Construindo foguetes, alunos melhoram o desempenho dentro da sala de aula e estreitam laços escolares

Construindo foguetes, alunos melhoram o desempenho dentro da sala de aula e estreitam laços escolares

(Por Ingrid Vogl)

Quando materiais simples e recicláveis, como garrafa pet, papelão e água são combinados a conhecimentos de ciências, física, química e matemática, o resultado é pura tecnologia. Esta é a lógica usada pela comunidade escolar da Escola Estadual Barão de Ataliba Nogueira, no Jardim Magnólia em Campinas/SP, para construir foguetes. O projétil, potente e surpreendente, chega a aproximadamente 300 km/h e é capaz de alcançar distâncias de mais de 200 metros.

Com muito estudo, empenho, experimento e trabalho em equipe, os cerca de 600 alunos do 6º ano do ensino fundamental ao 3º ano do ensino médio da escola, que é parceira do projeto FEAC na Escola, produziram mais de 200 foguetes desde o início do ano letivo. O objetivo foi participar, pelo terceiro ano consecutivo, da Mostra Brasileira de Foguetes (MOBFOG) que é realizada pela Sociedade Astronômica Brasileira (SAB) em parceria com a Agência Espacial Brasileira (AEB).

A MOBFOG tem por objetivo despertar o interesse dos jovens pela astronáutica, física, astronomia e ciências afins e promover a difusão dos conhecimentos básicos de uma forma lúdica e cooperativa, mobilizando toda a comunidade escolar de todos os anos do ensino fundamental e ensino médio de escolas públicas e privadas do país.

Unindo conhecimentos de diversas disciplinas sempre com a orientação dos professores, os alunos se empenharam para aprimorar ainda mais os bons resultados alcançados em anos anteriores, quando conquistaram a medalha de bronze em nível nacional em 2015, e no ano seguinte a conquista foi da medalha de prata, com um alcance de 186,4 metros.

Tema transversal

Mais do que uma competição em que os alunos planejam e constroem foguetes para uma disputa entre si e também com estudantes de mais de 6 mil escolas de todo o Brasil, inscritas na iniciativa, os professores enxergam as atividades desenvolvidas por meio da MOBFOG como uma oportunidade para facilitar e aprimorar o aprendizado em sala de aula. A MOBFOG permite aos estudantes a aplicação, na prática, daquilo que recebem como embasamento teórico por meio das disciplinas curriculares.

O professor de ciências Maurício José Teodoro não tem a menor dúvida de que o aprendizado em sala de aula é facilitado com a vivência prática do aluno.  Segundo ele, a equipe docente da escola tem como princípio que o órgão de aprendizado de fato é o cérebro, e ele aprende com o treinamento. Partindo dessa premissa, os educadores procuram estimular os alunos, dentro do que é possível fazer, a desenvolverem atividades práticas que sempre possuem conceitos de componentes curriculares.

“No processo de planejamento, construção e lançamento dos foguetes, por exemplo, estão envolvidas todas as áreas de conhecimento, como física, química, matemática, biologia e até mesmo língua portuguesa, já que é preciso fazer a interpretação e ter o entendimento das orientações e informações para a participação na MOBFOG. O importante é que as disciplinas estão diretamente integradas e que não existe conceito fechado. O objetivo aqui é que os alunos trabalhem o tempo todo novas descobertas que é o que interessa de fato para a evolução humana”, explicou o professor, que está à frente do projeto de foguetes na escola.

A professora de matemática e física, Ana Paula Ramos, também está envolvida com o desenvolvimento dos foguetes e concorda que a experiência dos alunos facilita o entendimento dos conteúdos em sala de aula. “No lançamento, o foguete atinge um ponto máximo de altura e faz o deslocamento em parábola. Visualizando isso, fica mais fácil de ensinar e explicar a teoria. Alguns alunos acabam se interessando mais pela matéria depois que vivenciam a construção do foguete”, disse a professora.

Segundo Maristela Lara Dante Weffort, assessora técnica do FEAC na Escola, durante a execução do Projeto dentro da escola, boas práticas desenvolvidas foram identificadas e a partir daí, houve a discussão, durante o planejamento pedagógico, sobre a importância de se qualificar a construção coletiva dessas ações, como é o caso da MOBFOG. O objetivo foi torná-lo mais participativo para atingir o sucesso da aprendizagem na sala de aula.

