Ensino Médio de escola pública limita sonhos e dificulta o futuro da maioria dos jovens em situação de vulnerabilidade

Ensino Médio de escola pública limita sonhos e dificulta o futuro da maioria dos jovens em situação de vulnerabilidade

Claudia Corbett

Na cidade de Campinas/SP, cerca de 11.500 jovens estão fora da escola. São 25% de 46.135 da população de 15 a 17 anos que deveria estar cursando o Ensino Médio em escolas públicas.

Esta realidade está espalhada por todo o Brasil. Uma evasão que chega a 62% e afeta diretamente jovens de baixa renda. O desinteresse pelo estudo está motivado pela baixa qualidade do ensino e por um currículo, especialmente do Ensino Médio, com pouca flexibilidade e com um conteúdo longe da realidade de seus alunos.

Para Priscila Cruz, presidente executiva do movimento nacional Todos Pela Educação, esse número de adolescentes sem matrícula é preocupante. “Para que a nossa Meta 1 (98% das crianças e jovens entre 4 e 17 anos na escola até 2022) seja atingida no prazo que foi determinado em 2006, ano de sua criação, seria preciso atrair de volta para a escola cerca de 1,5 milhão de jovens. Trazer esses alunos para o ambiente escolar requer mudanças profundas no Ensino Médio, tornando-o mais flexível, atraente e com a possibilidade de dar ao jovem o protagonismo que ele almeja”. Ela ainda completa que para isso, a Reforma do Ensino Médio, sancionada em fevereiro de 2017, deve ser implementada de maneira plena e transparente, sem esquecer da infraestrutura escolar e da formação dos professores como dois pontos primordiais nesse processo.

Rafaela Obrownick Lopes, 15 anos, que cursa o segundo ano do Ensino Médio, na Escola Estadual José Maria Matosinho em Campinas, reforça. “O currículo escolar é algo que desagrada os jovens. Muitas vezes não enxergamos conexão do que está sendo dito em sala de aula com o mundo real e com os problemas que enfrentamos no cotidiano, isso desestimula”. A adolescente ainda sugere mudanças. “As aulas deveriam ser mais dinâmicas e interativas”.

“Precisamos que os professores tenham liberdade de fazer algo diferente do que é imposto. Para falar de barroco, por exemplo, deveriam montar um teatro com os alunos e com isso descobrir se eles têm um talento com expressões”, sugere a jovem. Rafaela enfatiza que a questão financeira e social também é um agravante. Muitos jovens moram longe dos locais onde as escolas estão localizadas e não têm dinheiro para o transporte diário.

“Em 2015, dado mais recente que temos disponível, apenas 58,5% dos jovens concluíram a etapa até os 19 anos, de acordo com a Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (Pnad)”, constatou Priscila Cruz. Neste ritmo, segundo a presidente executiva do Todos Pela Educação, atingir a Meta 4, cujo objetivo é que, até 2022, todo jovem tenha concluído o Ensino Médio até os 19 anos, não será possível, uma vez que haverá a necessidade de políticas públicas eficientes e focadas na solução de casos como evasão, abandono, reprovação e repetência escolar.

A maioria dos jovens é incentivada pela família a trabalhar. Majori Nascimento, 18 anos, tem uma rotina de vida corrida. Durante todo o dia ela trabalha como contadora de histórias na biblioteca da Escola Estadual Orlando Carpino, em Campinas, local onde também cursa, no período da noite, o terceiro ano do Ensino Médio. “Por mais que se tenha motivação é cansativo. É complicado trabalhar, estudar e ainda tocar um projeto de vida. Mas a gente tem que pensar que se estudar mais, lá na frente conseguimos não só termos mais, mas sermos mais e ainda poderemos contribuir e, quem saber, mudarmos esta situação. Eu sempre quis ajudar nesta mudança, mas não sabia como”, comentou.

Marjori acredita que o que ´vira a chave´ na vida de um jovem é sempre um empurrão que pode vir de vários lugares e de várias formas. “Mas a gente tem que estar de coração aberto. Tem muita gente querendo incentivar os jovens e muitos não conseguem compreender”, admite. Em 2016, Marjori participou do programa Brasilitas da Universidade de Harvard, dos Estados Unidos. Inscreveu seu projeto de Contação de Histórias e ficou entre os dez jovens brasileiros escolhidos. Sua viagem só foi possível com uma vaquinha virtual. Em Harvard, com o apoio dos colegas, fez do seu projeto duas oficinas: uma de contação de histórias para crianças e outra na qual compartilha a técnica com os professores.

