Escola do projeto Âncora inspira educação onde alunos autônomos são sujeitos de aprendizagem

Escola do projeto Âncora inspira educação onde alunos autônomos são sujeitos de aprendizagem

Ingrid Vogl

Uma escola encantadora e que foge dos padrões, onde não há divisões de alunos por séries e idades e nem salas de aula, mas sim ambientes de aprendizagem com vista ao jardim que circunda todo o terreno. Um verdadeiro convite à inspiração e criatividade.

Esta é a primeira impressão logo que se chega à escola do projeto Âncora, em Cotia/SP. Mais adiante, durante a visita feita no último 13 de dezembro por um grupo convidado pela equipe do Departamento de Educação da Fundação FEAC, foi possível perceber que na prática inovadora que a escola desenvolve, o foco da aprendizagem não está no conteúdo. O objetivo é o desenvolvimento das habilidades e competências de cada uma das 160 crianças e adolescentes que frequentam diariamente a escola.

Inspirada na Escola da Ponte de Portugal , a iniciativa que teve início em 2012 preza pela autonomia dos educandos e tem como ideal que a criança seja sujeito de seu próprio aprendizado. A escola possui três núcleos: iniciação, desenvolvimento e aprofundamento, pelos quais os alunos passam e participam de acordo com a evolução não só de aprendizagem, mas também de autonomia de cada um.

“Aqui o currículo é subjetivo, ou seja, cada aluno tem seu próprio roteiro de aprendizagem de acordo com seu interesse, porque cada um chega ao conhecimento de forma diferente.  Não há limite de aprendizado. Temos uma aluna de 10 anos, por exemplo, que já possui conhecimentos em química que normalmente são tratados na faculdade. Isso porque ela se empenha, pesquisa e por isso seu projeto já está muito avançado”, exemplificou João Paulo Santa Bárbara, educador do Âncora.

A partir do tema escolhido, é o educador quem vai elaborar o roteiro de atividades, que englobam as habilidades e competências a serem desenvolvidas pelos educandos. O roteiro tem um período de tempo estipulado para ser cumprido, e com o desenvolvimento do aprendizado, acontece também a evolução do aluno por meio dos núcleos. Tudo isso é avaliado constantemente pelos educadores, que ao fim dos semestres, entregam relatórios aos familiares dos educandos, contendo avaliações sobre o desempenho e comportamento de cada um deles.

Mais do que a preparação para provas de vestibular, o que se espera é que os alunos do Âncora saiam de lá cidadãos integrais e integrados, prontos para buscarem suas metas de vida, seja ela acadêmica ou não. “A criança precisa saber o que ela precisa aprender. Dessa maneira, é ela mesma quem busca seu próprio aprendizado”, disse João.

O fortalecimento das relações interpessoais, inclusive com a comunidade, é outra questão valorizada pela escola. Por meio da associação de pais, a comunidade ajuda a cuidar da escola, desde a recepção de visitantes, até por meio de serviços, como pinturas, restaurações e trabalho voluntário no dia a dia escolar.

Todos juntos

Outro diferencial é a maneira como os professores são inseridos na comunidade escolar e o fato da formação ser feita de maneira prática. “Aqui invertemos o processo: vamos da prática à teoria. Em breve, será feita uma publicação sobre as boas práticas desenvolvidas no Âncora”, disse João.

A formação acontece também de forma constante no cotidiano escolar, já que para a elaboração dos roteiros de cada um dos educandos, os educadores precisam estudar e pesquisar sobre os temas escolhidos. Cada profissional que está desenvolvendo um roteiro que aborda história, por exemplo, não tem necessariamente a expertise da área.

Outro ponto que chamou a atenção foi a maneira como acontecem os processos seletivos para a contratação dos profissionais. Além dos educadores e quadro administrativo da escola, alunos e funcionários participam do grupo que irá escolher os novos membros da equipe. “Ouvimos representantes de toda a comunidade escolar e a opinião deles sempre é considerada e muitas vezes, definitiva”, explicou João.

Para Alessandra Fiorini, assessora técnica do Departamento de Educação da FEAC, algo que chamou a atenção durante a visita foi o fato da escola entender que não é autossuficiente. “Se o professor não tem todas as competências e habilidade para tutorear o aluno, para eles isso não é um problema, pois é feita uma busca desse conhecimento. Há nisso uma mobilidade profissional, algo que se dá organicamente. A lógica é: não sei tudo, tenho uma contribuição maior em determinada área e as outras coisas vou aprender. Essa ideia de um sistema mais vivo e orgânico é possível: entender que de fato não precisa ter essa dicotomia de teoria e pratica”, analisou.

Leia Gasparini, também assessora técnica do Departamento de Educação da FEAC, chamou a atenção para a preocupação da escola de fazer com que os profissionais que ali atuam, entendam a filosofia do ambiente de trabalho. “Não basta apenas ter a competência técnica. Além de ser escolhido pelos membros da comunidade escolar, antes da intervenção direta com os alunos, é preciso viver, entender e aceitar essa filosofia que permeia o dia a dia da escola”, observou.

Após a visita às instalações da escola, liderada pelos próprios educandos, houve a roda de conversa com alunos e o educador João para que as dúvidas dos visitantes fossem esclarecidas. Na volta para Campinas, os visitantes estavam com a cabeça cheia de novas ideias possíveis de serem praticadas em seus ambientes educadores.

“É possível fazer a educação de uma maneira diferente do que vemos hoje. Trabalho com educação social e a gente sempre pensa que a educação não pode ser dividida em formal e não formal, porque é educação e todos são responsáveis. O que precisamos é criar, como acontece no Âncora, estratégias para potencializar as habilidades e competências das crianças e adolescentes. A impressão é que aqui eles vivem a educação, e isso é fundamental. Eles escolhem projetos e constroem conhecimento, e isso faz sentido para eles. Dessa forma, os educandos têm consciência do que a escola significa e eles querem estar aqui, sem imposições. Então, é super possível levar essa ideia para o local de trabalho e para as relações interpessoais”, ressaltou Talita Troleze, educadora social.

A visita ao projeto Âncora foi programada após realização do Encontro Mensal que aconteceu em outubro na Fundação FEAC. Na ocasião, educadores e educandos do projeto Âncora estiveram presentes e relataram um pouco da experiência inovadora da escola para um público que saiu inspirado.

Projeto Âncora

O Projeto Âncora é uma Associação Civil de Desenvolvimento Social, de fins não econômicos, criada há 22 anos com o objetivo de melhorar a realidade de crianças e adolescentes de baixa renda de Cotia/SP e região, por meio de experiências educacionais, culturais, artísticas e esportivas que complementam o ensino escolar.

Em 2012, o Projeto Âncora inaugurou uma escola com uma inovadora filosofia educacional, inspirada na Escola da Ponte de Portugal. Atualmente, são oferecidos gratuitamente a educação infantil, ensino fundamental e médio a 160 alunos.

Encontros Mensais

Com o objetivo de evidenciar e promover debates e reflexões sobre temas atuais e relevantes da área educacional, os Encontros Mensais promovidos pelo Departamento de Educação da FEAC já se tornaram referência para o público que prestigia o calendário de palestras voltadas ao tema e causa Educação.

Educadores e demais interessados são presenças constantes nos Encontros, que são realizados geralmente na última quinta-feira de cada mês. O evento é gratuito e aberto ao público. Em 2018, os Encontros devem ser retomados no primeiro trimestre do ano.

 Saiba mais sobre o Projeto Âncora: https://www.projetoancora.org.br/