Experiência em grêmio escolar abre caminho para a participação cidadã

Experiência em grêmio escolar abre caminho para a participação cidadã

Estudante conta como o envolvimento em atividades da escola incentivaram sua atuação em causas em prol do meio ambiente e da defesa dos direitos humanos

por Marina Lopes,

Em 2013, no mesmo ano em que milhões de jovens brasileiros foram às ruas para defenderem seus direitos, Sávio Campos de Souza, 15, viu crescer dentro da escola um movimento de protagonismo e participação dos estudantes. Atendendo prontamente ao convite de cartazes espalhados pela Escola Municipal de Ensino Fundamental Desembargador Amorim Lima, em São Paulo (SP), ele se juntou a outros colegas para reativar o grêmio escolar.

Quando estava no sexto ano, mesmo sem ainda saber como funcionava um grêmio, Sávio decidiu a abraçar a ideia de três estudantes do oitavo ano e começou a frequentar as reuniões. “No começo, estava todo mundo que nem eu. Ninguém sabia o que era de fato montar um grêmio”, lembra.

A insegurança durou pouco tempo, até um professor se oferecer para ajudar a estruturar o grupo, que era composto por cerca de vinte alunos. “Fizemos várias atividades e tentamos nos organizar como ele tinha sugerido. Tinha presidente, secretário, tesoureiro, ministro do esporte, entre outros. Mas, na verdade, percebemos que tudo isso não tinha nada a ver. Isso dava uma ideia de hierarquia, mas nós queríamos que todo mundo tivesse no mesmo nível.”

A primeira atividade do grêmio surgiu após uma consulta escolar. Sávio e os colegas fizeram uma caixa e pediram para os estudantes colocarem sugestões de melhorias. Entre ideias variadas, que foram da instalação de uma piscina até a construção de uma casa na árvore, eles identificaram propostas que poderiam ser colocadas em prática. Foi aí que surgiu a demanda de organizar o período do intervalo.

Com a pesquisa, eles perceberam que muitos colegas reclamavam de não conseguir usar a quadra durante o recreio. “O que acontecia era que os alunos do nono ano dominavam a quadra para jogar futebol todos os dias. Então chamamos o pessoal e discutimos como seria essa divisão. Também tinha gente que queria jogar outras coisas, como basquete ou vôlei”, explica, ao contar que o grêmio também ajudou a arrecadar recursos para comprar novas bolas para a escola.

No segundo ano da sua experiência com o grêmio escolar, Sávio precisou lidar com o desafio de unir os estudantes da manhã e da tarde, que pouco interagiam entre si. “A ideia era integrar os dois grupos para conseguir maior representatividade”, diz o estudante, que chegou a visitar outras turmas junto com os colegas.

Superadas as rivalidades, ainda no segundo ano de grêmio, os estudantes foram convidados por uma professora para participar de um fórum regional dos direitos da criança e do adolescente. “Naquela época, estava sendo debatida a redução da maioridade penal. Começamos a levar essas discussões para dentro da escola, mas percebemos que poucos alunos conheciam o ECA (Estatuto da Criança e do Adolescente). Passamos de sala em sala para falar sobre isso e organizamos muitas rodas de conversa.”

Com os estudantes mais mobilizados, o grêmio também começou a ocupar espaços de representação dentro da escola. Marcando presença em reuniões do Conselho Escolar, eles chegaram até a sugerir mudanças em atividades, como a tradicional festa da cultura, que a pedido dos alunos teve cinema como um dos seus temas. “Eu comecei muito tímido. Tinha bastante dificuldade para falar, porque não era muito normal discutir com os adultos”, diz o jovem, ao relembrar das suas primeiras experiências como representante discente nas reuniões do conselho.

Envolvidos com fóruns e espaços de debate, Sávio conta que ele os colegas começaram a perceber que outras escolas da região não tinham tanta representatividade dos jovens. “Poucas tinham participação dos estudantes e um conselho escolar ativo. Pensando nisso, tivemos a ideia de fazer um fórum estudantil para ajudar a fundar grêmios em outras escolas”, conta.

Com a ajuda de professores, eles entraram em contato com outras escolas do bairro e chegaram a reunir representantes de cerca de dez delas em uma primeira reunião. “Nosso objetivo era ampliar a participação dos estudantes na região e discutir o Estatuto da Criança e do Adolescente. No decorrer das reuniões, surgiram projetos com várias escolas, todas colaborando para conseguir recursos de forma coletiva.”

Toda a experiência, adquirida no grêmio durante o ensino fundamental, fez com que Sávio levasse as ideias de participação e protagonismo para o ensino médio. No entanto, ao entrar no Instituto Federal de São Paulo para cursar técnico em eletrônica, ele percebeu que a cultura de envolvimento dos estudantes não era tão presente no dia a dia escolar. “Foi um impacto muito grande para mim. Os estudantes da minha classe não tinham passado por muitas experiências de participar de debates.”

Para mudar essa realidade, logo no primeiro ano, ele convidou alguns colegas para desenvolver um projeto em um concurso de voluntariado. Desse envolvimento, eles criaram o projeto Flora Móvel, que espalhava flores pelos corredores em tons de cinza da escola. “Nós passávamos nas salas com um carrinho cheio de flores. Deixávamos no corredor até alguém ficar curioso e perguntar sobre o projeto.” A ideia evoluiu e se transformou em um projeto de horta escolar. “A horta conseguiu efetivar um espaço de diálogo entre os estudantes. Nós usamos ela como um pretexto para discutir sobre educação.”

Hoje, no segundo ano do ensino médio, Sávio diz perceber que também pode se envolver na mudança de outras instâncias de participação fora da escola. Como exemplo, ele cita a construção do Plano Estadual de Educação em Direitos Humanos de São Paulo, a qual está acompanhando as audiências públicas. “Nesses espaços costuma só ter eu de jovem. Isso é meio complicado”, lamenta, ao desejar que mais estudantes possam se envolver na mudança da educação.

Fonte: Porvir