Caminhos a percorrer

Para vencer todas as barreiras não basta apenas promover as mudanças na etapa estabelecida pela MP 746/2016, que implementa nas escolas o ensino em tempo integral. “O Ensino Médio é apenas a ponta de um enorme iceberg. Desde os primeiros anos da escolaridade, os estudantes são submetidos a situações de defasagens de aprendizagem que contribuem para que eles evadam e repitam de ano. Um dos fatores que contribuem para isso é a realidade socioeconômica dos estudantes, que tem impacto direto na trajetória escolar deles. Por isso, é imprescindível que a melhoria da gestão e o aumento do investimento em Educação – tema da Meta 5 do Todos Pela Educação – estejam comprometidos com as crianças e adolescentes mais vulneráveis, com o objetivo de equilibrar as disparidades que acompanham as dimensões econômica, cultural, de gênero, étnico-racial e territorial existentes no Brasil” explana a presidente executiva do Todos Pela Educação.

Desafio do começo ao fim

“O Ensino Médio é um grande desafio e passar por ele já é uma conquista”, acredita Thaianne Souza Santos, 19 anos, moradora da comunidade de Brás de Pina, que está no primeiro semestre do curso de biologia na Universidade Federal do Estado do Rio (Unirio). ” Se a gente não tiver uma ajuda de professores ou de pessoas que enxergam o que estamos passando nas escolas públicas não conseguimos cursar uma Universidade. Hoje, posso comprovar por uma outra perspectiva como o currículo do Ensino Médio é precário, estou sentindo a diferença em relação às outras pessoas que cursaram escolas particulares. Então, nada garante que eu vou continuar, mas eu vou tentar e quem sabe ainda chegar à presidência do Brasil”, enaltece.

Priscila Cruz aponta ainda que para avançar nos indicadores e, consequentemente, na busca de uma Educação equânime e de mais qualidade, não se pode esquecer do Plano Nacional de Educação (PNE). “Com 20 metas e 254 estratégias, este plano olha a Educação Básica do País de maneira integral. É por meio desse instrumento que o País poderá garantir a expansão do atendimento de adolescentes e jovens no Ensino Médio e assegurar a qualidade do ensino em todas as etapas”, conclui.

Thaianne é um dos personagens do recém lançado longa-metragem ‘Nunca Me Sonharam’. O documentário, idealizado pelo Instituto Unibanco, retrata os desafios, as expectativas para o futuro e sonhos de quem vive a realidade do Ensino Médio nas escolas públicas de todo o Brasil. “Fui convidada a dar um depoimento, quando participava de um projeto realizado pela instituição, na escola José de Souza Marques, na cidade do Rio de Janeiro”.

Em relatos quase desabafos, alunos falam sobre o que enfrentam no dia a dia, suas expectativas para o futuro e sonhos que contrapõe à realidade vivida nas escolas. As imagens e falas registradas, nos 80 minutos do filme, mostram uma oferta de educação pública que nada tem a ver com o que prega o artigo 25 da Constituição Federal Brasileira – um direito de todos e dever do Estado. “Ver o filme pronto foi uma surpresa muito grande. Ele ficou muito real, as respostas no Nordeste, no Norte ou no Sul, por exemplo, são muito semelhantes às nosso aqui do Rio de Janeiro. Ao assisti-lo senti uma mistura de sentimentos: felicidade por achar que pode acontecer uma mudança e tristeza por ver que é uma realidade tão comum para todos os jovens”, confessou Thaianne.

Em entrevista recente ao jornal Valor Econômico, Ricardo Henriques, superintendente executivo do Instituto Unibanco, alerta que o futuro dos jovens corre o risco de estar fadado a um quadro irreversível de trabalho informal, pobreza e falta de repertório para mudar a realidade, situação que ele denomina como ‘limbo’.

Sessão de Cinema

O documentário ‘Nunca me Sonharam´ está disponível gratuitamente para exibição coletiva pela Videocamp (http://www.videocamp.com/pt/movies/nuncamesonharam). A ideia é envolver cada vez mais pessoas de diversas áreas da sociedade em uma reflexão sobre o valor da Educação no Brasil. Uma sessão do documentário está programada para a tarde de 04 de outubro, quando se encerra a 8ª Semana de Educação de Campinas, que começa em 28 de setembro.