um hábito. Uma compreensão profunda dos conflitos envolve usar as palavras exatas para entender o que acontece e devemos estimular isso nas crianças.

Existem situações de conflito impossíveis de serem resolvidas?
Não. Há alguns casos bastante específicos em que pode ser mais difícil compreender o que está acontecendo, principalmente quando a violência ou o isolamento parecem vir do nada. Por exemplo, crianças traumatizadas por situações que passaram na comunidade onde vivem. Às vezes, o incidente disparador parece tão modesto para outras pessoas, mas tem uma reação grave na criança. Nesses casos, a escola deve prestar atenção nessas pessoas e oferecer recursos para que elas se sintam em um lugar seguro.

Fonte: Nova Escola

Robert Selman, professor da Universidade de Harvard (Foto: Veronica Mancini)