“Podemos reconhecer que esta atividade é uma proposta ousada e que atende a todos os requisitos do FEAC na Escola no indicador planejamento de aula, que inclui o envolvimento da comunidade escolar; domínio técnico dos professores transportando atividades práticas para conteúdo das disciplinas em sala de aula; planejamento coletivo da atividade; e por fim, a melhoria da qualidade do produto/processo”, analisou.

Base de lançamento

O ápice do projeto acontece no dia do lançamento dos foguetes. Ao todo, foram lançados oficialmente 25 projéteis este ano na Barão de Ataliba. Mas antes do grande dia, há um momento dedicado aos testes, quando todos os cerca de 200 foguetes construídos por todas as 17 turmas de alunos são lançados. Os que se destacam são selecionados para participarem do lançamento oficial, da onde saem os resultados das melhores performances para serem enviadas para a organização da MOBFOG, que em setembro, divulga os vencedores nacionais.

O empenho dos alunos pode ser notado quando se observa a cobertura da quadra esportiva da escola, logo ao lado do local definido para o lançamento dos foguetes. No teto estão espalhadas dezenas de foguetes, alguns deles estão ali desde 2014, quando a escola entrou na competição.

Integrados e familiarizados com o engenho, os alunos se ajudam na hora do lançamento, em um clima de descontração e solidariedade. Para que a performance do projétil seja conferida, a estrutura conta com uma plataforma feita com canos de PVC, um bombeador de ar e o foguete, cuja estrutura é criada com duas garrafas pets, aletas – espécie de asas – feitas de papelão distantes 120 graus umas das outras e fixadas com fitas adesivas, além de um estabilizador, composto por areia em um saquinho plástico com peso e medida milimetricamente para dar estabilidade ao projétil. O combustível é a água. Para este ano, o aprimoramento da técnica de construção foi plastificar as aletas para diminuir o atrito com o ar, aumentando assim a precisão da rota do foguete. “Apesar do material ser simples, existe muita tecnologia envolvida em todo o processo de construção e lançamento do foguete, e a técnica dos alunos está sendo desenvolvida e aprimorada o tempo todo”, avaliou Maurício.

“Por ser uma dinâmica, todo esse processo de construção e lançamento dos foguetes ajuda muito o aluno, principalmente por ser um trabalho feito em grupo, onde a gente socializa com pessoas de outros anos e cada um tem um talento específico: seja para cortar precisamente as aletas ou colá-las na estrutura do foguete. Além disso, a gente precisa estudar física, matemática e outras matérias para poder construir e analisar a performance do foguete. Para aprimorar a aerodinâmica, precisamos, por exemplo, conhecer a geometria analítica. E faz diferença aprender na prática e depois ter um melhor entendimento do assunto em sala de aula”, disse Gabriel Henrique Baron, aluno do 3º ano do ensino médio.

Já na opinião de Rafaela Biriba de Andrade, aluna do 9º ano do ensino fundamental, a experiência e todo o conhecimento necessário para se construir um foguete são levados para toda a vida. “O momento do lançamento é muito bom e inesquecível e além disso, essa experiência ajuda a entender melhor o que no papel é mais é difícil de visualizar. Dessa maneira tem muito mais significado”, afirmou.

Aliada à melhora do aprendizado em sala de aula e a socialização, a atividade ainda está associada ao estreitamento de vínculos entre alunos e professores. Segundo Fabiana Alves Veronez, professora coordenadora da escola, a melhora da relação entre professor e aluno repercute no ensino e aprendizado em sala de aula. “A atividade trouxe a diminuição dos problemas de relacionamento dentro da escola. Além disso, a ação ainda envolve questões como preservação do meio ambiente e economia, já que não demanda recursos financeiros e trabalha com materiais recicláveis”, contou.

Para este ano, o professor Maurício lançou o desafio dos alunos alcançarem os 220 metros de distância, que é o critério que define os vencedores da MOBFOG. No dia do lançamento, os alunos conseguiram chegar a 227 metros e superaram todas as expectativas. Alguém duvida que esses meninos e meninas vão longe?

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