Experiências que fogem do tradicionalismo escolar deram a tônica do último Encontro Mensal do CCE de 2017

Experiências que fogem do tradicionalismo escolar deram a tônica do último Encontro Mensal do CCE de 2017

por Ingrid Vogl

Quem tem coragem transforma. Esta foi uma das mensagens que a última edição do Encontro Mensal do Compromisso Campinas pela Educação deixou como reflexão para os participantes do evento que aconteceu na noite de quinta-feira, dia 30 de novembro, no auditório da Fundação FEAC. O encontro fecha o ciclo de palestras de 2017, que abordaram temas atuais ligados ao cenário educacional.

O evento contou com representantes da escola de educação infantil e ensino fundamental Curumim e da Escola Estadual Manoel Alexandre Marcondes Machado. Os educadores compartilharam suas vivências pedagógicas inovadoras que fogem do tradicional e participaram da discussão com o público presente sobre possíveis caminhos a serem trilhados para vencer desafios em busca de uma educação com mais qualidade.

Freinet

A escola Curumim tem seu projeto pedagógico inspirado na obra do educador francês Célestin Freinet novaescola.org.br/conteudo/1754/celestin-freinet-o-mestre-do-trabalho-e-do-bom-senso , que defende que o ambiente político e social ao redor da escola não deve ser levado em conta e integrar o plano pedagógico escolar.

Na Curumim, a organização do espaço físico incentiva a interação entre as crianças, que têm o trânsito livre entre espaços internos e externos da escola. O contato com a natureza é, para a escola, condição imprescindível para propiciar às crianças uma formação que as sensibilize para a beleza e para a vida, na sua riqueza e diversidade.

Segundo Gláucia Ferreira, diretora da Curumim, a escola tem o trabalho pedagógico pautado em três eixos:  a cooperação, autonomia e livre expressão. A inclusão também é assunto sério e amplamente trabalhado na comunidade escolar. “Temos muito orgulho de praticar a inclusão e levar todos os alunos desde os primeiros anos até o último. Isto é um ponto de honra para nós, pois um dos maiores desafios é justamente não excluir os que têm mais dificuldades e ajudá-los a terem bons rendimentos no processo de ensino e aprendizagem”, explicou.

Gláucia ainda ressaltou que mesmo com a liberdade dos alunos de escolherem o que querem trabalhar nas aulas, os conteúdos curriculares não são deixados de lado. “Nossos alunos saem do 9º ano e têm bons resultados em exames, mas acima de tudo, desenvolvem aspectos cidadãos, como a socialização, são críticos, sabem dialogar, são organizados e trabalham cooperativamente”, enumerou a diretora. A escola recentemente entrou para o Mapa da Inovação e Criatividade da educação Básica, do Ministério da Educação.

Inovação com criatividade

Representando a rede estadual de ensino de Campinas, os educadores da Escola Estadual Manoel Alexandre Marcondes Machado abordaram os desafios e caminhos trilhados para desenvolver uma educação inovadora e de qualidade.

Para Adriano Rolindo, diretor, o maior desafio na escola pública é conseguir inovar dentro de um sistema tradicional, enfrentando as contingências da rede e os problemas estruturais do ensino público no Brasil. A maneira como a equipe da escola conseguiu vencer esse desafio foi ganhando a confiança da comunidade do entorno da escola, por meio de um trabalho pedagógico eficaz e de qualidade.

Segundo o diretor, quanto maior a qualidade da relação ensino e aprendizagem na escola, maior a possibilidade de estabelecer vínculos de confiança e aproximação com a comunidade. “Na escola pública não se consegue nada sozinho. Por isso buscamos a parceria das famílias, dos funcionários e de toda a comunidade do entorno”, disse Adriano, que trouxe como um dos exemplos o ateliê de artes que foi construído com verbas de festas organizadas com a ajuda da comunidade e que foram recursos poupados ao longo de seis anos.

O ponto de inovação da escola estadual está justamente focado na cultura e arte. Por meio do programa Mais Educação, do Ministério da Educação portal.mec.gov.br/programa-mais-educacao, a escola buscou sua rota para fugir do tradicionalismo e oferece, no contraturno, aulas de dança, música e teatro. “Buscamos no que é oferecido pela rede pública, a criatividade para desenvolver ações de impacto na aprendizagem dos alunos”, disse Adriano.

Significado

Jun Hosotani, professor de dança e arte educador, é um dos oficineiros do Mais Educação na escola. Segundo ele, o processo criativo em dança, música e teatro é trabalhado na escola. E após três anos de desenvolvimento, chegou-se a um processo interdisciplinar das três modalidades de arte.

Trabalhando com criação e improvisação, as crianças se descobrem, socializam, criam vínculos entre os pares e desenvolvem valores como o respeito dentro da comunidade escolar que impactam também no processo de ensino e aprendizagem. “Minha preocupação é justamente desenvolver algo sincero e honesto com as crianças, e isso não está necessariamente ligado a beleza estética, mas sim com o bem-estar e o autoconhecimento”.

Inspirar para mudar

Após a apresentação da experiência das escolas inovadoras, houve um amplo debate sobre o tema com os presentes. Marina Begali Carvalho, estagiária em escola de educação infantil, participou pela primeira vez do Encontro Mensal e saiu interessada em estudar sobre a obra de Célestin Freinet. “Esta discussão é super importante, porque a gente quer mudança, mas não sabe por onde começar e o que fazer para sair desse modelo tradicional. Mas mesmo com as condições desfavoráveis, a gente vê exemplos aqui de que é possível acontecer”, afirmou.

Ana Aparecida de Souza Garbin, mãe de aluno, acompanhou tudo com interesse. “Ouvir essas experiencias causa um rebuliço interno, porque tenho um incômodo grande por conta da dificuldade de encontrar uma escola em que eu confie e que vá educar meu filho para a vida, e não simplesmente para passar em exames. Muitas vezes me sinto desmotivada por achar que essa escola idealizada não existe, mas quando vejo movimentações como essa sinto que há sim um caminho para a inovação. Para mim, participar do Encontro Mensal foi inspirador, como um sopro de esperança na educação”, concluiu.

A série de Encontros Mensais será retomada no primeiro trimestre de 2018 com assuntos relevantes do atual cenário educacional. Os temas a serem tratados devem nortear os eventos a serem planejados para a 9ª Semana da Educação de Campinas, que está planejada para a segunda quinzena de agosto.