Enem: quais as dificuldades que os surdos enfrentam na Educação brasileira?

Enem: quais as dificuldades que os surdos enfrentam na Educação brasileira?

Tema da redação da prova de domingo fala sobre a importância da inclusão educacional dos estudantes surdos

por Caroline Monteiro

Mais de 4 milhões de estudantes tiveram que pensar sobre as dificuldades da inclusão educacional de pessoas com deficiência auditiva no Brasil. O assunto foi tema da prova de redação do Exame Nacional do Ensino Médio (Enem) aplicado neste domingo (5). Segundo o Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (Inep), a escolha do assunto foi uma forma de estimular o debate sobre as necessidades que essas pessoas têm ao longo de sua trajetória escolar e sinalizar para toda a sociedade a importância das políticas inclusivas.

Os textos motivacionais, usados para dar uma base para os candidatos escreverem a dissertação, traziam informações sobre as leis brasileiras que garantem Educação para todos os cidadãos, mas ponderavam mostrando que o acesso ao sistema educacional e ao mercado de trabalho ainda é precário.

A escolha de falar sobre uma deficiência única, e não de deficiências de forma geral, mostra que é preciso pensar na diversidade existente dentro do público com necessidades específicas e que pensar em inclusão como algo único não é o bastante. A comunicação, por exemplo, é um dos grandes desafios enfrentados pelas pessoas com deficiência auditiva. Dessa dificuldade surgem os problemas de evasão escolar e baixo acesso ao Ensino Superior e ao mercado de trabalho. E quando se fala em comunicação, é preciso pensar na importância da Língua Brasileira de Sinais (libras), reconhecida como segunda língua oficial no país desde 2002 de acordo com a lei 10.436/2002.

Mas, neste ponto, surgem duas novas questões. A primeira é que muitas pessoas que usam libras não se alfabetizaram em Língua Portuguesa. Por isso, não sabem ler ou não conseguem entender cem por cento o contexto de materiais escritos. É aqui que entra a importância de iniciativas como a videoprova usada pelo Enem para o público surdo. Cerca de 1600 candidatos tiveram acesso a um computador com vídeos traduzindo para libras os textos, perguntas e alternativas da prova, em conjunto com o caderno de questões impresso.

A segunda questão é que a disseminação da libras não é suficiente para incluir os surdos no sistema educacional, porque nem todos utilizam a língua. Algumas pessoas, por exemplo, usam leitura labial, aparelho auditivo ou implante e precisam de outras estratégias para se expressarem e se comunicarem.

Essa consciência é importante para que as escolas não pensem em soluções únicas na hora de fazer a inclusão. “Quando falamos da Educação para pessoas surdas, logo associamos à disponibilidade de intérpretes de libras. Mas nem toda pessoa surda conhece a língua”, diz Aline Santos, coordenadora do projeto Diversa, uma plataforma colaborativa criada pelo Instituto Rodrigo Mendes (IRM) que pensa a Educação inclusiva na prática e pode ser usada para professores compartilharem dúvidas e experiências sobre inclusão. Segundo Aline, é preciso entender como as pessoas surdas se comunicam para então poder pensar na diversificação das estratégias de aprendizagem.

Iniciativas inclusivas garantem Educação para todos

“O que a gente faz para os surdos, a gente entrega para outras pessoas”, diz Aline, que destaca a importância da inclusão em escolas regulares, e não em instituições exclusivas para pessoas com a deficiência. Quando uma escola repensa as ferramentas de ensino para pessoas com deficiência, ela deve considerar também que algumas iniciativas são úteis e importantes para os outros alunos. “A libras, por exemplo, pode ser usada como estratégia de comunicação e de expressão por outras crianças que têm dificuldade de oralização, como as que têm autismo, por exemplo”, diz a especialista.

A mesma lógica funciona para os recursos visuais, que podem auxiliar outras crianças. Escrever na lousa ou disponibilizar imagens pode complementar o aprendizado daqueles que não escutam. É importante também que os professores estejam atentos à estrutura da sala e à sua própria postura. “Quando o professor fala de costas, virado para o quadro, aquele aluno que faz leitura labial sai perdendo. Distribuir a classe de forma que todos se vejam aumenta a possibilidade de interação de toda a turma”, diz Aline.

Quando se pensa nessa variedade, fica mais fácil planejar estratégias mistas, como o uso de um vídeo com tradução para libras e também com legenda. É importante pensar nessa mutualidade. “Tudo que é sonoro, precisa de um recurso visual complementar. O sinal da escola é apenas um barulho, então é necessário algo visível para sinalizar que a aula terminou ou começou”, explica Aline.

Mesmo que a escola tenha uma série de estratégias, fica difícil antecipar todos os recursos para acolher os alunos surdos. “A escola só vai saber o que o aluno precisa quando ele chegar, porque cada pessoa tem uma especificidade”, diz Aline. Por isso, é tão importante ter um canal aberto e uma disposição para acolher e incluir. “Só o convívio vai dizer. E a pessoa precisa participar da construção. Não é fazer algo por elas, é fazer com elas. É importante estar aberto, inclusive para errar e depois consertar os erros”, diz.

A importância do tema do Enem

Citado nos textos motivacionais, o Instituto Nacional de Educação de Surdos (Ines), órgão ligado ao Ministério da Educação, afirmou que a escolha do tema em uma prova como o Enem representa uma conquista. “A dificuldade que muitos estudantes relataram em abordar a questão na redação só reforça a necessidade de se debater publicamente a inclusão e o acesso das pessoas surdas a uma Educação de qualidade, à cidadania plena”, disse o diretor geral, Marcelo Cavalcanti.

Para Aline Santos, da Diversa, essa é uma maneira de tirar a invisibilidade do assunto e fazer a sociedade encarar que as pessoas com deficiências são sujeitos integrais que podem ser o que quiserem, desde que haja igualdade de oportunidades em diferentes setores.

Fonte: Nova Escola