EJA oferece alfabetização de olho no mercado de trabalho

EJA oferece alfabetização de olho no mercado de trabalho

Ingrid Vogl

Com a atenção toda voltada para o professor Wagner Alvares em uma sala de aula da Emef Padre Leão Vallerie, os alunos aprendem sobre administração financeira em uma noite quente de verão. Com as mais diversas experiências de vida, os jovens e adultos que aceitaram o desafio de retomar os estudos, recebem informações sobre o mercado de trabalho e são alfabetizados por meio do programa EJA Profissões (Educação de Jovens e Adultos), da Fundação Municipal para Educação Comunitária (FUMEC).

Na sala de aula com cerca de 20 alunos com as mais variadas idades, a professora Monica Aparecida Queiroz, há mais de 21 anos lecionando no EJA anos iniciais (1º ao 5º ano), trata dos componentes curriculares a partir de assuntos relacionados ao cotidiano e à realidade dos alunos. “Trabalho temas relacionados ao interesse dos alunos. Pode ser sobre o mercado de trabalho, terceira idade, direito do consumidor, violência contra a mulher. A partir do relato das experiências dos alunos, as disciplinas também podem ser trabalhadas. As aulas sempre são dinâmicas”, explicou a professora.

Para compor os encontros de alfabetização da EJA Profissões, a cada 15 dias as salas recebem uma oficina relacionada ao mercado de trabalho, que são ministradas por diferentes profissionais. Os assuntos tratados permeiam temas como direito trabalhista, administração de finanças, saúde, dicas para elaborar o currículo, entre outros, e as temáticas das palestras dialogam com os conteúdos das disciplinas. Segundo a gestora dos Programas de Educação de Jovens e Adultos da FUMEC, Marinalva Cuzin, as oficinas têm como objetivo dar uma visão geral dos principais assuntos relacionados à educação profissional para que os alunos se qualifiquem para terem mais oportunidades no mercado de trabalho.

As aulas da EJA acontecem de segunda a sexta-feira, das 19h às 21h30 e os professores trabalham em salas multicicladas –onde alunos de diferentes ciclos de aprendizagem estudam juntos. A cada semestre, uma avaliação é feita para saber se os alunos avançam para as próximas fases de aprendizagem. Um semestre da EJA equivale a um ano do ensino fundamental regular, mas o tempo de permanência na sala de aula para a conclusão do semestre depende da evolução de cada aluno.

Ações da EJA

A EJA Profissões é uma das frentes da FUMEC no trabalho de alfabetizar jovens e adultos. Outras ações da Fundação são o Programa de Apoio à Alfabetização, que visa dar reforço escolar de língua portuguesa e matemática a alunos dos 1º aos 9º anos do ensino fundamental regular; o Consolidando a Escolaridade, que tem como objetivo o atendimento a jovens e adultos que já possuem certificado do ensino fundamental e ou médio, mas apresentam dificuldades em português e matemática; e a Educação Ampliada ao Longo da Vida, que tem como principal foco alunos não alfabetizados, com idade acima de 15 anos e que apresentam algum tipo de limitação intelectual ou mental.
O trabalho da FUMEC está em consonância com a Meta 10 do Plano Municipal de Educação de Campinas (PME), que prevê o oferecimento de pelo menos 25% das matrículas da EJA de forma integrada à educação profissional.

Campanha

Atualmente, a Fundação desenvolve a Campanha Municipal para a Erradicação do Analfabetismo em Campinas, que pretende incentivar jovens e adultos analfabetos a voltarem às salas de aula.

A Campanha está em sua 4ª edição e desde 2013, teve um salto de 140 novas matrículas para 1419 novas matrículas no ano passado. “Temos trabalhado anualmente em torno de 3100 alunos matriculados e com 140 professores para os programas de EJA em 160 classes distribuídas nas cinco regiões de Campinas”, afirmou a diretora executiva da FUMEC, Darci da Silva.

De acordo com Censo divulgado em 2010 pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), Campinas era a 5ª cidade com os menores índices de analfabetos ou pessoas com baixa escolaridade entre os 14 municípios com mais de um milhão de habitantes do Brasil. Há sete anos, eram mais de 28 mil habitantes com mais de 15 anos, que corresponde a 3,26% da população, que não sabiam ler e escrever.

