Jovem superou paralisia cerebral e conseguiu se formar em Jornalismo

Ana Raquel Mangili sofreu com a falta de profissionais preparados na educação básica e precisou contratar especialistas

por Luis Fernando Toledo

A jornalista Ana Raquel Périco Mangili, de 22 anos, teve todos os motivos para abandonar os estudos. Mesmo em colégios particulares, ela sofreu com a falta de profissionais preparados e precisou contratar especialistas para tarefas básicas – o que deveria ser garantido pela própria escola, segundo a lei –, além de problemas de acesso. Portadora de distonia generalizada – espécie de paralisia cerebral rara, que afeta principalmente o movimento dos braços, e deficiência auditiva –, ela se formou em 2016 em Jornalismo pela Universidade Estadual Paulista (Unesp).

Uma das maiores dificuldades era encontrar escolas que atendessem às suas necessidades na pequena cidade de Barra Bonita, com 35 mil habitantes. “Só havia quatro escolas de ensino médio na cidade”, diz.

Quando finalmente deu início ao ensino médio, a jovem era a única com deficiência em toda a escola. Isso fez com que, muitas vezes, suas demandas fossem ignoradas pela direção e professores. Em um dos casos, solicitou adaptação dos materiais audiovisuais usados em sala, com legendas específicas.

“A escola não fornecia isso. Os professores passavam vídeos sem legendas e só me pediam desculpas. Quando eu ia reclamar, a direção falava que apenas eu era surda na escola inteira e que a demanda não justificava o trabalho. No começo, voltava chorando, porque via apenas as imagens e não entendia os áudios. Sempre foi algo angustiante”, relata.

Fundamental. No ensino fundamental não havia sido diferente. Os pais precisaram custear uma monitora dos 5 aos 13 anos. “O que (a escola) oferecia era uma ajuda das próprias serventes da escola na hora do intervalo. Pela minha pouca mobilidade dos braços, eu preciso de acompanhante em tempo integral. É comum que as escolas se neguem a oferecer este tipo de recurso.”

A situação começou a melhorar ao ingressar no ensino superior, em 2013. Na Unesp de Bauru, a 45 minutos da sua cidade, Ana Raquel conta que havia uma monitora que já a esperava no ponto de ônibus. “As questões de acessibilidade melhoraram muito. Na Unesp, há um grupo de estudos especializado para a produção de legendas. Eles legendavam praticamente todos os conteúdos passados em sala.” Ela também ganhou mesa e cadeira maiores.

Ana Raquel conseguiu até um monitor para um intercâmbio: estudou 21 dias na Universidade de Salamanca, na Espanha, com todas as despesas pagas.

O trabalho de conclusão de curso foi a produção de um site – dyskinesis.com – de notícias e informações para pessoas com distúrbios de movimento no Brasil e pesquisadores do tema.

“Os distúrbios de movimento, por si só, causam apenas algumas limitações no deslocamento e na movimentação necessária para atividades físicas. O potencial humano de cada um transcende essas barreiras, e, para isso, se faz necessário apoio social e de acessibilidade para termos mais igualdade de oportunidades e futuros plenos para todos”, escreve Ana Raquel, no texto de apresentação do seu site.

Fonte: Estadão.Edu