“Queremos sair do 5º lugar com menores indicadores de analfabetos absolutos do censo de 2010 para em 2020 chegarmos nos dois primeiros lugares, e assim cumprir antecipadamente a meta da erradicação prevista nos Planos de Educação, com prazo para 2025”, enfatizou Darci.

EJA nas redes

A continuidade dos estudos da EJA é de responsabilidade da Secretaria Municipal de Educação, que desenvolve a EJA II (anos finais do ensino fundamental – 6º ao 9º ano). Já a rede estadual de ensino é responsável pelo oferecimento da EJA dos anos finais do ensino fundamental e ensino médio. O governo do Estado também possui a EJA Mundo do Trabalho, coordenada pela Secretaria de Desenvolvimento Econômico, Ciência e Tecnologia, que em parceria com a Secretaria de Estado da Educação oferecem educação profissional.

Planos de estudo

Juraci Ribeiro Lourenço, Claudivan Pereira da Silva e Josué Coelho da Silva são alunos que voltaram à sala de aula recentemente. Com histórias de vida diferentes, os três têm um plano em comum: dar continuidade aos estudos. Após sofrer um acidente no trabalho, Claudivan, 43 anos, foi incentivado a frequentar, pela primeira vez em sua vida, a escola. “Nunca estudei, vim para a EJA em 2015 e hoje já escrevo muita coisa, mas eu gosto mesmo é de matemática. Antes eu não conseguia nem me localizar quando saía de casa, porque não lia nada, mas já estou independente sobre isso”, disse, satisfeito com sua evolução. Os ensinamentos obtidos nas palestras, Claudivan pratica em seu dia a dia. “Para administrar minhas finanças, fiz uma planilha em casa e estou organizando meus gastos e o quanto posso economizar. Eu não vou desistir e meu plano é continuar a estudar, vou tentar uma faculdade se tiver oportunidade “, disse determinado.

A colega de sala de aula de Claudivan, Juraci Ribeiro Lourenço, a Jô, de 68 anos, foi incentivada por uma amiga a retomar os estudos. “Quando criança, meu pai fazia questão que eu ajudasse na roça, mas não que eu fosse à escola, que era longe de casa e pouco atrativa, então parei na 3ª série. Aqui estou aprendendo muita coisa. As palestras nos incentivam a estudar mais ainda. Agora venho com vontade para a escola, muito mais do que quando era menina. Para mim, aprender significa independência: posso escrever uma carta, fazer minhas contas sobre meus ganhos e gastos sem precisar pedir ajuda para ninguém”, enfatizou.

Já Josué Coelho da Silva, 33 anos, retomou os estudos pela necessidade de se recolocar no mercado de trabalho. “Estou muito tempo sem estudar e preciso voltar, eu parei com 12 anos. Sou auxiliar de cozinha e estou desempregado, mas pretendo fazer um curso de culinária e ser um chef de cozinha. Estou determinado e acredito que me atualizar vai me ajudar a me recolocar no mercado de trabalho”, analisou Josué.

Transformações

Atualmente, mais do que alfabetizar quem não teve oportunidade de estudar ou completar os estudos quando criança, a Educação de Jovens e Adultos possui o desafio de preparar jovens e adultos para o mercado de trabalho, principalmente em tempos de crise econômica. A aprendizagem contínua tem grande valor em todas as fases da vida, e como define a Unesco, é preciso aprender a ser, a viver juntos, a fazer e a conhecer.

“Também há o desafio da participação, da inclusão e da equidade: como colocar em prática o conceito da inclusão, que prevê o atendimento das demandas de aprendizagem da vasta diversidade de grupos. O Brasil tem segmentos com características bem definidas, como os povos indígenas, as comunidades quilombolas, as pessoas mais velhas. Todos têm direito à Educação”, explicou Timothy Ireland, mestre e doutor na área em entrevista à revista Nova Escola.

Redes de ensino

A FUMEC, Secretaria Municipal de Educação de Campinas e Diretorias de Ensino Campinas Leste e Oeste, ligadas à Secretaria da Educação do Estado de São Paulo, são parceiras do Compromisso Campinas pela Educação (CCE) em diversas ações de mobilização para a causa educação, como a Semana da Educação de Campinas.

Saiba mais sobre a FUMEC: http://www.fumec.sp.gov.br/
Saiba mais sobre EJA na rede estadual de ensino: http://www.educacao.sp.gov.br/educacao-jovens-adultos
Saiba mais sobre EJA na rede municipal de ensino: http://www.campinas.sp.gov.br/governo/educacao/